quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Interzone #252



Se os dois contos que encerram esta Interzone são banais e recorrem ao fantástico como mero adereço, as restantes propostas literárias são fortíssimas. Nesta edição temos FC pós-apocalíptica, CliFi com contornos de terror, hard SF e até, coisa rara, experimentalismo literário. Os contos com que encerra é que são de todo dispensáveis.

The Posset Pot - Neil Williamson: Um apocalipse intimista, com dois sobreviventes a tentar manter um sentido de normalidade numa Glasgow deserta, esburacada, como o planeta, por esferas misteriosas que se materializam aleatoriamente. A física devora o planeta, talvez devido a singularidades descontroladas saídas de uma experiência do CERN. O que é certo é que as esferas materializam-se e desvanecem, levando consigo o que apanharem no seu interior. E, por vezes, deixam para trás objectos e indícios de outras eras, outros espaços e tempos.

The Mortuaries - Katharine Duckett: um muito bem escrito conto de climate fiction, com uma poderosa linguagem visual e uma inconsistência surreal que lhe dá o gosto. Num futuro já para lá do colapso, com a humanidade impotente perante um clima fora de controlo e a derrocada dos sistemas sociais, resta um estranho monumento à vontade de imortalidade: duas casas mortuárias, especializadas em plastinar cadáveres, uma preservando a utopia inatingível da felicidade material, a outra preservando o horror grand-guignol da morte real. Dois bastiões de anormalidade hierática no meio de um mundo que se desagrega, vistos pelo olhar de uma criança que sabe não ter futuro, e sente um estranho fascínio pelos silêncios dos espaços da morte, agudizado pela pressão de viver em espaços sobrecarregados. Conto fortíssimo, que usa elementos do horror - o fascínio pelas coisas fúnebres, para alinhar uma belíssima visão distópica de climate fiction e consegue tocar no desepero perante a desagregação que tudo o que se conhece, nas dores da morte, na vontade humana de lutar apesar da pouca esperança, e até do racismo.

Diving into the Wreck - Val Nolan: hard SF com um toque arqueológico. Num futuro próximo, com a humanidade a espalhar-se pelo sistema solar, a busca por artefactos dos primórdios da era espacial é objecto de estudo e obsessão por aqueles que querem manter viva a memória dos tempos em que não havia motores de fusão e elevadores espaciais. Equipes de arqueólogos vistoriam a órbita terrestre, recuperando satélites esquecidos e estágios de lançadores, ou perscrutam luas e planetas para trazer antigas sondas robóticas para uma segunda vida como objectos de museu. Um dos módulos abandonados da Apollo 11, perdido na superfície lunar, é o mistério mais apetecido pelos entusiastas e investigadores. Quando o amigo de um exo-arqueólogo é desafiado para partir numa expedição que o descobre perdido na superfície lunar, percebe que o verdadeiro sentido do artefacto reside no seu mistério. Desvendá-lo esvazia-lo-á de significado, e para isso tem de eliminar o arqueólogo.

Two Thruths and a Lie - Oliver Buckram: o experimentalismo literário mais radical anda muito arredado do panorama das revistas de FC, apesar do enorme peso histórico e conceptual da New Worlds. Este conto é uma raridade, estando mais no espírito experimental de J. G. Ballard do que do habitual no conto fantástico. A história constrói-se de fragmentos de texto e jogos intrigantes de palavras.

A Brief Light - Claire Humphrey: fiquei sem perceber se esta história tinha a ver com lesbianismo incerto, um casamento em crise ou infestações de fantasmas que ressurgem em todos os cantos. O que é certo é que esta é uma daquelas histórias em que o fantástico não passa de mero cenário para dramas românticos. A ideia de fantasmas que se vão multiplicando pelos espaços arquitectónicos tem a sua piada, mas tudo o resto lê-se como uma banal história melosa de revista femenina.

Sleepless - Bonnie Stufflebeam: neste conto o fantástico como elemento decorativo é levado tão longe que mal é aflorado. Estranha história para ser publicada na Interzone. Há umas criaturas que surgem durante a noite, mas a história é sobre uma mulher que está a aprender a lidar com a proximidade da morte do pai.

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