terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Interzone #254


Leitores habituais reconhecem em Nina Allan um nome que a Interzone promove agressivamente. Desde que me recordo que em todas as edições há referências a Spin. Nesta edição podemos experimentar a prosa da autora, quer com um conto quer com uma coluna regular a equilibrar as opiniões fortes de Jonathan McCalmont com algo que só consigo definir como a suavidade do toque feminino. Quanto a McCalmont, digamos que para além das excelentes colunas que tem assinado na Interzone, questionando percepções sobre o que dizemos quando falamos de FC, tem no seu Ruthless Culture um site a manter registado no radar.

Marielena - Nina Allan: um conto que começa por nos parecer uma história sentida sobre imigração com uma leve sugestão de sobrenatural. Um exilado político vindo dos sítios habituais no médio oriente deambula pelas ruas de uma Londres pouco acolhedora enquanto aguarda a confirmação do seu estatuto. Deambula e recorda quem ama e deixou no seu país longínquo, fazendo-nos intuir que é mais do que uma mulher, talvez um demónio das mitologias milenares do médio oriente incorporada num corpo feminino. O conto vai-se arrastando entre percepções do problema da imigração e sugestões de sobrenatural, até terminar no encontro entre o imigrante e uma sem-abrigo. Este ajuda-a, e ao fazê-lo descobre que tal como ele ela é uma refugiada, só que vem do futuro para prevenir um evento catastrófico que nunca chegaremos a conhecer. Conto interessante, apesar de uma prosa a puxar para o literário comiserativo.

A Minute and a Half - Jay O'Connell: conto que se lê como uma vinheta cheia de acção. É essa a história, de uma perseguição fatal contada como reminiscência por um dos sobreviventes. Pelo meio vai metendo umas curiosas referências futuristas, com drogas inteligentes que alteram a personalidade dos utilizadores, cultos suicidas e comunidades libertárias hiper-liberais fugidas à desagregação dos estados-nação. Apesar destes elementos, é um mero fragmento de acção, talvez um exercício de estilo em narração proto-cinematográfica.

Bone Deep - S. L. Nickerson: há algo de muito arrepiante neste conto. Acompanhamos uma personagem gravemente doente cuja única hipótese para pagar os tratamentos é tatuar-se com logotipos comerciais. Ser um anúncio vivo é o único recurso para as massas que não ganham o suficiente para tratamentos médicos. Os problemas agudizam-se quando as tatuagens interferem com uma cirurgia que necessita para sobreviver. Um comentário óbvio aos problemas trazidos pelo acesso privatizado à saúde, que privilegia o ganho em detrimento do humanismo.

Dark on a Darkling Earth - T.R. Napper: a Interzone de vez em quando faz-nos destas. Publica contos que são surpresas inesperadas quer pelo conceito, técnica literária ou coerência do mundo ficcional. Este é um excelente exemplo disso. Somos levados à China num futuro pós-apocalíptico, mas o autor não perde tempo a contar-nos os dramas e catástrofes que aniquilaram o planeta e o mergulharam numa névoa permanente. Ao longo da história dá-nos pequenos vislumbres intuídos e nada mais. Acompanhamos um responsável superior de uma organização extinta que se junta a um grupo de soldados à deriva para protecção e alimentação enquanto prossegue a sua viagem de regresso aos seus familiares. Eles nãosabem se a guerra terminou, quem venceu, se há governo, se há mais soldados ou sobreviventes, persistindo na sua missão de patrulhar os caminhos que conduzem a direcções que desconhecem. Pelo caminho encontram um refúgio, verdadeira arca de noé cultural que protege artefactos e memórias digitais de um tempo extinto. Conto fortíssimo, com uma ambiência visual que me faz recordar a pintura chinesa. Apesar dos indícios de tecnologia os soldados deambulam por vazios florestais, sem se cruzar com outros sobreviventes das instituições governamentais.

The Faces Between Us - Julie Day: acho que este conto é sobre um casal de namorados que invoca fantasmas inalando as cinzas de pacientes cremados num hospital abandonado. Posto desta forma até promete ser um conto interessante, mas não. Difuso, confuso, um lodaçal de leitura.

