segunda-feira, 31 de março de 2014

Comics


The Sandman Overture #02: No universo mítico do Senhor dos Sonhos até os antigos anciães que dormem nas tenebrosas profundezas sonham. Resta o aspecto lovecraftiano de Morpheus para os fazer sonhar, acarinhando-os enquanto esperam adormecidos pelo inevitável despertar. É uma piscadela de olho de Gaiman a Lovecraft numa linha narrativa onde confluem uma infinidade de variantes de Sandman. As mitologias variam entre culturas, mas há arquétipos universais, mensagem que já na série clássica Gaiman se esforçava por transmitir.


Visualmente o comic está esplendoroso. A DC, ciosa da visão de The Sandman como um comic de referência e elevadíssima qualidade, deu carta branca à equipa criativa. Se de Gaiman já sabemos o que esperar, J.H. Williams III está a levar o grafismo a limites pouco usuais nesta editora mainstream. Já as capas de Dave McKean.... o que dizer? O que sai da mente e das mãos deste ilustrador é sempre um mimo para os olhos. A aposta está em refrescar a série com um momento pontual de prestígio. Claro que, sendo fã quer de Gaiman, quer do personagem, quer dos ilustradores, a minha opinião é muito suspeita. Digamos que este fanboy está nas nuvens a delirar com esta nova série de The Sandman.


Fatale #21: Esta série tem sido consistente na sua elevada qualidade. Aproxima-se do fim e nota-se que Brubaker e Phillips já estão a olhar para outros horizontes. Afinal, carta branca da Image para fazerem o que quiserem é um desafio e tanto. Percebe-se que a conclusão iminente de Fatale esteja a ser apressada, com Brubaker a encafuar todos os elementos que foi deixando dispersos ao longo da série em poucas páginas. Esperava-se um final melhor, dentro da linha de argumentos de alta qualidade a que este escritor nos habituou, e não uma conclusão feita à pressa. Mas ainda mantenho esperanças que o grande final faça jus e coloque um merecido ponto final nas aventuras da mais elusiva e fascinante das mulheres fatais dos comics da actualidade.


Midas Flesh #04: Ainda não tinha destacado aqui esta intrigante série de FC juvenil da Boom Studios. A história é simples, num registo space opera em que um grupo de adolescentes enfrenta um vasto império galáctico, e a ilustração tem uma simplicidade refrescante, conseguindo manter de forma muito informal a espectacularidade da FC em modo de aventuras espaciais. Visualmente interessante, mas o conceito de base não lhe fica atrás. Num longínquo futuro, com a galáxia dominada por uma imponente aliança militar, um grupo de rebeldes composto por uma jovem milionária, uma hacker muçulmana e um dinossauro inteligente procuram vingar-se da opressão das forças aliadas. Na fuga da destruição do seu planeta e quase extermínio da sua espécie o dinossauro depara-se com documentos que comprovam a existência do mais bem guardado segredo da galáxia: uma arma ultra-secreta guardada num planeta deliberadamente esquecido nos mapas estelares. E assim os três jovens rebeldes chegam à Terra, um planeta congelado no tempo porque o lendário toque de Midas foi uma maldição que transformou todo o planeta em ouro. Há por aqui muitos mistérios a desvendar. Midas é o único ser de carne pulsante num planeta onde tudo se transformou em estátuas de ouro. Um toque do dedo dele, arrancado com grande cuidado pelos intrépidos adolescentes, é o suficiente para aniquilar uma portentosa nave estelar. A questão que vai ficando mas nunca é respondida é a de se a maldição será revertida e a Terra voltará à normalidade, após milénios como um rochedo dourado com céus azuis. Fiel ao publico YA da série, esta centra-se na dinâmica interna das relações entre os personagens. E notem que mesmo aqui é interessante. A capitã quebra os estereótipos masculinos do género, e é forçada a decisões incómodas. A mais capaz dos tripulantes mistura o optimismo hacker da tecnologia com uma reverência profunda pela tradição islâmica. E o corajoso dinossauro inteligente é a óbvia metáfora das consequências intelectuais das xenofobias. Junte-se a isto a saudável dose de rebelião contra autoritarismo, que vai tão ao encontro do ideário dos adolescentes, e temos os ingredientes para uma série muito interessante de comics.

The Manhattan Projects #19: Conhecem a expressão batshit insane? Lamento, mas não consigo encontrar melhor para descrever esta edição do comic mais destrambelhado de Hickman. As múltiplas personalidades de Oppenheimer que dão um dos motes a esta série colidem num conflito final. Infindas variações das personalidades enfrentam-se numa guerra civil dentro do mundo contido no cérebro do cientista. Só uma sairá vencedora e dominará para sempre a mente finalmente unificada, a menos que... no momento do seu triunfo um sobrevivente Albert Einstein consiga regressar dos mundos perdidos por onde andou e abata Oppenheimer com um certeiro tiro na mioleira. Yep. Leram bem. Guerras civis de múltiplas personalidades dentro de uma mente e Einstein como last action hero. Esta série tem sempre uma surpresa guardada na manga.


The Wake #07: Scott Snyder dividiu com muita precisão The Wake  em duas partes. A primeira deu-nos o horror claustrofóbico dentro de uma base submarina assolada por uma criatura monstruosa acordada depois de descoberta nas profundezas oceânicas. Na segunda parte o tom é o de ficção pós-apocalíptica, com um mundo que se desmoronou assolado por uma infestação de monstros submarinos. As ordens políticas desfizeram-se, as nações colapsaram, e senhores da guerra tentam manter os territórios de terra seca livres de monstros ou de humanos que se adaptaram para viver nas zonas onde o mar colide com a terra. É uma curiosa mudança de registo numa série que começou por ser de puro horror e que agora entra definitivamente no campo da FC.

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