quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Transcendental


James Gunn (2013). Transcendental. Nova Iorque: TOR.

Há livros que nos apanham de surpresa e nos levam à frente de enxurrada. Estaria a mentir se dissesse que este é um deles, porque quando peguei nele já ia com as expectativas elevadas. Mesmo assim surpreendeu. E levou de enxurrada. Para já esta foi a melhor e mais surpreendente leitura que fiz em 2014, confissão que vale o que vale já que o ano mal fez um mês.

O transcendentalismo tecnológico é o tema deste regresso de um autor veterano, mas desenganem-se. Não estamos a falar de uma visão individualista e tecno-utopista singularitária. Aqui a transcendência assume a forma de peregrinação quase religiosa de indivíduos representativos das várias espécies de uma galáxia num misto de ultrapassar dos limites do ser e da cultura. Não é um tema novo, pareceu-me algo similar às fluídas zonas de pensamento de Vernor Vinge que levam civilizações inteiras a migrar ao longo de gerações para as extremidades da galáxia, onde o pensamento e o processamento computacional são progressivamente mais rápidas, para transcenderem e se tornarem civilizações supra-humanas. Mas a concepção de espaço de Gunn é diferente, assente numa visão mais classicista da galáxia enquanto vasto espaço povoado por múltiplas espécies alienígenas. Recorde-se que Vinge está mais na óptica da ciência computacional, que sublima de forma muito interessante nas premissas-base do universo de A Fire Upon the Deep.

Gun vai desvendando de forma metódica e implacável visões progressivamente mais vastas de uma civilização galáctica assente no consenso entre diferentes espécies alienígenas, consenso esse ameaçado pelo emergir da humanidade no palco estelar mas resolvido após uma curta e violenta guerra sem vitoriosos onde as civilizações avançadas são forçadas a conviver com o arrivismo humano. Não estamos a falar de visões imperiais mas de uma coligação de potências com fronteiras bem definidas e fortíssimas tendências xenófobas, algo de paradoxal num conceito de união de civilizações extra-terrestres que Gunn descreve como conscientes dos seus avanços ou atrasos técnicos mas todas imbuídas de um forte sentimento de superioridade inata face às restantes. Neste equilíbrio de desconfianças a humanidade vai-se espalhando pelo espaço, sempre vista com olhar duvidoso.

Implacável, Gunn dá um passo em frente e revela-nos que a imperiosa mas não imperial união galáctica ocupa apenas um braço da via láctea. É um novo patamar de ironia da visão de superioridade num espaço que à escala da galáxia é afinal ínfimo. Parte do livro lida precisamente com a possibilidade de existência de civilizações num outro braço da via láctea e o impacto presumível num conselho galáctico que busca o equilíbrio homeostático de forma tão acérrima que optou, em tempos, por não responder nem investigar mensagens provenientes de outra galáxia. O equilíbrio é tudo, a manutenção do status-quo a primeira prioridade.

Este intrigante panorama de fundo é uma das vertentes grandiosas deste romance que mistura uma boa história de aventura em modo space opera com ficção científica de ideias em especulação sem limites. Um carácter que se torna ainda mais evidente quando, através das histórias de alguns dos personagens Gunn caracteriza algumas das civilizações alienígenas. Uma das interessantes estratégias narrativas da ficção científica é o criar de toda uma civilização alienígena destacando e ampliando uma faceta da enorme diversidade humana. A partir de um elemento histórico, corrente de pensamento, tendência social ou elemento de carácter que é reduzido ao absurdo e levado ao exagero constrói-se uma visão alternativa de sociedades plausíveis, dadas as condições iniciais do gedankenexperiment. É uma forma de nos olharmos com uma lente distorcida e, ao comparar o ficcional com a inspiração saída do real, reflectir sobre alguns dos melhores ou piores aspectos da humanidade. James Gunn faz isso de forma magistral em Transcendental. Cada espécie galáctica que nos apresenta é fundamentalmente uma extrapolação de uma faceta humana ou remota possibilidade científica.