Songs Like Freight Trains - Sam Miller: outro corpo estranho nesta Interzone. Uma das personagens deste conto é mentalmente transportada aos tempos da juventude ao ouvir certas músicas. Algo que ao conduzir pode ser perigoso. Se os personagens não são eliminados com extremo prejuízo num acidente rodoviário, o leitor passa o conto a desejar que este desastre literário termine por misericórdia. Percebe-se a ambição literária, e uma ligação ténue ao fantástico, mas o estilo narrativo e a ausência de elementos de ficção científica tornam este conto uma estranha escolha editorial da revista.

Marielena - Nina Allan: um conto que começa por nos parecer uma história sentida sobre imigração com uma leve sugestão de sobrenatural. Um exilado político vindo dos sítios habituais no médio oriente deambula pelas ruas de uma Londres pouco acolhedora enquanto aguarda a confirmação do seu estatuto. Deambula e recorda quem ama e deixou no seu país longínquo, fazendo-nos intuir que é mais do que uma mulher, talvez um demónio das mitologias milenares do médio oriente incorporada num corpo feminino. O conto vai-se arrastando entre percepções do problema da imigração e sugestões de sobrenatural, até terminar no encontro entre o imigrante e uma sem-abrigo. Este ajuda-a, e ao fazê-lo descobre que tal como ele ela é uma refugiada, só que vem do futuro para prevenir um evento catastrófico que nunca chegaremos a conhecer. Conto interessante, apesar de uma prosa a puxar para o literário comiserativo.

A Minute and a Half - Jay O'Connell: conto que se lê como uma vinheta cheia de acção. É essa a história, de uma perseguição fatal contada como reminiscência por um dos sobreviventes. Pelo meio vai metendo umas curiosas referências futuristas, com drogas inteligentes que alteram a personalidade dos utilizadores, cultos suicidas e comunidades libertárias hiper-liberais fugidas à desagregação dos estados-nação. Apesar destes elementos, é um mero fragmento de acção, talvez um exercício de estilo em narração proto-cinematográfica.

Bone Deep - S. L. Nickerson: há algo de muito arrepiante neste conto. Acompanhamos uma personagem gravemente doente cuja única hipótese para pagar os tratamentos é tatuar-se com logotipos comerciais. Ser um anúncio vivo é o único recurso para as massas que não ganham o suficiente para tratamentos médicos. Os problemas agudizam-se quando as tatuagens interferem com uma cirurgia que necessita para sobreviver. Um comentário óbvio aos problemas trazidos pelo acesso privatizado à saúde, que privilegia o ganho em detrimento do humanismo.

Dark on a Darkling Earth - T.R. Napper: a Interzone de vez em quando faz-nos destas. Publica contos que são surpresas inesperadas quer pelo conceito, técnica literária ou coerência do mundo ficcional. Este é um excelente exemplo disso. Somos levados à China num futuro pós-apocalíptico, mas o autor não perde tempo a contar-nos os dramas e catástrofes que aniquilaram o planeta e o mergulharam numa névoa permanente. Ao longo da história dá-nos pequenos vislumbres intuídos e nada mais. Acompanhamos um responsável superior de uma organização extinta que se junta a um grupo de soldados à deriva para protecção e alimentação enquanto prossegue a sua viagem de regresso aos seus familiares. Eles nãosabem se a guerra terminou, quem venceu, se há governo, se há mais soldados ou sobreviventes, persistindo na sua missão de patrulhar os caminhos que conduzem a direcções que desconhecem. Pelo caminho encontram um refúgio, verdadeira arca de noé cultural que protege artefactos e memórias digitais de um tempo extinto. Conto fortíssimo, com uma ambiência visual que me faz recordar a pintura chinesa. Apesar dos indícios de tecnologia os soldados deambulam por vazios florestais, sem se cruzar com outros sobreviventes das instituições governamentais.

The Faces Between Us - Julie Day: acho que este conto é sobre um casal de namorados que invoca fantasmas inalando as cinzas de pacientes cremados num hospital abandonado. Posto desta forma até promete ser um conto interessante, mas não. Difuso, confuso, um lodaçal de leitura.

Songs Like Freight Trains - Sam Miller: outro corpo estranho nesta Interzone. Uma das personagens deste conto é mentalmente transportada aos tempos da juventude ao ouvir certas músicas. Algo que ao conduzir pode ser perigoso. Se os personagens não são eliminados com extremo prejuízo num acidente rodoviário, o leitor passa o conto a desejar que este desastre literário termine por misericórdia. Percebe-se a ambição literária, e uma ligação ténue ao fantástico, mas o estilo narrativo e a ausência de elementos de ficção científica tornam este conto uma estranha escolha editorial da revista.

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