sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Comics


Archer & Armstrong #14: Como é que se mantém o interesse numa série que atingiu depressa os limites do seu mundo ficcional? Para a maior parte dos comics isto implica processos de fossilização repetitiva que se traduzem em extinção com ressurreições pontuais noutras séries para manter a propriedade intelectual morna ou arrastamento iconográfico pontuado por mexidas ocasionais. Nesta, a resposta é expandir o mundo ficcional. Esgotada a luta contra a seita de poderes ocultos que criou Archer para dar caça a Armstrong e quer dominar totalmente o mundo que animou o arranque da série, tivemos direito a uma pausa para ganhar fôlego com ovnis e mundos paralelos à mistura que termina numa séria zanga entre Archer e Armstrong. Agora... temos uma dupla desavinda que vai ter de enfrentar não uma, não duas, nem três organizações secretas, mas um verdadeiro ecossistema de grupos sombrios que procuram manipular as engrenagens que movem o mundo. Esta foi a edição da história de origem das seitas, traçada ao ponto inicial no Egipto de Akhentaton onde um grupo de administradores assassina o faraó e faz um voto de nunca mais deixar que os impulsos dos líderes ou do povo ponham em causa a sua visão da marcha do progresso. Se ainda duvidam do poder crítico dos comics para trazer ao grande publico, ostensivamente sob a forma de entretenimento inócuo, ideias fortemente controversas leiam com atenção as palavras sobre religião. Esta veia crítica aliada à implausibilidade divertida à solta dão a Archer & Armstrong o carácter de comic que vale mesmo a pena ler, porque a meio de uma luta entre alienígenas e heróis podemos ler uma mordaz observação sobre o estado contemporâneo das coisas.


Astro City #05: O interessante de Astro City é a homenagem descarada ao lado ingénuo do género super-heróis, tão adepto do grimdark para lhe conferir profundidade. Astro City é luminosa e assumidamente positivista, dando aos leitores aquela que talvez seja a sensação mais aproximada do que foi para uma criança pegar num comic nos anos 40 ou 50 e deparar com as criaturas bizarras em fatos coloridos que lutam contra o mal. Nesta edição a vénia é ao steampunk. É uma vénia óbvia mas sempre deu para meter robots mecânicos num comic da Vertigo.


Death Sentence #01: A Titan Comics arrancou com um alinhamento de títulos muito interessante, entre os quais se conta o mashup ficcional A1 Weirding Willows, o pulp desenfreado de Chronos Commandos e o surrealismo espiritual-contabilístico de Numbercruncher. Para manter o nível este Death Sentence pega na ideia de apanhar uma doença contagiosa fatal que limita severamente a esperança de vida e dá-lhe uma volta com o conceito de poderes transmitidos por vírus fatais a médio prazo. Os personagens contraíram uma doença sexualmente transmitida (o paralelo com o VIH é óbvio) e para além de lidarem com o facto de só terem seis meses de vida ainda há que contar com os estranhos poderes que manifestam. O início intrigou, a ver vamos se se mantém.


Federal Bureau of Physics #04: Está a tornar-se claro que esta história de física desgovernada e os agentes governamentais que a tentam controlar caminha abertamente na direcção de parábola sobre economia e sociedade. Já se notava nas edições anteriores, mas nesta o objectivo é colocado a nu. Conspirações por parte de interesses económicos obscuros interessados em lucrar com a privatização de serviços públicos, que se socorrem de todos os meios que podem ir da argumentação falaciosa à sabotagem para impor a ideia de que público é mau e privado é bom? Isso sim, é contemporâneo.


Rocket Girl #01: A Image tem provado que não tem medo da ficção científica e este novo título vem demonstrá-lo. Não podemos ter FC em estado mais puro do que isto: uma agente adolescente da polícia do futuro, completa com fato de cores brilhantes e jetpack, que viaja ao passado investigar os crimes de uma corporação que se suspeita que anda a alterar a história para maximizar os lucros. A Nova Iorque de 1986 não sabe o que a espera. Cativante.


Shaolin Cowboy #01: A colisão catastrófica entre John Wayne e os monges chineses mestres do kung fu. Sim, é um mestre do kung fu vestido como cowboy que usa duas moto-serras para aniquilar hordes de zombies. A leitura não parece passar do divertimento pontual mas preste-se atenção: estamos a olhar para o traço hiperactivo e ultra-detalhado de Geoff Darrow. Preparem-se para vinhetas deslumbrantes. Para referência, esta despertou-me memórias. Não de caçadores de zombies com moto-serras. É que durante anos conduzi um Peugeot 205 daqueles...

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