domingo, 3 de novembro de 2013

Amadora BD 2013


A peregrinação anual ao FIBDA é um pouco uma obrigação periódica para os fãs do género. Confesso que no ano passado senti a visita mesmo como uma obrigação, com uma edição que pessoalmente me deixou bastante desapontado. Nada de novo, nada de realmente interessante, mais do mesmo. O FIBDA institucionalizou-se e há que agradar ao mercado dos políticos locais e sanitizar as exposições para que nenhum menino que lá passe nas inumeráveis visitas de estudo leve com ideias fora do formato aprovado.

(Pessoalmente já acompanhei algumas dessas visitas e, honestamente, podem ser melhor descritas como bandos de miúdos a correr dentro dos recintos sem prestar qualquer atenção ao que se passa à volta. Um ou dois que revelam algum lampejo de gostos culturais a deliciar-se com as obras expostas, normalmente perto das zonas dedicadas ao manga, enquanto alguns professores torcem o nariz ao conteúdo da exposição, comentando que faz ali falta é o Astérix que isso é que era bom e estas coisas modernas são uma parvoíce. Sim, ouvi colegas meus a comentar o FIBDA com estes precisos vocábulos. Os raros docentes conhecedores abstraem-se do ruído e visitam a exposição pensando bolas, isto é mesmo deitar pérolas a porcos enquanto levam encontrões das manadas de crianças que correm à solta perante o olhar impotente dos assistentes do festival. Mas isto são outras guerras, respeitantes ao conceito de visita de estudo que é ao mesmo tempo uma inutilidade pedagógica e um imperativo cultural. E, claro, um mercado apetecível para museus e instituições.)

Com a imagem mental das cuecas na cabeça, ponto baixíssimo do festival no ano passado, não esperava muito do festival neste ano. E ainda bem, porque saí de lá bem surpreendido. Neste ano diria que está moderado, com muita coisa necessariamente mainstream, mas mantendo um elevado nível de interesse. O destaque merecido a Ricardo Cabral abre o percurso e estabelece logo uma bitola elevada de qualidade para o conteúdo das exposições.


Reproduções, impressões, pranchas, moleskines, tudo cheio de traços que deslumbram e enchem o olho. E deixam alguém como eu com uma certa pontinha de inveja (que se resolve facilmente, é só pegar no caderninho de desenhos e ir desenhar para desenvolver o traço pessoal em vez de perder tempo com coisas como dar aulas, gerir os sistemas informáticos da escola, investigar, devorar livros e todas as outras coisas que erodem o tempo). Sublinhe-se inveja no bom sentido, daquela que nos inspira e dá vontade de fazer coisas. A mestria do traço de Cabral é algo de espantoso e a exposição que lhe é dedicada merece olhares atentos. O mesmo se aplicar ao espaço dedicado ao making of do belíssimo cartaz do festival para este ano, puzzle visual de complexidade impressionante. Este espaço é ao mesmo tempo um deslumbre e um importante vislumbre do processo criativo.


Não sendo particularmente fã de Spirou fiquei-me mesmo por uma exclamação de eek interior quando olhei ao alto e vi um marsupilami prestes a cair-me em cima. Um dos pontos de interesse do festival é a atenção dada à decoração dos espaços expositivos, que vai além da metáfora expositiva para criar ambientes imersivos no mundo ficcional das personagens ou temáticas e isso sentia-se bem nos espaços dedicados a Spirou, Super-Homem, Seis Esquinas de Inquietação (BD brasileira) e David Soares.

O problema no FIBDA é que o conceito de espaço tem o seu quê de acanhado, com a grande zona aberta subdividida em pequenas galerias que são de fruição complicada em momentos de grande afluência. Se paramos para contemplar as pranchas estamos a empatar quem está na espécie de filas que se formam, outras vezes queremos ir ver um detalhe mas o fluxo de pessoas que nos vai desfilando à frente torna isso impossível. Agruras da institucionalização e massificação do festival.


Nada de novo nos espaços dedicados ao icónico super-herói da DC, mas é sempre bom rever algumas capas representativas do personagem e ver in loco pranchas em tamanho real, que nos dá uma visão de como é o processo de criação nos comics.


Muita coisa interessante no espaço dedicado ao concurso de BD do festival. Muitos talentos novos numa selecção que se distinguia pela qualidade visual de grande parte dos trabalhos expostos.


Há dúvidas que estejamos no espaço dedicado a David Soares?


Uma explosão de cor e simplicidade visual no espaço dedicado a Madalena Matoso que faz um contraste total com a complexidade visual de Ricardo Cabral.


Para terminar, umas revisitações e antevisões à volta de Dog Mendonça e Pizzaboy, cujas aventuras viram agora o lançamento do terceiro volume. Nunca cessa de me deslumbrar a forma como o argentino Juan Cavia captou o espírito das ruas de Lisboa nas suas ilustrações.

Nestes tempos austeritários as bancas da Dr. Kartoon e da Kingpin Comics são um ordálio. Noutros tempos mais prósperos teria saído de lá ajoujado de livros que merecem lugar nas minhas prateleiras. Enfim, melhores tempos regressarão. Quanto ao FIBDA, se para o ano mantiver a qualidade deste, estamos muito bem.

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