quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Thunderbolt Jaxon


Dave Gibbons, John Higgins (2007). Thunderbolt Jaxon. La Jolla: Wildstorm.

Há alguns anos atrás Alan Moore arregimentou a sua filha Leah e John Reppion num curioso livro revivalista que recuperou num álbum alguns dos mais icónicos ou obscuros personagens dos comics clássicos britânicos. Personagens de  uma era em que os comics se destinavam apenas a crianças, sendo por isso simplistas ao extremo e desenhados a metro. O desaparecimento das publicações para rapazes que os albergavam, a influência massificadora do comic de super-heróis americano e a evolução da sensibilidade dos leitores, acompanhada pela exigência pela complexidade literária e gráfica, foram ditando o fim de personages demasiado de época, cujas histórias são hoje suportáveis apenas pelos que procuram conhecer o passado do género. Porque eram de facto más, de simplicidade patética e mal desenhadas. A cultura pop de género, como sabemos, envelhece mal. Albion juntava ícones e funcionava como um daqueles livros nostalgistas que dá novas roupagens a personagens esquecidos, despertando alguma curiosidade que se desvanece mal se pega nos originais. É um livro que se recomenda, por insuflar vida em criações esquecidas, em trazer de volta o pérfido The Spider, o obediente Robot Archie, o louco Battler Britton, o invisível The Claw ou o inexplicável Mytek the Mighty, entre outros personagens saídos dos conhecimentos enciclopédicos do clã Moore. Livro interessante, que revê o clássico com alguma contemporaneidade sem recorrer à tentação do grimdark, foge do facilitismo de republicar as velhas pranchas para um público idoso e àvido de recordar a era dourada da sua juventude, e que nos mostra que há mais nos comics britânicos para além da dominância de Judge Dredd e da 2000 AD.

Desconhecia que a Wildstorm tinha tentado pegar em Albion para explorar alguns destes personagens. Sei que Battler Britton foi revisto de forma muito interessante por Garth Ennis em série própria e de vez em quando a 2000 AD lembra-se de The Spider ou The Claw. Este, que descobri no Porto por acaso numa daquelas feiras do livro usado onde esperamos encontrar de tudo menos comics, recupera um outro personagem obscuro. Em Albion estava relegado para terceiro ou quarto plano, mas Brian Bolland parece ter-se enamorado dele e deu-lhe um livro próprio. Thunderbolt Jaxon é o prototípico herói de BD para encher rodapés de página, baseado numa criança que descobre um artefacto poderoso, no caso um cinto, que ao recitar palavras mágicas se transforma. Neste caso, transforma-se numa versão juvenil de um musculado deus nórdico vestido com um anacrónico saiote. É um personagem típico, que apela aos sentimentos de identidade das crianças mas pouca memória deixa. Boa parte dos heróis clássicos da BD segue este padrão narrativo, que não existe por acaso, é pensado para cativar o público infanto-juvenil com figuras que pretendem que a criança sonhe que ela própria se tornaria na personagem das páginas do livro ou da prancha de BD.

Bolland mete um pé no grimdark e outro na inocência clássica neste seu revivalismo. Revê o personagem no contexto de uma luta eterna entre os esquecidos deuses nórdicos, hoje ocultos sob o disfarçe de criminosos para poder continuar as suas guerras sem sentido, e mete-lhe três bruxas, ou versão nórdica das parcas, que urdem uma conspiração destinada libertar os antigos deuses do seu destino através de relíquias que vão parar às mãos de três crianças, uma das quais se tornará Jaxon, a encarnação de um aspecto do deus Thor. Todo o enredo de deuses antigos e velhas lutas segue o lado grimdark, enquanto que a ideia de crianças a pegar em artefactos mágicos que as transformam em seres poderosos recupera quase textualmente a estrutura original do personagem. O notável do livro é a forma como se diverte com o simplismo deste tipo de criações.

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