quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Fell: Cidade Selvagem


Warren Ellis, Ben Templesmith (2011). Fell: Cidade Selvagem. G.Floy.

Recordem-se que Ellis criou para a super-equipe The Authority um personagem, Jack Hawksmoor, cujo poder era estar sintonizado com o urbanismo e canalizar cidades. O fascínio de Warren Ellis pelos espaços urbanos pervade a sua obra. Se repararmos com atenção, títulos seminais seus como Transmetropolitan centram-se na relação humana com um espaço urbano perverso, deformado e visceral. Junto com o futurismo alastrante, a visão urbanista é uma das características da obra de Ellis. Recordo um título como Gun Machine, romance policial em que os tempos passados e presentes superimpostos sobre as ruas da cidade eram o cerne da história.

É nesta perspectiva que Fell se torna compreensível. É muito mais do que uma sequência de policiais Hard Boiled que, na típica forma do argumentista, esticam os limites e colidem as iconografias mais bizarras. Fell, o detective caído em desgraça, é o protagonista. Mas na verdade é o urbanismo decadente, inversamente gentrificado, com os seus habitantes degenerados, banalmente criminosos ou tragicómicos da cidade decaída de Snowton que protagoniza o comic. Algo que também é típico de Ellis. Os seus cenários são muito mais do que panos de fundo, são ambientes dinâmicos que modelam e definem as psicopatologias dos seus personagens.

Fell é também uma das raras instâncias em que o estilo gráfico de Ben Templesmith é tragável. A sua mistura de edição de imagem altamente saturada com desenho funciona bem para complementar a violência estética do texto. Os trabalhos mais recentes de Templesmith exploram em demasia uma saturação gráfica monótona.

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