terça-feira, 16 de setembro de 2014

The Definitive Silver Surfer


Stan Lee, Jack Kirby, John Buscema, John Byrne, Jean Giraud (2007). The Definitive Silver Surfer. Tunbridge Wells: Panini.

A sintonia com os estados de espírito da adolescência é uma das grandes marcas dos mais icónicos personagens da Marvel. Percebi isso quando, ainda adolescente, fiquei cativo das aventuras dos X-Men escritos por Chris Claremont. Aquilo era mais do que histórias de aventuras com lutas à mistura. As vidas pessoais dos personagens encadeavam-se, cada qual com os seus dilemas, e a sofrer com as injustiças de uma sociedade que não os compreende. Uma óbvia metáfora para os sentimentos que passam pela turbulenta alma adolescente, onde o corpo e o pensamento se desenvolvem em conflito com as estruturas e o normal se redefine a cada dia. Os X-Men, lutadores injustiçados por uma humanidade que os ostraciza, são um dos exemplos desta linha de pensamento, que é encarnada na totalidade pela eterna adolescência do Homem-Aranha.

Há um personagem que leva aos limites este espírito de homem contra o mundo, de honra face à injustiça, de emoções levadas ao épico e, confessemos, pomposo. Silver Surfer é um dos mais icónicos personagens de segunda linha da editora, hoje alvo de um bem humorado tratamento em estilo retro. Na sua origem, às mãos de Stan Lee e Jack Kirby, tornou-se admirável pela forma hiperbólica como encarnou o espírito de sacrifício com uma importante veia psicadélica. Surfista das ondas do cosmos, sacrifica-se para salvar o seu planeta tornando-se arauto de Galactus e sacrifica-se novamente para salvar a Terra, ameaçada por uma força cósmica indiferente aos destinos humanos. Galactus em si é uma personagem muito interessante, metáfora das forças primevas que estão para além do nosso controlo e não se enquadram na dicotomia do bem e do mal. A sua história de origem original (porque estas coisas estão sempre a ser reinventadas no mundo dos comics) qualifica-o como sobrevivente de uma civilização avançada do universo anterior ao nosso, com o big bang a torná-lo uma entidade cósmica essencial à estrutura do universo. Anos 60. O que é que o Kirby e o Lee andariam a ler e a tomar para ter ideias destas?

As histórias de Silver Surfer são sempre aventuras de incompreensão. Não por acaso o seu arqui-inimigo é Mefisto, um demónio dominador que utiliza enganos e ilusões como armas. A humanidade que tanto ama, ao ponto de sacrificar várias vezes a sua liberdade por ela, considera-o uma ameaça e recebe-o a tiro de artilharia ou caça-o com aviões de combate. Por muita amargura que Silver Surfer sinta, a consciência da bondade humana elementar nunca o abandona. Imensamente poderoso, resiste a usar toda a sua força para enfrentar aqueles que vê como seres equivocados. Apenas alguns dos seus pares, super-heróis todo-poderosos, o conhecem e respeitam. O grupo não é grande. Fica-se pelo Quarteto Fantástico e o Doutor Estranho. Silver Surfer sempre foi demasiado icónico e unidimensional para se tornar um personagem de primeira linha da Marvel.

The Definitive Silver Surfer não é um compêndio do personagem. Reúne algumas das suas melhores histórias, dando-nos uma imagem que caracteriza o personagem. Começamos pela primeira aparição nas páginas de Fantastic Four, onde estes enfrentam a ameaça cósmica de Galactus e Silver Surfer se sacrifica. Da sua revista original é reimpresso o primeiro número, um delírio do traço de ficção científica de Jack Kirby, que nos leva a Zenn-la, o seu planeta de origem e nos apresenta ao seu inabalável amor, a bela Shalla Bal. O rigoroso humanismo e persistência do personagem são postos em evidência por confrontos contra um enraivecido Hulk, o insidioso Mefisto e o horror de Drácula. A primeira fuga bem sucedida à barreira que o prende à Terra, ajudado pela super-ciência de Reed Richards, confronta-o com as consequências da sua decisão ao encontrar os sobreviventes de Zenn-La após Galacutus o ter devastado, desobrigado da sua promessa pela rebeldia de Silver Surfer. Para terminar, temos a marcante parábola que uniu duas lendas dos comics. Stan Lee descreve um futuro amargo onde Galactus, vingativo, regressa à Terra para influenciar o pior da alma humana no caminho da auto-destruição e apenas o discreto mas sempre vigilante Silver Surfer lhe resiste. Moebius ilustra, naquela que ficou registada como uma das mais lendárias incursões do mestre da BD francófona no mundo dos comics.

Silver Surfer é um dos mais intrigantes personagens do universo Marvel. De convicções inabaláveis, vítima de um estilismo algo stürm und drang romântico, hiperbólico na sua dignidade e perserverança, e com o toque psicadélico dado pela referência ao poder cósmico, nunca atingiu a popularidade das personagens mais icónicas mas tem presença suficiente para não se tornar secundarizado. Esta mistura de surf, psicadelismo e emoções, continua hoje a deslumbrar os fãs com as suas aventuras pelo cosmos fora, que sulca sempre equilibrado na sua fiel prancha.

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