quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Espelho retrovisor

Num mooc que estou a frequentar, Competências Digitais para Professoresas discussões iniciaram-se com este vídeo, What the Internet is Doing to Your Brain, essencialmente uma animação bonitinha que repesca o catastrofismo digital conservador de Nichlas Carr, autor de The Shallows e do controverso Is Google Making Us Stupid. a coisa caiu que nem um docinho no meio de gulosos. Suspeito que boa parte dos participantes neste mooc tivesse tido ali o primeiro contacto com este lado crítico. Que, refira-se, já não é novo.

O mcluhanismo pode ser assustador, sabemos Essa ideia de que as ferramentas que usamos modelam-nos tanto ou mais do que as modelamos a elas mexe com conceitos que nos são elementares como livre arbítrio, auto-controle ou liberdade de pensamento. E se lhe metermos uma nova tecnologia dá sempre espaço às visões apocalípticas sobre a catástrofe civilizacional iminente porque as novas gerações não serão como a nossa e daí nada de bom poderá advir.

Adoro aquela história (se não me enganto via Brian Winston, Media Technology and Society, um livro excepcional, apesar de ter uma prosa árida, sobre a evolução das tecnologias mediáticas)sobre os tempos em que não havia internet, televisão, videogames ou radio e os romances eram considerados perniciosas influências sobre a mente juvenil. Curiosamente vieram a tornar-se clássicos da literatura, caso de Werther de Goethe, várias vezes acusado de incentivar o suicídio nos jovens da época romântica.

How is the internet changing the way we think foi a questão Edge para 2010. Edge, para aqueles que não conhecem, é um projecto coordenado por John Brockman que todos os anos faz uma pergunta, respondida pelos maiores nomes da ciência, pensamento e tecnologia da actualidade. Vão ler, são fascinantes. Das respostas para 2010 cito esta em especial: "Before cuneiform, we revered the epic poet. Before Gutenberg, we exalted good handwriting. We still gasp at feats of linear memory". Ou, como numa disputa literária Warren Ellis (fãs de bd por aqui conhecem a importância deste escritor) observou: "Some beardy druid from the oral tradition, a few thousand years back: I don’t want to wake up and look at paper. I feel like as a society, we try to put everything on that same (Brythonic swear word) piece of paper, and pretty soon we’re going to be eating on paper or, forsooth, making love through paper. It’s just sort of like: "Why does everything have to be on the paper?"

O que não quer dizer que isto seja uma questão linear. Carr não deixa de ter alguma razão, especialmente na necessidade de reflexão e afastamento do constante fluxo. Ok, fluxo é palavra que não chega para descrever. Torrente de informação. Para não variar, o que nos é mais eficaz está no cruzamento dos argumentos. Em 2008 Carr perguntou Is Google Making us Stupid, na revista The New Atlantic (outra leitura regular recomendada). Seis anos depois, digam-me lá, sentem-se mais.. pronto, serei elegante: menos inteligentes?

Junto a este vídeo havia outro, criado pela biblioteca da universidade de Bergen, para despertar a atenção sobre as problemáticas do plágio. Tinha um jovem estudante com prazos a cumprir que, distraído pelas mamocas das namoradas, cai na tentação de plagiar para entregar um trabalho a tempo e horas. A coisa segue um caminho dickensiano, com um fantasma do futuro a mostrar-lhe as consequências perniciosas do seu acto. Não cede e é recompensado com uma festa onde acaba rodeado por cheerleaders de mamocas generosas e vestes curtas. Difícil de descrever a incredulidade com que vi uma instituição académica a objectificar o corpo feminino para ensinar a boa ética anti-plágio. O filme até tinha killer robots, mas mesmo assim não se desculpa. Percebe-se a tentativa de tornar leve e divertido um tema complexo, mas só lhes faltou recorrer ao estragema pr0n de meter uma biblitecária jeitosa pronta a tirar os óculos e o resto das parcas vestes para recompensar a consciência ética do estudante.

(Suspeito que eventualmente serei proscrito deste curso, se continuar com os meus desvios à linha de pensamento institucional.)

2 comentários:

João Campos disse...

"Seis anos depois, digam-me lá, sentem-se mais.. pronto, serei elegante: menos inteligentes?"

Já lá vão uns aninhos desde que li o Carr (tive até o privilégio de assistir a uma conferência com ele, logo nos meus primeiros dias de jornalista), mas tenho ideia de que esta noção era mais de longo prazo. Dito de outra forma: não ficámos mais estúpidos em seis anos (nem ficaremos noutros seis), mas estas mudanças cognitivas podem fazer-se sentir ao longo de gerações.

Talvez o problema resida no adjectivo "stupid", claramente sensacionalista; pensando com alguma ligeireza na coisa, não diria que a Internet está a fazer as pessoas ficarem menos inteligentes - começa é a provocar mudanças na própria inteligência.

artur coelho disse...

só para contextualizar: tinha 249 profs a acenar a cabeça em concordância depois de ver um vídeo superficial que destila o carr ao nível mais básico. tinha de ser um bocadinho... sensacionalista. como em tudo na vida, é nos meios termos que os argumentos são mais válidos, mas isso não vende livros nem rende clicks.

a sério, irrita-me imensamente a carneirice dos meus colegas nestes assuntos. percebo-os. sentem-se intimidados e qualquer idealismo conservador que afirme que antigamente é que era bom e essas coisas modernas de hoje só trazem malefícios deixa-os sorridentes. e obsoletos, coisa que me vou fartando de dizer...