segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Comics


Alex + Ada #01: Esta nova série da Image começa de forma intrigante. Dá forma àquelas visões convencionais dos sonhos corporativos de futuros mediados pela tecnologia. As primeiras páginas parecem um daqueles vídeos de design fiction desenvolvidos por empresas para divulgação viral. Perde-se um pouco com um toque num dos mais batidos artifícios de argumentos sobre tecnologia, o acidente em que uma Inteligência Artificial se torna consciente e aniquila os humanos que a rodeiam até ser desligada com extremo prejuízo, mas recupera ao longo da floppy com uma linha narrativa acutilante sobre um jovem desiludido com os amores que recebe de presente da avó uma andróide de companhia. Está-se mesmo a ver por onde é que a série vai andar, mas o intrigante é que se distingue na abordagem. Não parece ser uma história escaldante de robots com medidas perfeitas, aponta mais para uma cultura que já nos é contemporânea, espelhada nos fãs de androides animatrónicos que replicam a forma feminina ou masculina dos quais as Real Dolls são o exemplo mais realista e as Actroids as mais uncanny valley. Traz à memória algumas passagens recolhidas por Sherry Turkle sobre amor, companhias perfeitas e robots recolhidas no superlativo Alone Together. Um pormenor que adorei: a andróide chama-se Ada, certamente homenagem a Ada Lovelace, pioneira da computação.


Batman Black And White #03: É apanágio da DC de vez em quando criar séries curtas mais centradas no virtuosismo gráfico do que nas aventuras dos personagens. Este Batman Black and White é o mais recente desses exemplos. O primeiro floppy foi excepcional, e os restantes têm tido alguns momentos interessantes de elevada qualidade gráfica. Neste terceiro o designer gráfico britânico Rian Hughes encarregou-se de criar uma curiosa história metaficcional que se distingue pela estética altamente modernista do grafismo, com elegantes retoques retro. Não é uma excelente história, aliás, é quase masturbação pseudo-literária com acenos aos comics, mas não deixa de ter algumas vinhetas fabulosas.


East of West #07: A mescla de criatura lovecraftiana com sicofanta dedicado é uma desculpa de Jonhathan Hickman para estender um pouco mais o universo ficcional deste weird wild western. Desta vez coloca-nos no centro, local geográfico onde convergem as américas ucrónicas e sítio de um misterioso altar que centraliza os quatro cavaleiros que têm o hábito de divertimentos sangrentos com os incautos peregrinos que se deslocam em busca do que acreditam ser divindades. Nenhum sobrevive, excepto um bebé que um dos caveleiros decide educar como mensageiro humano do apocalipse. Passo a passo, Hickman está a construir um universo ficcional vasto em East of West.


God is Dead #03: Johnathan Hickman, parte dois. Ou lado B, se preferirem. Desta vez na Avatar, editora que lhe dá liberdade para outra premissa apocalíptica. Os Deuses regressam à Terra mas não trazem consigo os paraísos dos crentes. Preferem escravizar e regredir a humanidade, instituindo a antiga prática do sacrifício humano como forma de veneração. E depois de consolidarem o seu poder nos antigos tronos o próximo passo é exterminarem-se uns aos outros para conquistar o domínio planetário. Só um grupo de cientistas parece conseguir manter a resistência aos seres deificados e para descobrir a melhor forma de reconquistar a humanidade nada como dissecar um deus abatido para descobrir os seus segredos e criar um deus artificial. Depois de sobreviver a um encontro aéreo com a escaldante mitologia chinesa. O pormenor dos cientistas quererem criar um deus de combate faz remeter para o apocalíptico Supergod de Warren Ellis, onde as experiências de criação de super-humanos correm decididamente mal para o planeta. Já a premissa de deuses como criaturas poderosas mas ultimamente mortais, cuja origem e poderes são um mistério, remete para Zelazny e o seu Lord of Light. Do ponto de vista de um humano sacrificado o mistério da fé é uma assustadora tecnologia não revelada. Hickman vai mantendo esta série num registo conciso e austero, sem revelar abertamente as linhas narrativas que a orientam.


Quantum & Woody #07: O que é que se faz com um par de meio-irmãos com super-poderes que não se podem aturar um ao outro, um bode inteligente e uma clone sexy? Ainda não sabemos, mas depois da conclusão do primeiro arco narrativo a promessa é de que o nível de ironia continue elevado. Misturando buddy comedy com super-heróis, a Valiant aposta numa série que se leva menos a sério do que o também divertidamente bizarro Archer & Armstrong.


The Star Wars #03: É curioso notar como as ideias iniciais da Guerra nas Estrelas se aproximam mais do barroquismo que caracteríza os três primeiros episódios (os três últimos filmes, note-se) do que o que realmente se tornou o seminal filme Star Wars: A New Hope. A acção deste The Star Wars assemelha-se à de Phantom Menace, embora alguns dos elementos secundários se mantenham, como os droids abandonados num planeta desértico que aqui ainda não se chama Tatooine e não tem Jawas nem Sand People. Leia é um protótipo da Rainha Amidala e o senador que se tornará imperador é um cavaleiro Sith com armadura, enquanto que Vader é um comandante das forças de invasão de um planeta cuja família real conta com um antigo Jedi e o seu pupilo como defensores. Muito de relance fala-se de Han Solo, mas claramente isso fica para a próxima edição. Confesso que estou curioso. Quando o arco narrativo terminar será altura de reler em sequência e perceber até que ponto esta proposta original sobreviveu na série cinematográfica. Para já anoto que o barroquismo visual que Lucas aplicou nos filmes mais recentes da série parece ter sido a sua intenção original.


Trillium #04: E no final da quarta edição Trillium chega ao fim? Se não se soubesse que há mais quatro edições antes do final da série ficaríamos desconfiados. Jeff Lemire anda a aproveitar esta série para experimentar outras formas narrativas. Na segunda edição, para mostrar o contraste entre passados e futuros, metade da história foi impressa com as páginas invertidas. Desta vez, termina a história a meio e suspeito que na próxima edição nos coloque sem sobreaviso in media res, tornando uma narrativa linear em algo labiríntico. E sim, para além de experimental é uma belíssima história de ficção científica com o passado e o futuro em colisão, ameaças de aniquilação futura da humanidade, pandemias galácticas, antídotos raros e uma tribo amazónica  com laços a uma espécie alienígena com que partilham pirâmides que são portais no espaço-tempo.

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