quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Leituras

We have abandoned our children to the internet: De vez em quando lá vem o artigo que tenta provar por A mais B que a colisão da internet com juventude dará como resultado o colapso da humanidade. É um argumento antigo. Cada novo media traz consigo esta bagagem. Lembro-me de ler isto sobre videojogos, televisão, comics... e até sobre livros. Em parte estas discussões recordam-me aquela atitude de quem se sente dinossauro numa nova época que Warren Ellis sintetizou brilhantemente ao escrever "Some beardy druid from the oral tradition, a few thousand years back: I don’t want to wake up and look at paper. I feel like as a society, we try to put everything on that same (Brythonic swear word) piece of paper, and pretty soon we’re going to be eating on paper or, forsooth, making love through paper. It’s just sort of like: "Why does everything have to be on the paper?""

Mas há argumentos válidos para esta visão. O uso excessivo é um problema. Confesso que também sinto estranheza quando passo pelos alunos nos corredores e recreios e os vejo agarrados aos telemóveis e tablets. Mas curiosamente isto para eles é um acto social, feito em grupo, interagindo ao mesmo tempo nos espaços reais e virtuais. E não deixei de ver as crianças a brincar ou a conversar entre si. Ou até a jogar jogos não digitais. A facilidade com que se partilham conteúdos está a trazer gravíssimos problemas éticos. Só que a opinião mantém-se num tom moralista que trai uma espécie de crença romântica na pureza de uma era pré-digital. Isso é particularmente notório quanto a autora aponta para as conversas sobre sexo de adolescentes de quinze anos como exemplo de alterações comportamentais induzidas pela facilidade de acesso a pornografia. Ficou chocada, obviamente. Só que para os adolescentes pensar em sexo nunca se resumiu ao romantismo da mão dada ao pôr do sol. Recordo-me dos meus quinze anos e das conversas que tinha na altura com os amigos sobre desejos eróticos. Não eram muito diferentes dos que a autora deste artigo relata... e na altura não tinha internet para me inspirar. O que não signifique que haja um lado negativo na relação entre sexualidade e internet - note-se o crescimento do sexting (por si uma actividade normal mas que pode ganhar contornos graves quando escapa aos limites do par e se espalha pela rede, o que é muito fácil de acontecer) e do cyberbullying. Também não significa que misoginia alastrante da pornografia seja algo de aceitável. Mas parece-me que o que chocou verdadeiramente foi a percepção de que afinal os meninos não tinham singelos pensamentos inocentes.

Este argumento irrita-me enormemente: "Asking a young person to put down their Xbox, shut their computer or stop looking at their smartphone is like asking an alcoholic to put down their drink." Pode ser reescrito e significar o mesmo com qualquer outra coisa que desperte interesses individuais, como leituras ou busca pessoal de perfeição numa qualquer área que a maioria consensual considere não ser importante. Como larga lá o livro que isso não tem piada nenhuma vai mas é jogar à bola que faz bem" (tivesse eu um euro pelas vezes que ouvi esta e teria dinheiro para muitos mais livros) ou larga o pincel que isso não interessa para nada. A focalização em interesses cognitivos sempre foi aceite com assimetrias pela sociedade.

Students Are 'Hacking' Their School-Issued iPads: Good for Them: Se modificar perfis de utilizador para se poder ir a uma rede social ou ouvir música é hacking estes administradores de sistema precisam de aprender uma coisinha ou duas sobre a vida real e a psicologia dos alunos, primeiros intervenientes do processo educativo. Mas o artigo acerta em cheio no principal problema do software educativo e das iniciativas para incentivar a tecnologia na escola: "It should prompt us to ask why we want students to have access—or not—to computers. Whose goals do computers meet? Apple’s? Pearson’s? The Department of Education’s? Or students’?"  Rollouts de tecnologias configuradas à medida dos interesses de editores ou educadores de vistas curtas ignoram todo o real educativo potencial do digital que sim, também inclui a capacidade de correr riscos, transgressões e uma concepção holista que não se resume ao consumo de conteúdos aprovados por um comité cinzento que se atribui o direito e dever de ditar os limites cognitivos e conceptuais da aprendizagem. No fundo é uma versão subtil contemporânea do banir obras literárias com a desculpa de serem perniciosas para a mente juvenil. Se o objectivo for condicionar a forma de pensar e aprender, estão no caminho certo.

Les territoires numériques de la France de demain: Os dois links anteriores sublinham a importância disto: "L'éducation n'est pas laissée de côté par le rapport, qui propose de mettre "la culture et (les) technologies numériques au rang des disciplines fondamentales de notre système d’éducation" Mais do que aprender a mexer no computador há que o encarar como ferramenta cognitiva na aprendizagem. Não é fácil. Mas também não é impossível. 

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