terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Sudo

O porquê da real importância de incentivar o uso de tecnologias com os nossos alunos vai mais além da visão de pesquisar/organizar conhecimento, fazer pontes geracionais, estimular o interesse das crianças ou aproveitar tecnologias e apps com potenciais pedagógicos.

Tem mais a ver com o conceito de capacitação. Takeown (ou sudo, se preferirem linux): a ideia que a evolução tecnológica, e especialmente a social, vista num espírito de liberdade progressista, depende de todos nós e não de élites esclarecidas. Gosto da palavra take/own, comando do windows, porque é mesmo isto: pegar/apropriar. O poder da tecnologia nas nossas mãos está aí, na capacidade ao alcance de cada um de nós de abrir de novas possibilidades, que podem ir do simples prosuming ao inventor de garagem que cria robots autónomos só porque sim. Algo que é abertamente combatido pelas instituições, porque sentem a sua base de poder ameaçada ou é mais fácil lucrar com o corrente estado das coisas. Funciona em duas frentes: restrições legais e incentivar a utilização na óptica do utilizador, esse belo termo das TI que designa aquele que apenas usa e não percebe nada do que se passa por detrás do teclado/ecrã táctil. O incentivo ao consumir, ver, manter vivo o medo de abrir, perceber como é que a coisa é feita, como se pode fazer, pode transformar a maioria dos utilizadores nos couch potatoes do século XXI. Sobrevive a este darwinismo digital uma élite quase sacerdotal daqueles que sabem, criam, constroem, fazem, vistos com um misto de apreensão e deslumbre pelos restantes. Suspeito que quando nos sentimos inclinados a concordar com o alarmismo do Nicholas Carr, ou tememos a associalização por efeito de tecnologias que nos interligam a grandes distâncias mas podem quebrar os laços mais próximos, o que realmente nos apoquenta seja mesmo isto: a sensação que o poder transformativo da tecnologia não está nas nossas mãos e depende do controle de eminências cinzentas.

Não tem de ser assim. A panóplia de tecnologias ao nosso dispor para contrariar a tendência da redução à óptica do utilizador é enorme e em crescimento. Podemos usar os humildes blogs, wikis ou apps para estruturar conhecimento, fazendo com que os alunos ponham a funcionar os neurónios para além da dúbia absorção de informação. Podemos ir mais longe: com programação (scratch, kodu, e linguagens mais profissionais para adolescentes), incentivando pensamento computacional e mostrando-lhes o cerne do mundo digital; Arduino e open hardware, tocando no making, no fazer, no estímulo ao engenho, misturando bits com ferros de soldar e resistências; 3D printing, fazendo a ponte entre arte e tecnologia, incentivando a procura por soluções individuais em objectos que materializam o digital; hacktivismo, usando as redes digitais para excercer cidadania activa. Ou como o Cory Doctorow diz muito melhor do que eu, "Freedom in the future will require us to have the capacity to monitor our devices and set meaningful policies for them; to examine and terminate the software processes that runs on them; and to maintain them as honest servants to our will, not as traitors and spies working for criminals, thugs, and control freaks."

Creio que a maior dádiva que podemos dar aos nossos alunos é despertá-los para as possibilidades que o futuro lhes trará, capacitando-os para serem criativos e intervenientes, não servos automatizados sujeitos aos caprichos da finança e economia do capitalismo terminal. Isso requer da nossa parte um esforço acrescido de procura de conhecimento sobre o mundo digital (não vai lá só com formação, cuja falta é queixa comum entre os docentes) e flexibilidade de abordagens. Não é tarefa fácil. Mas é a competência digital essencial para professores que se queiram manter pertinente a educação no futuro próximo.

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