terça-feira, 29 de julho de 2014

Revista Gerador


Suponho que deve haver algo profundamente errado com os meus neurónios por não me conseguir render em admiração a esta revista tão proclamadora de amor às culturas portuguesas. Até à banda desenhada reservam uma declaração. Cheia de boas intenções e declarações elogiosas esta nova revista cultural está, o problema é que não passa disso. O hype gerado é enorme e contam com colaboradores de peso, dos quais se destaca à cabeça o romancista Afonso Cruz. O grafismo é excelente, com paginação cuidada, muita e boa ilustração, fotografia de qualidade e desafios gráficos de estética bem conseguida.

Só que... depois da parra pega-se na uva e sai de lá muito pouco sumo. Talvez esteja a ser injusto. Talvez, por ser a primeira edição, esta não passe de um manifesto, de uma carta de intenções. Espero que assim seja, porque o que li é de uma superficialidade aterradora. Odes ao pastel de nata, o elogio do portugal, portugal, portugal até à exaustão. Não que haja nada de mal em admirar o que nos caracteriza, bem pelo contrário. Mas resumir isso ao mero apregoar de listas de coisas mais ou menos na moda no espírito pop-cultural dos tempos é prometer muita uva mas fornecer pouco sumo. Talvez o que melhor resuma este extraordinário desequilíbrio entre grafismo e conteúdo seja a banda desenhada publicada, com um traço de desenho excelente e um argumento de uma puerilidade abismal. Note-se que não me refiro ao tema. A questão da co-adopção é de facto uma de justiça humanista, ao longo da minha carreira tenho assistido a muitos exemplos de como o superior interesse da criança não fica nada bem servido pelas famílias biológicas, e a co-adoção é nisto um pequeno mas muito importante pormenor das crises de uma sociedade conservadora com o emergir de verdadeiras liberdades individuais. Posto isto, o autor safa-se com uma história ao nível da mais típica ingenuidade adolescente, algo que pela biografia me pareça que já não seja.

Se calhar estou a ser injusto. Passa-me ao lado porque não está pensada para a minha tipologia de gostos. Está claro que esta revista não se destina ao meu tipo de público cultural. É um produto bonito para ser consumido por pessoas de aspecto cuidado mas alguma superficialidade. A revista é fortemente hipsterizada e fica melhor se lida nalguma esplanada patrocinada pela TimeOut, nalgum espaço lisboeta trendy descaracterizado pela gentrificação, algures entre a loja de decoração, o espaço de bric-a-brac vintage e o café decorado com andorinhas e bebidas que talvez até incluam café. Aposto que estes públicos se deliciarão com as odes ao pastel de nata e aos piropos aplicados à arquitectura (algo que tem de ser lido para ser acreditado).

Espero que melhore e não se fique pela banalidade do sorriso deslumbrado com a iconografia da cultura portuguesa. Precisamos de mais meios de divulgação cultural que combatam o cinzentismo monolítico da grande cultura portuguesa, impondo as outras culturas em pé de igualdade com a visão que tanto se sente como imposta da intelligentsia. Mas para isso estes geradores precisam de ser menos hip e mais profundos. É que já li coisas mais acutilantes naqueles blogs de crítica literária que se limitam a copiar a sinopse dos livros do site da editora e comentam com uns "foi fixe" ou "não gosto porque... razões" à laia de crítica. Da forma como está trai a banalidade de uma certa vanguarda que aposta no estilo e no soundbyte oco como justificação para a rapidez com que ciclam entre produtores e produtos culturais de consumo rápido.

(Há uma certa vantagem em ser um blogger obscuro. Posso escrever destas e continuar a ir à minha querida Lisboa sem temer que hordes de tipinhos barbudos de cabelo bem apessoado emoldurado por chapéus e óculos de massa, com propensão para usar camisolinhas e calças justas com sapatilhas coloridas me agridam com os seus moleskines e iCoisos e livros semi-lidos que estão na moda. De qualquer forma vou-me mantendo afastado dos locais trendy. É que os iphones são rijos e podem fazer doer na eventualidade de acertar no alvo.)

2 comentários:

Morrighan disse...

Olá Artur,

Também eu pensei dessa maneira quando vi a revista e, não estando aqui para defender ninguém, após falar com os organizadores da mesma, percebi que esta é apenas uma das faces do projecto.

O Gerador, em si, não é a revista, mas a revista é parte do Gerador. Na entrevista que lhes fiz, e que pode ser lida aqui http://www.branmorrighan.com/2014/07/a-conversa-com-tiago-sigorelho-e-pedro.html, penso que se percebe um pouco a intenção, pelo menos.

O meu maior receio, de quando falei com eles, foi a questão da dispersão. No primeiro evento que fizeram este fim-de-semana, estive lá duas horas e nessas duas horas assisti a criadores de BD, ilustradores, pintores, sketchers, peça de teatro, debates, etc. Penso que ainda tocou uma banda ao final da noite, etc.

A mim parece-me, claramente, que este número da revista é uma carta de intenções que poderá ainda vir a ser estendida, mas acima de tudo eu acho que o Gerador pode marcar ainda mais a diferença com os eventos, intervindo activamente. Com a estrutura e parceiros que têm, penso que a base está lá.

A ver como corre daqui para a frente!

artur coelho disse...

também espero que sim. esta primeira edição pode sofrer de superficialidade face às intenções mas a vontade de dar projecção ao que se faz por cá é de louvar.