quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Lusitânia #02


Carlos Silva (ed.) (2013). Lusitânia Número 2.

Começo por destacar a elevada qualidade gráfica desta edição. O design é limpo, com boas ilustrações equilibradas com o texto. O estilo claro facilita a leitura sem que se perca o interesse visual. Já a capa fascina. O registo preto e branco com subtis toques de cor, conjugado com o leve desequilíbrio da imagem, agarra o olhar. Confesso que não vejo na capa a imagem da maria lisboeta futura referida no editorial; vejo antes um modernismo intemporal com toques da elegência art deco que remete para desenhos de Almada Negreiros.

O problema desta edição da Lusitânia é João Barreiros. Basta o seu nome para a desequilibrar. A homogeneidade literária é estragada pelo peso deste autor. Até ao final, a edição é homogénea, com alguns pontos altos mas caracterizando-se na generalidade pela imaginação pura de vozes novas que longe de perfeitas nas suas capacidades literárias demonstram vontade de ir mais longe. E isso só se consegue escrevendo, falhando, escrevendo, melhorando, num processo cíclico demorado. Pessoalmente pego neste tipo de publicações deixando de lado a bagagem de anos de leituras de autores consagrados e lendo-os pelo que são: vozes cruas, em desenvolvimento, esperando que as promessas não degenerem em juvenilia esquecida no fundo da gaveta ou na pasta esquecida do disco rígido e que tenha o privilégio de continuar a acompanhar a sua evolução. Não espero nem exigo perfeição. E depois... levo com um conto de Barreiros em cima. O que não é nada mau. Até pelo contrário. Uau. Conto de Barreiros. É o suficiente para este fanboy se começar a babar imaginando as delícias que irá ler. Mas é como encerrar com um vinho excepcional uma prova de degustação de diferentes bebidas. Por boas que as outras sejam, o sabor que fica é o do mais distinto.

Adiante, e resumam-se os contos, que a minha memória é falível e o blog serve para isso mesmo, como bloco de notas onde se registam as leituras. Cópia de segurança do conteúdo armazenado pelos neurónios em degenerescência.

A Sereia de Cacilhas - a reviravolta final encerra com chave de ouro o conto de Carolina Vargas que inicia a colectânea. Revisita a clássica história de amor entre um homem e uma sereia, desta vez tendo os cacilheiros do Tejo como palco, que se vai lendo numa espiral de progressivos devaneios delirantes que termina de forma decididamente carnívora.

A Carta - Pedro Cipriano regressa ao passado alternativo distópico que revelou na primeira edição desta revista com um conto implacável e incomodativo, embora um pouco desconexo. As cartas que dão o nome ao conto são convocatórias para a partida para frentes de combate e quem as recebe mergulha em desesperos, sabendo que para eles ou os entes queridos aguarda morte certa. E isso torna-se a razão quer para os mais dignos actos quer para crimes atrozes.

A Fonte dos Grifos - nostalgia estudantil e monstros da fantasia cruzam-se num conto de Inês Montenegro, notável pela atmosfera onírica. Um jovem estudante tornar-se-á o novo elemento dos marmóreos grifos de uma fonte no Porto, ponto de encontro de alunos universitários e cujas criaturas míticas encarnam na pedra o espírito estudantil passado. A autora canaliza muito bem aquela sensação única de ser jovem a estudar numa cidade com tradição académica, a nostalgia de descobertas, alegrias e nervosismo pela qual passamos. Deixou-me nostálgico, se bem que no meu caso o objecto seria a Fonte das Figueiras em Santarém, que não tem grifos mas tem o seu quê de gótico literário.

O Indicador de Deus - texto onírico de Joana Raimundo que reflecte a dureza da faina marítima com um forte peso místico mas que peca por alguma falta de clareza.

O Teu Semblante Pálido - João Franco pega com candura em elementos muito batidos - o casal de apaixonados, os encantos misteriosos de Sintra, a soturnidade ominosa das serranias e seres malévolos cujo cruzamento com as personagens despoleta situações catastróficas, e cria um conto onde o maior encanto é precisamente o fazer o leitor regressar a elementos banalizados da ficção fantástica. Apesar da linguagem desconexa e narrativa descentrada o conto mantém a sua atracção. Até porque, enfim, quem é capaz de resistir à serra de Sintra?

O Coração é um Predador Solitário - para encerrar a revista com chave de ouro, um peso pesado. Igual a si próprio, com a clareza narrativa que o caracteriza, irreverência temática e fluidez literária advinda da longa experiência como escritor, João Barreiros adensa mais aquele passado ucrónico de sabor electropunk com influências lovecraftianas que deu o mote a Lisboa no Ano 2000 e tem sido metodicamente explorada em contos publicados nos Almanaques Steampunk e A Mina do Deus Morto, na série de ebooks editada pelo Diário de Notícias e editora Escrit'orio. Percebe-se que estes contos são peças detalhadas de um puzzle maior, espelhando um mundo ficcional abrangente que Barreiros elaboru meticulosamente e vai dando a conhecer a conta gotas. Enfim, estamos em Portugal, país pouco clemente com autores de ficção científica. O que noutros contextos editoriais daria uma série de romances por cá vai vendo a luz do dia em publicações dispersas. De volta estão os destroços de auto-fábricas que escravizam humanos em nome da produtividade intensa, o império luso que se define independente face a uma grã alemanha, os restos de partículas divinas cujo contacto traz consequências adversas e infecções gnósticas. Como é habitual em Barreiros, um conto implacável e brilhante.

Resta-me... esperar pela próxima edição. Estas publicações são talvez cruas e imperfeitas, mas essenciais para dar voz aos que acreditam que a literatura portuguesa pode respirar outros ares que não os do mainstream. Comparando esta com a edição anterior, notam-se óbvias melhorias editoriais e estéticas. Porque, e desculpem-me o lugar comum, só aprimora quem trabalha.

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