sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Machines of Loving Grace


John Markoff (2015). Machines of Loving Grace. Nova Iorque: HarperCollins.


Um livro que parte com o objectivo ambicioso de detalhar os progressos e impactos da automação, inteligência artificial e amplificação de inteligência na tecnologia, economia e sociedade, mas falha redondamente, reduzindo-se a um deslumbramento com a cultura sillicon valley.

Não deixa de ter o seu valor. Markoff consegue de facto traçar um panorama da evolução da automação e inteligência artificial desde os seus primórdios até aos dias de hoje, marcando as diferenças entre a automação na economia com o pressuposto da inteligência artificial em ultrapassar os limites humanos, contrapondo com o potencial da amplificação da inteligência através de meios digitais ou robóticos inteligentes em parcerias que potenciam as capacidades humanas.

Aflora, de forma consistente mas por breves momentos, as piores implicações da automação e IA na economia, com um possível impacto tremendo na forma como concebemos o trabalho e as relações laborais. Não é assunto novo, e Brynjolfsson e McAfee fizeram-no de forma muito melhor em The Second Machine Age. Markoff invoca o aparente falhanço do argumento keynesiano de substituição de profissões tornadas obsoletas através de novas tecnologias com novas e impensáveis profissões, mas não se detém muito neste assunto, preferindo apontar os temores de forma pontual enquanto detalha as histórias de evolução quer da inteligência artificial quer de algumas implementações recentes que despertaram a atenção dos media, como os veículos autónomos e a SIRI, o assistente virtual incluído pela Apple nos iPhones.

O problema deste livro está na forma como mergulha de forma acrítica numa espécie de narração subserviente ao estilo sillicon valley. Ao detalhar a evolução de tecnologias de inteligência artificial/robótica/amplificação de inteligência, Markoff prefere centrar-se nalgumas figuras de charneira ao invés de detalhar a evolução tecnológica. Grande parte do livro é um longo organigrama sobre quem fez o quê e especialmente onde o fez. Tendência que se sente logo nos primeiros capítulos, onde o foco é necessariamente na academia e investigação universitária, e descarrila por completo quanto mais se aproxima dos dias de hoje. Torna-se uma espécie de reportagem frívola a falar de engenheiros, investigadores e programadores que fizeram projectos e geraram empresas que depois foram engolidas por outras empresas e saíram para fundar empresas que agora são outras empresas... e podia continuar com esta recursividade. É um típico discurso de um certo jornalismo económico, centrado na visão acrítica da cultura das startups como faísca da inovação e desenvolvimento tecnológico, mas faz falhar um livro que à partida afirma pretender analisar os grandes impactos da evolução tecnológica.

Se querem ler um quem é o quê e fez o quê nestes campos, Machines of Loving Grace é o livro indicado. Mas para perceber os potenciais e problemáticas trazidos pelas tecnologias avançadas de hoje, há obras bem melhores. E que nos recordam que se o panorama pode ser angustiante, as tecnologias inteligentes de robótica e IA que nos parecem quase mágicas hoje são de facto rudimentares e embrionárias, primeiros passos em campos de elevada complexidade, e ainda muito longe dos sonhos distópicos de Exterminadores Implacáveis, AMs e outras máquinas robóticas ou computacionais que reduzirão a humanidade  a artefacto arqueológico com extremo prejuízo.

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