quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Interzone #257



Mesmo com Alastair Reynolds a ancorar esta edição com um conto de hard SF pura, esta Interzone desaponta muito. Os restantes contos ou assentam em premissas interessantes mas de execução desastrosa, ou usam a FC como mero e distante adereço. Note-se que esta crítica não é uma revolta contra tendências mais literárias dentro da FC. As narrativas experimentalistas são sempre interessantes, e se nesta edição se notou um investimento em autores claramente com vontade de experimentar, não pareceu que estivessem suficientemente afinados para corresponder ao que prometiam.

A Murmuration, Alastair Reynolds: Um dos autores mais conhecidos da space opera britânica dá-nos um conto curioso, onde um cientista isolado no terreno descobre que o tipo de estudo que está a fazer, relacionado com os padrões de comportamento que regem os bandos de pássaros, tem estranhas consequências. Especialmente quando percebe que ao controlar a trajectória de alguns dos animais gera uma entidade de computação em swarm que mostra sinais de inteligência.

Songbird, Fadzlishah Johanabas: Uma belíssima capacidade narrativa, com um estilo muito imagético, não chegam para salvar um conto maculado por uma premissa patética. Numa Kuala Lumpur de futuro próximo distópico, uma rebelde envolve-se com um mercenário, extraindo-lhe informação graças à sua capacidade de... cantar. Porque, no mundo deste conto, algumas mulheres genéticamente predispostas foram manipuladas para segregar substâncias fortemente aditivas enquanto cantam. Eu avisei que a premissa era patética.

Brainwhales are Stores Too, Rick Larson: Um casal de adolescentes com mais psicotrópicos do que tino invade um laboratório de computação avançada para revelar ao mundo as condições degradantes em que vivem os computadores. Computadores biológicos, entenda-se, cachalotes que confinados em tanques conseguem fazer cálculos matemáticos complexos. Conto intrigante pelo conceito, apesar da narrativa girar mais à volta das emoções adolescentes do que aquilo que lhe dá interesse.

The Worshipful Company of Milliners, Tendai Huchu: outro conto com premissa interessante, muito poética, que falha na execução. A inspiração dos escritores vem de fantásticos chapéus invisíveis, tecidos por chapeleiras numa fábrica onde resiste a última musa literária. Premissa intrigante, de um fantástico poético, mas assente numa narrativa desconexa e difícil de seguir.

Blossoms Falling Down, Aliya Whiteley: Suspeito que a autora deste conto tenha diversas versões, prontas  enviar para revistas temáticas. Basta alterar duas ou três frases e o conto tanto fica pronto para revistas de ficção científica, romance ou de literatura de iniciais capitalizadas. Há uma ténue premissa de género, com referências muito veladas ao que me pareceu ser uma nave geracional, mas o conto mantém-se na perspectiva sentida de uma aprendiz de gueixa especializada em Haiku e a sua relação com o primeiro cliente. Lá está, alterando algumas frases, esta história muda completamente de tema e enquadramento.

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