sexta-feira, 17 de abril de 2015

Behold the Man


Michael Moorcock (1969). Behold the Man. Londres: Gollancz.

Uma das delícias das histórias de viagens no tempo é a forma como espancam a lógica linear em deliciosos paradoxos. Se a história é resistente a mudanças ou não é algo que teremos que descobrir, embora as prometidas infestações de viajantes temporais não tenham, ao que parece, sido bem sucedidas em assassinar Hitler, talvez o mais batido dos paradoxos temporais. Há outros, desde a memória temporal que se modifica por acções do futuro sobre o passado, os universos que divergem ou o pisar de uma borboleta que milénios mais à frente se vai repercutir numa mudança subtil mas fatal para quem guarda memória de um futuro que se desvaneceu. Behold the Man segue um outro caminho. Poderá um visitante do futuro a um momento histórico chave tornar-se esse momento histórico?

Será esse o destino do algo patético Karl Glogauer, livreiro judeu com pendor para a psicologia e discussões metafísicas pós-coitais que se enfia numa máquina do tempo para saber se, realmente, o filho de deus existiu e foi crucificado na Judeia romana. Algo corre mal na viagem e em vez de se apresentar como viajante sírio em busca da personagem lendária é confundido pelos Essénios como um mago egípcio. Contaminado pelo misticismo, deambula pelos vilarejos da judeia curando, graças aos seus conhecimentos de psicologia, as maleitas psicossomáticas de muitos habitantes enquanto procura pela origem dos mitos. Na cidade de Nazaré encontra, finalmente, um carpinteiro José e a sua volumosa esposa Maria, rodeada de filharada e frustrada pela maleita que acomete o primeiro filho, um paralítico com atraso mental que apenas consegue balbuciar a palavra Jesus. Em plena crise mística, Glogauer refugia-se numa sinagoga cujos rabis o irão considerar um profeta místico graças ao estranho conhecimento que traz. Resignado, decide-se a tornar-se a lenda, e assume o papel bíblico de Jesus, acabando crucificado no monte Gólgota.

Um divertido e se, que para os crentes no cristianismo roça, ou melhor, atira-se de cabeça a todo o vapor no campo da blasfémia. Quando Moorcock fala na obesidade mariana cujo olhar trai um resquício de sensualidade sente-se legiões de combatentes pela fé cristã a afiar os montantes. Jesus como vegetal humano balbuciante é algo que provoca crises cardíacas sacerdotais. Aliás, tivesse o autor escrito isto a partir dos mitos sobre Maomé e de certeza que algum comando jihadista já lhe teria empalado a cabeça degolada para edificação dos crentes. Colisão de paradoxo temporal com revisão de mito histórico, este é um conto que se torna interessante pelo desvio às normas que contém.

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