Gunn esticou a especulação sobre possibilidades de vida alienígena a novos limites com as espécies que descreve. Introduz-nos a uma raça de paquidermes herbívoros respeitada pela sua força tranquila. Mostra-nos uma aguerrida civilização de criaturas similares a furões cuja fibra moral faz os espartanos parecerem sibaritas. Com os nativos da estrela Sirius explora fobias de paternalidade com uma espécie capaz de controlar temperaturas onde os machos são comidos pela prole de que cuidam, apesar do progresso social ter conseguido aumentar a taxa de sobrevivência entre os pobres machos da espécie. O amor, aqui, devora literalmente. Gunn não esquece os singularitários com uma civilização de inteligências artificiais que traz consigo no périplo pela galáxia os últimos sobreviventes dos seus criadores congelados num caixão, uma civilização humanóide que se aniquilou numa guerra civil e que as inteligências artificiais gostariam de recuperar. Não é a habitual visão dos robot overlords que exterminam os seres vivos. Para mim, o mais extraordinário dos voos especulativos do autor é a flor ambulante, representante de uma civilização de flores sentientes com consciência colectiva que evoluiu de forma lenta e determinada. Após uma invasão cruzou os seus genes com os das plantas alienígenas para derrotar a espécie invasora e assim conseguiu desenvolver formas biomórficas de tecnologia que a tornaram membro do conclave galáctico. Leram bem. Uma civilização de flores inteligentes, em mente-enxame. Que se desenvolveu por selecção mendeliana. Que chegou ao espaço em naves biológicas. A FC a surpreender, como só a melhor o pode fazer.

Estas são as amostras de uma vasta panóplia de criaturas, humanos incluídos, que se acotovela numa nave que atravessa o espaço em busca do local onde se diz existir a tecnologia que permitirá transcender o humano e o alienígena. A viagem é atribulada, graças à confusão provocada pela coexistência de espécies nominalmente aliadas mas de facto antagónicas e pela interferência de forças que após verificaram se há veracidade nos rumores transcendentais visam eliminar o que consideram ser uma ameaça à estabilidade conservadora.

Gunn resolve o problema da travessia das vastas distâncias estelares com uma rede de pontos nevrálgicos que possibilita saltos hiperespaciais. Parece ser um fenómeno natural mapeado originalmente pelas civilizações mais avançadas mas vai-nos sendo levado a perceber que afinal são artefactos tecnológicos possivelmente criados e estabelecidos pela civilização avançadíssima que atingiu a transcendência e que se situa num outro braço da via láctea, obrigando os peregrinos que embarcaram na viagem a atravessar a vastidão do espaço profundo. Uma das características que dá gosto a este romance é a forma gradual como o autor nos vai esclarecendo e ampliando as premissas do seu mundo ficcional, sem recorrer a despejos épicos de informação. Uma migalha aqui, uma migalha ali e quando damos por nós estamos a unir os pontos de um panorama mais vasto do que o que inicialmente suspeitaríamos.

Há de facto uma transcendência tecnológica à espera no final do périplo, e está intimamente ligada com a história da aceitação da humanidade. A captura de uma nave geracional humana por patrulhas galácticas revela ao concílio civilizacional a existência de uma nova espécie, mas não há consenso sobre a inteligência dos humanos e os tripulantes da nave são mantidos em cativeiro. Um grupo de sobreviventes decide tentar a fuga e, graças aos talentos de um hacker responsável pelos sistemas, rouba o arquivo de mapas estelares da galáxia. Para assegurar a sobrevivência o grupo divide-se. Um é enviado à terra com o arquivo, e graças a este que a humanidade consegue desenvolver o conhecimento e tecnologia que lhes permitirá impor-se no palco galáctico. Outro grupo segue um mapa arcaico mantido em segredo por mapear mais do que a zona galáctica tida como aceitável pelo consórcio de civilizações, e atravessa o espaço entre braços da via láctea para se deparar com um planeta coberto de vestígios de uma civilização avançada e criaturas aracnídeas hiper-violentas que aniquilam os sobreviventes, excepto uma rapariga que se refugia numa espécie de templo e é a primeira a experimentar a transcendência - um teletransporte para o braço galáctico de origem cujo processo elimina erros biológicos e aprimora a entidade biológica. Essa rapariga fará parte da expedição que busca o planeta, guiando-os nas sombras. Mas já estou a revelar em demasia esta história que tem a virtude de estar estruturada numa tessitura intimamente interligada. Se a narrativa principal progride de forma linear as histórias secundárias interligam-se num contínuo não linear que alimenta a progressão do enredo.

Para terminar, sou obrigado a tocar na vertente do livro que recupera a estrutura narrativa celebrizada por Chaucer para a space opera. Tal como os contos de Canterbury este Transcendental conta-se pelo ponto de vista do personagem principal mas inclui as histórias narradas pelos vários personagens que Gunn decidiu salientar. Cada qual tem a sua história mas estas tocam-se, entretecendo-se numa linha narrativa fortíssima.

Obra de mestre, Transcendental leva-nos de enxurrada para um mundo de vastos panoramas cósmicos e ficção especulativa de alto calibre. Com um ritmo preciso e ideias intrigante a cada virar de página, é um daqueles raros livros que é impossível de pousar.

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