domingo, 2 de março de 2014

Higiene





"Só à guitarra se podem carpir saudades destas vielas estreitas, insalubres..." diz a voz narrativa clássica deste documentário dos anos 40 sobre o futuro de Lisboa enquanto nos mostra uma visão de pesadelo ao melhor estilo Le Corbusier para a Rua da Palma. Se hoje consideramos estas visões um absurdo (mas note-se que à época aquilo eram mesmo vielas insalubres) não deixamos de ter uma forma contemporânea de transformar os espaços urbanos clássicos no que são os novos pesadelos, já não do alto modernismo geometrizado mas da cultura corporativa pós-industrial desenfreada.

Confesso que é cada vez mais deprimente passar pelas ruas da Lisboa antiga. A arquitectura brilha, renovada, as pedras das calçadas estão limpas, as ruas luzem. Mas paga-se um preço pela higienização dos espaços urbanos. Os locais tradicionais estão a desaparecer. Alguns esfumam-se no natural progresso dos tempos, mas nota-se uma pressão crescente de interesses económicos específicos E o que nos dão em troca? Vastas esplanadas para captar turistas. Armadilhas gastronómicas disfarçadas de restaurantes que apregoam a comida portuguesa para turistas, com empregados exímios em meterem-se à nossa frente na rua para nos convencer a degustar as suas caras e mal confeccionadas iguarias. Lojas cheias de quinquilharia destinada a atafulhar as sacolas dos turistas. Nas zonas mais nobres, lojas in e hip de roupas ou objectos de design substituem livrarias e outros espaços. O que resulta é uma cidade estéril. Limpa, higiénica, de cara lavada e cores brilhantes na arquitectura restaurada, mas essencialmente estéril, pensada para captar a atenção fugaz do turista e a vacuidade das elites económicas modistas. Não é essencialmente diferente de outras cidades nesta nova europa que clama os ardores do neoliberalismo alastrante.

À entrada do Largo do Duque sexshops vendem ovelhas de plástico para... deixemos a imagem mental para a imaginação. Na Rua Augusta os negócios dead media vão se esgotando, mas as tradições clássicas têm o seu espaço. E no Rossio somos brindados com uma visão digna do filme Blade Runner, mas a vender lingerie e não coca-cola. Imagens registadas num passeio por Lisboa durante o workshop Fotografias para a História. Enquanto redescobria os lugares e arquitectura que por mais que pense conhecê-los bem têm sempre uma nova dimensão a descobrir e um novo olhar a vislumbrar, fiquei aterrado com a esterilidade da Baixa. Note-se que não tenho nada contra progressos, economia e turismo. Mas valerá mesmo a pena transformar as nossas cidades em bibelots para contemplação apressada?


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