sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Interzone #253


Uma edição mediana, que se destaca pela afirmação de Neil Williamson como autor a prestar atenção. Quanto ao resto, há por aqui muita prosa que roça o ilegível. Apenas Van Pelt consegue manter-se interessante, e há uma boa surpresa de conto amador. Mas revistas como a Interzone servem para isto mesmo, permitir aos leitores descobrir vozes novas e perceber quais destas mostram reais possibilidades de se tornarem nomes notáveis da FC e fantástico. É o caso de Williamson, que se continuar no caminho que tem mostrado se revelerá uma voz muito própria, herdeiro conceptual do estilo weird de Miéville e Tidhar.

My Father and the Martian Moon Maids - James Van Pelt: a casca exterior mostra-nos um homem de luto pelo pai recém-falecido. O cerne deste conto é um hino nostálgico à FC e fantástico, onde os dramas do presente são aliviados pelos sonhos futuristas de um passado que se vai desvanecendo na memória. Um conto com uma tonalidade muito devedora a Ray Bradbury.

Flytrap - Andrew Hook: aparentemente, venusianos andam por entre nós. E alguns têm um estranho fascínio com plantas carnívoras. Ao longo deste conto um grupo de personagens aparentemente desconexas percebe que os seus sentimentos de falta de pertença espelham o de facto não pertencerem à humanidade. O alienismo é mais espiritual do que físico. Há aqui um regressar aos mistérios da ficção científica de série B, com referências directas ao Invasion of the Body Snatchers. Mas o tom geral é etéreo e desinteressante.

The Golden Nose - Neil Williamson: depois de ler este conto e The Posset Pot na Interzone anterior, percebi que Williamson é um daqueles nomes a manter debaixo de olho. Há aqui potencial. A prosa é de alta qualidade, a capacidade narrativa agarra o leitor, e nota-se o desenvolvimento de um imaginário New Weird com forte inspiração na FC e no surreal. Parece-me vir a ser daqueles autores que se destaca da manada de contistas de FC e fantástico, com uma voz muito própria e promissora. Este conto é fabuloso. Fantástico, surreal, com um toque kafkiano e fetishista. O ser passado em Viena dá-nos o toque de decadência aristocrática europeia. A história é brilhante. Um homem que fez dos cheiros a sua vida vê-se ameaçado pela tecnologia. Depois de ter trabalhado para as mais importantes casas de perfumes enfrenta a obsolescência. O que o salvará é um curioso artefacto, um nariz artificial que acentua de tal forma a acuidade olfactiva que transforma o seu portador no mais raro e sensível detector de olfactos. Mas o artefacto traz consigo uma maldição. O seu portador corrompe-se irremediavelmente. Sendo capaz de detectar as mais raras fragrâncias, emana um cheiro próprio cada vez mais nauseabundo. O sucesso é inevitável. Os seus dotes olfactivos voltam a estar na lista das obrigações de todas as empresas que trabalham com produtos de agradar ao olfacto, mas o cheiro progressivamente nausaebundo que o personagem deita torna-o um proscrito. A mulher abandona-o, os clientes fazem tudo para tratarem de negócios à distância, os vizinhos do bairro organizam uma petição para que mude de casa. Mas, num fantástico toque de modernidade bizarra, não é o ostracismo social o destino deste personagem trágico. Estamos no século XXI, e através da internet organiza-se um grupo de fetichistas que se excita sexualmente com os odores horrendos do artista do olfacto. O portador do nariz terminará os seus dias a satisfazer os desejos sexuais deste grupo ínfimo mas afluente. Deliciosamente bizarro e bem escrito, este é o melhor conto desta edição da Interzone.

Beside The Dammed River - D.J. Cockburn: A edição de julho-agosto tem por tradição publicar o conto vencedor de um concurso literário anual restrito a autores amadores. A primeira reacção é passar à frente, mas se o fizesse perderia um excelente conto. Mistura CliFi com futurismo tecnológico numa prosa atraente que nos leva numa pequena aventura numa zona ressequida do Camboja. Uma funcionária de uma empresa de mineração espacial acompanha o carregamento de um asteróide raro cuja trajectória de inserção orbital não correu como planeado, mas a camioneta avaria no meio de uma aldeia perdida. Encontra aí o mais inesperado dos ajudantes, um ex-professor universitário desiludido com o seu país, que usa os seus conhecimentos técnicos para ajudar uma população abandonada à sua sorte a sobreviver. Este conto foi uma surpresa interessante, e, para um autor amador, muito melhor do que outras propostas de escritores profissionais publicadas nesta edição.

Chasmata - Catherine Tobler: um conto que sofre muito da doença do pretensiosismo literário. Tão pretensioso que se torna ilegível. Percebe-se vagamente que a história tem qualquer coisa a ver com colonos marcianos e os seus filhos, primeira geração humana nativa do planeta vermelho que se parece tornar marciana. Remete para Dark They Were, And Golden Eyed, conto clássico de Ray Bradbury que leva a extremos a ideia de assimilação jungiana, mas como o autor talvez suspeite que o leitor não perceba a relação termina a invocar o nome de Ray três vezes. Já tínhamos percebido. A vontade que dá é recomendar ao autor que esqueça a FC e se dedique às ficções etéreas. Aí é capaz de encontrar o seu público.

The Bars of Orion - Caren Gussoff: este conto parte de uma premissa muito interessante. E se a realidade colapsasse, com dois sobreviventes a descobrir-se refugiados numa realidade paralela, similar à sua mas onde as pessoas que sempre conheceram têm outros nomes e outras vidas, onde os espaços físicos são os mesmos mas não são bem os mesmos? Intrigante, mas o conto segue a via da comiseração psicológica, com um dos personagens a lidar com o sentimento de não-pertença frequentando uma psicóloga que, estranhamente, não o interna no asilo por afirmar que veio de um universo paralelo.

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