sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Norstrilia


Cordwainer Smith (2014) Norstrilia. Phoenix Pick.

Um livro curioso, vindo de um grande mestre da FC clássica. A história do homem que comprou a Terra marca um tom de comédia discreta que se mete com futuros longínquos e com formas de escravidão tão profundas que os escravos fazem tudo para proteger os seus senhores. Livro bizarro, com líderes políticos de agendas obscuras, sensuais mulheres-gato e outros seres humano-animalescos em busca do seu messias, e camponeses milionários que se recusam a abandonar as suas tradicionais formas de estar na vida, num vasto panorama de expansão milenar pelo espaço.

A comédia discreta reside no planeta inóspito Norstrilia, corrupção linguística de Old North Australia, colonizado por (yep, adivinharam) australianos que transplantaram a sua cultura, completa com uma veneração por uma rainha de uma Inglaterra desaparecida há milénios, e encontraram a riqueza da forma mais inesperada. Colonos dedicados a criar ovelhas, descobrem que os ares do planeta provocam-lhes uma doença que as leva a segregar uma substância que permite aos que a tomam prolongar a vida indefinidamente. Graças às ovelhas doentes, a humanidade espalhada pelas galáxias atinge a semi-imortalidade, e os norstrilianos riqueza imensa. Ciosos da rudeza das suas tradições, são riquíssimos mas vivem debaixo de leis altamente restritivas que os obrigam a uma vida simples nas suas quintas, a tratar das suas ovelhas. São tão ciosos do seus modos de vida que adoptaram uma forma de darwinnismo social, com um rito de passagem obrigatório para todos os adolescentes cuja não aprovação implica uma sentença de morte.

O personagem central deste romance, Rod, é um norstriliano cuja mutação das capacidades telepáticas comuns à humanidade lhe causa dificuldades nestes ritos tradicionais. Consegue ser aprovado, mas aguarda-o a conspiração de um ressabiado homem de poder, cuja imunidade à substância que estimula a imortalidade lhe assegura uma vida curta. Para se safar à conspiração, Rod pede ajuda ao computador da família, inteligência artificial electro-mecânica que em tempos passados foi usado para guerra económica. O computador propõe-lhe jogar nas bolsas, e numa noite, graças às manobras certeiras da inteligência artificial, o obscuro herdeiro de uma herdade de criação de ovelhas doentes torna-se o homem mais rico do universo, dono do longínquo planeta Terra. O resto é um mergulho por entre as forças poderosas deste universo, como labrego rico saído da ruralidade, levado até ao centro nevrálgico terrestre, e manipulado por todos com quem se cruza.

A manipulação mais profunda vem do sector mais ignorado da sociedade. No mundo ficcional de Cordwainer Smith, há seres de primeira, os humanos nas variadas formas que adquiriram sob sóis alienígenas, seres de segunda, os robots, e seres de terceira. Estes são o resultado do cruzamento de genes animais com humanos e são seres humanóides com mistura de características físicas de animais. São uma classe sem direitos, abatidos à mínima contrariedade, uma óbvia referência ao esclavagismo, utilizados como mão de obra descartável, desprezados em todos os níveis sociais. Um desprezo tão entranhado que mesmo os mais poderosos que revelem alguma simpatia por estes seres arriscam o ostracismo. O envolvimento de Rod parece à partida dar força às pulsões pela luta pela aquisição de direitos por estes seres desprezados, mas Cordwainer Smith dá a volta a esta linha narrativa de forma completamente inusitada, mostrando que afinal estas criaturas discriminadas têm um tão grande carinho pela humanidade que tudo fazem para a manter, sacrificando os seus direitos e as suas vidas para proteger aqueles que os oprimem. Isto é síndrome de Estocolmo à escala galáctica, uma amarga reflexão sobre a habituação a sistemas sociais opressivos, que retiram não só a esperança como o próprio conceito de uma vida diferente.

Este livro estranho, originalmente um fix up que expande alguns contos de Cordwainer Smith, é uma boa introdução ao trabalho deste grande mestre da FC. Terei agora de descobrir The Rediscovery of Man, a obra que organiza os seus contos da série Instrumentality, sobre o futuro longínquo de uma humanidade tão difusa e espalhada pelo espaço, com uma cultura que nos é tão estranha que a redescoberta dos valores do passado se torna uma moda avassaladora. Norstrilia pertence a este mundo ficcional, embora se tenha tornado um romance de direito próprio.

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