quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Interzone #249


Uma edição regular da revista, a apostar mais na qualidade das ideias do que na legibilidade dos contos. Tidhar e Shirley, vozes experimentadas, representam os pontos altos desta edição mas os conceitos por detrás dos contos de Tim Lees, Jason Sanford e Sarah Brooks têm o seu fascínio, apesar da prosa não corresponder à promessa. O ansible link é, para não variar, incisivo e divertido e as críticas literárias e cinematográficas uma mina de boas sugestões. A entrevista de John Shirley sublinha o papel interventivo que a FC pode ter hoje numa realidade contemporânea cega pelo neoliberalismo alastrante, que se condena ao empobrecimento e caos social e ambiental enquanto crê cegamente no favorecimento de oligarquias. O ensaio de Jonathan McCalmont redescobre os comics enquanto género capaz de pegar nos mais intrigantes e excêntricos conceitos, recriando-os conceptual e visualmente.

Unknown Cities of America - um início promissor. O título seduz-nos com visões de urbanismo fantástico de contornos borgesianos, com a possibilidade de nos perderemos em mapas para os quais não há territórios. O conto cumpre parcialmente essas promessas, com vislumbres de cidades esquecidas na vastidão das américas, mas o tom dominante é o de perda e busca incessante nesta história onde um homem atravessa recantos desolados na auto-estrada em busca da mulher que ama, raptada pelos seus familiares. A sua origem é difusa e intui-se que por detrás da história de uma rapariga fugitiva do seu meio está algo de sobrenatural com toques místicos, mas o foco narrativo fica-se pelo trauma da perda e tenacidade numa busca pouco esperançosa. Conto de Tim Lees.

Paprika - A premissa é muito interessante. Neste conto de Jason Sanford uma humanidade imortal vai-se extinguindo lentamente pelo puro ennui do tempo ilimitado. Neste futuro difuso onde o tempo pára a nanotecnologia mantém as pessoas e as cidades vivas, mas o espírito vibrante foi-se há muito. Temendo este momento, os imortais criaram seres artificiais, autómatos programados para gravarem as memórias e personalidades dos humanos com que entram em contacto. Paprika, a heroína do conto, é uma dessas criações cujo contacto constante com um criador de brinquedos que vai buscar inspiração às memórias nostálgicas dos seus clientes modifica a sua programação. Mais do que preservar artificialmente as memórias humanas dentro dos universos-bolso que os autómatos carregam, Paprika preserva a sua memória da humanidade, e vai modificando os genes das espécies que sobrevivem ao desvanecer dos imortais que se cansaram do tempo infinito. Apesar da vastidão da premissa o estilo narrativo demasiado elaborado torna a leitura algo penosa. A linguagem distingue-se pelo carácter poético mas, excessivamente trabalhada, trava a fluidez do conto.

Filaments: é um conto de Lavie Tidhar, e aqui devo confessar que sendo fã deste autor a voz crítica não é de todo isenta. O conto em si tem a marca da prosa leve e imaginação intrigante do autor, mas lê-se mais como vinheta de algo maior do que obra autocontida. A ideia em si é fabulosa, com um robot-sacerdote a interpretar o conceito de fé numa perspectiva cibernética. Tradições judaicas e sincretismo digital cruzam-se neste conto passado no curioso universo ficcional de Central Station, mundo futurista em que uma Jerusalem multicultural é o ponto de ancoragem terrestre de um elevador orbital, ponto de confluências dos seres e ideias que vagueiam pelo sistema solar.

Haunts: conto mais a puxar à fantasia do que FC de Claire Humphrey, lidando com um mundo fantástico onde os fantasmas de duelistas mortos em combate assombram a escola onde aprenderam as regras do desporto mais aplaudido da terra. Tudo contado sob o ponto de vista de uma ex-duelista que vai vendendo os dedos para poder manter os edifícios intactos mas acaba por conhecer um fã que lhe revitaliza a escola e a alma.

The Kindest Man in Stormland: o problema deste conto de John Shirley é a sua elevada plausibilidade. A história é directa, num registo policial em que um agente privado da lei vai ao inundado sul dos estados unidos em busca de um assassino em série. A visão distópica de um planeta onde o aquecimento global fez subir drasticamente o nível das águas, deixando sumbersas boa parte das zonas costeiras, com o previsível colapso social daí advindo, conjuga-se com um neoliberalismo alastrante onde tudo tem um preço de venda ou renda. Não é difícil perceber a extrapolação que Shirley faz do momento contemporâneo que vivemos.

Trans-Siberia: An Account of a Journey, with added notes from The Cautious Traveller's Guide to Greater Siberia by L. Girard (Mauriac Publishing, Paris, 1859) - Sarah Brooks a encerrar a revista com uma prosa poética e uma hisrtória curiosa, que desperta o sonho das viagens e faz pensar nas vastidões de território que medeiam entre as costas asiáticas e os centros europeus. Um jovem artista chinês embarca no mítico Trans-siberiano para uma viagem a Paris, onde o espera um futuro enquanto pintor. Mas no mundo difuso deste conto os territórios ocultam ameças obscuras e a viagem tem preços que podem ultrapassar o pagamento do bilhete. Soturnas criaturas assombram o comboio e o jovem artista ficará para sempre marcado pelo seu cruzamento com um destes seres que infestam as longas viagenes sobre os carris.

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