segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Comics


Hellboy and the B.P.R.D. 1953: Continua a estratégia inteligente de manter vivo o icónico Hellboy sem espremer a personagem. Longe das novelas convolutas de B.P.R.D., regressando aos elementos de fantástico e terror que o tornaram querido do público. É uma lufada de terror clássico nos comics contemporâneos.


Providence #06: Não é fácil dizer isto, mas acabei de ler um dos comics mais perturbadores de que tenho memória. Alan Moore está a ser enciclopédico no que toca à obra de Lovecraft, levando-a de forma metódica à extensão lógica da sua perversidade. Fá-lo de forma discreta, sem horrores óbvios ou monstros fétidos a saltar das vinhetas. Fá-lo com um sentido de ritmo impecável, subvertendo as expectativas com um subtil horror psicológico que se revela de formas inesperadas. Como nesta cena, em que uma rapariguinha de treze anos é violada pelo personagem principal, um escritor homossexual. Só que... a rapariga é-o apenas de corpo, habitada por um espírito masculino centenário que vai saltando de corpo em corpo e troca de corpo com o escritor só para se violar a si própria com a verdadeira vitima a ser o habitante original do corpo do vitimizador. Tortuoso? Deveras, e sintomático do lodaçal de moralidade turva que caracteriza Providence. Lovecraft poderia ter chegado a estes níveis, mas o seu puritanismo impedia-o, ficando-se pelas assombrações mais clássicas. Moore não tem essas restrições. O sentimento de inquietação adensa-se a cada novo número.


Silver Surfer #15: Tendo perdido a paciência para as cíclicas reinvenções dos universos ficcionais da Marvel e da DC, não estou em condições de avaliar esta série no contexto de Secret Wars, o corrente mega evento/transformação radical/alteração profunda/whatever, dudes do universo Marvel. Até porque, nas imortais palavras de Peter Griffin, who the hell cares. É mais um mega-evento entrecruzado com títulos para obrigar os leitores a comprar mais revistas, estreitando os laços entre o universo dos comics e o do cinema, que transforma radicalmente tal como o mega-evento que o precedeu o fez e o que se seguirá fará. Para quem tenha memória mais longa do que um peixinho de aquário, esta tendência de marketing disfarçada de revolução cultural torna-se embaraçosamente entediante. A Marvel termina aqui esta série do Surfista Prateado, o que significa um ponto final nos delírios visuais retro-psicadélicos de Michael e Laura Allred. E isso sim, é uma tragédia.

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