quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Cinco livros para descobrir a ficção científica

Ponto de partida em Damien Walter, que na sua coluna do Guardian propôs cinco livros a sugerir àqueles amigos naturalmente avessos a literaturas do género fantástico. Particularmente na ficção científica, que costuma despertar alergias ou olhares condescendentes quando se fala nela em círculos pouco habituados a voos de imaginação que vão além do convencional. Refira-se que a coluna regular de Walter é um dos mimos deste jornal de referência global que para além de ter coragem para enfrentar os gigantes da espionagem também publica o ecologismo inteligente de George Monbiot, o activismo de Naomi Wolf ou as observações sobre o apocalipse pop-cultural de Charlie Booker. A secção Comment is Free é uma lição diária de pensamento claro e certeiro.

O João Campos pegou, e muito bem, na ideia, referindo cinco livros que do seu ponto de vista são indicados para despertar a curiosidade dos afligidos com iliteracia científico-ficcional. Encarei estas sugestões como um desafio, bom exercício mental que obriga a tentar olhar para os livros e autores favoritos procurando formas de os tornar apelativos a desconhecedores deste género literário. Não é tarefa muito fácil. Os anos a alongarem-se que me pesam no lombo têm-me ensinado que a bibliofagia é coisa rara entre nós, mesmo entre os sectores mais bem preparados da população. Já visitei muita sala de estar onde livro é coisa rara, e os que há ficam-se pela obra pop-literária de erudição cosmética do momento, geralmente exibida com um certo orgulho intelectual cuja desmontagem já me custou muitos olhares furiosos. Contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que vi um colega de trabalho a relaxar entre aulas na sala de professores de livro na mão, talvez tantas quantas uma conversa de café conseguiu chegar aos gostos literários. Sempre senti viver num país onde todos consideram importante ler mas poucos realmente se dedicam a esse prazer. O sucesso contemporâneo da cultura g33k permite que ao falar de FC e fantástico já não seja fulminado com expressões do género credo isso que infantilidade, mas mantém-se aqueles olhares condescendentes de pois, tu lês essas coisas, não enfrentas a noite com os mais recentes exercícios mentais umbiguistas de aridez narrativa dos senhores e senhoras que são verdadeiramente importantes e normalmente provocam sonolência ao fim de meio parágrafo.

Certo. Já estou a ir por caminhos por onde não queria seguir. Paremos por aqui e adiante com as minhas cinco sugestões para leitores alérgicos à ficção científica.


E que tal começar de mansinho, com a prosa de encantos de Italo Calvino? Certo, As Cidades Invisíveis não são ficção científica mas rondam muito de perto as literaturas do fantástico com o périplo de Marco Polo pelas cidades imaginárias e paisagens de fantasia que deliciam Kublai Khan. Este livro sempre me fez pensar nas vistas perspécticas de fantasia da pintura e gravura barroca. Calvino não é nada estranho à FC, com contos que revelam reverência e compreensão do género. Depois destas cidades de imaginação o salto conceptual para o new weird de Vandermeer ou Miéville fica facilitado.


Seria muito previsível sugerir Ballard por causa do inimitável Crash.  E para um público pouco habituado aos voos imaginários da FC o catastrofismo de Drowned World e o surrealismo hiperreal de Myths of the Near Future ou Vermillion Sands é capaz de ser uma dose demasiado forte. O cruzamento entre a dissolução da frottage e a geometrização dos sentimentos aplicado à narrativa clara e precisa é o que mais encanta neste autor, que nos ensina a ver o mundo com lentes mediadoras da imaginação. Hello America é talvez o seu mais acessível romance para o neófito em ballardianismos. Escrito com a habitual clareza clínica de Ballard num ritmo imparável, reconstrói a américa iconográfica como paisagem de sonho enquanto define um futuro ficcional onde o norte do continente foi abandonado e está pronto a ser explorado por equipes de arqueólogos que buscam compreender o delírio americano. Convém não esquecer de sublinhar que por divertido que seja este não é o melhor de Ballard. Depois recomenda-se o livro que apaixona Will Self, High Rise para os que detestam reuniões de condomínio e Running Wild para os crentes na ingenuidade infantil. Os estômagos mais fortes podem tentar degustar The Atrocity Exhibition e os contos recomendam-se todos a todos. Podem arriscar o enciclopédico The Complete Short Stories ou, livro a livro, maravilhar-se com o Aparelho Voador a Baixa Altitude, se tiverem a sorte de encontrar a edição de capa azul da Caminho. O hipermodernismo ballardiano, com a sua estética de solidão surreal urbana, é um bom ponto de partida para aproximações à visão sobre a contemporaneidade de William Gibson.


Peguemos pelo factor prestigio para cativar leitores. Refiram ligeramente o nome de Kubrick, e observem que este livro inspirou o filme homónimo. A Clockwork Orange é uma belíssima distopia urbano-futurista de decadências citadinas em que a própria linguagem é recriada. A viagem pela sociopatia social de Alex pelo futuro desolado da herança arquitectónica de Le Corbusier ainda nos ensina uma coisita ou duas sobre o nosso tempo. Ballard elevou o nó de auto-estrada à categoria de escultura modernista. Burgess fez o mesmo com o ubíquo bairro de arquitectura internacional, tão igual nos arredores de Lisboa como nos de Vladivostok.


Note-se que até agora sugeri livros que rondam a ficção cientifica escritos por autores que apesar de ligados ao género ascenderam ou partiram do estatuto de escritores dos cânones literários. A ideia é mostrar o poder e influência do imaginário de FC, que transcende facilmente as fronteiras de géneros num mundo contemporâneo dependente da tecnologia cujas tentativas de compreensão obrigam a olhar para o papel da ciência. É aqui que entra o carácter preditivo da FC, tão badalado nos media como a grande virtude do género. Na verdade, por muito que a FC imagine o futuro, são raras as predições que realmente se concretizam. O género extrapola as características e anseios dos tempos que lhe são contemporâneos em experiências de pensamento que imaginam possibilidades futuras. Raramente acerta nos detalhes, nem é isso que pretende, mas tem uma tendência arrepiante para definir tendências que caracterizam o presente. Se duvidam disso, abram o jornal e deliciem-se com o futurismo catastrófico das fugas radioactivas, flutuações infinitesimais nos mercados financeiros controlados por algoritmos ou a hipervigilância dos drones automatizados. Partindo de uma premissa científica hoje ultrapassada, Babel 17 é um bom exemplo de FC no sentido clássico de literatura onde a ciência desempenha um papel fundamental. E é também uma excelente maneira de cativar com a iconografia da space opera, com as suas vastidões galácticas, cidades futuristas, espécies alienígenas, naves espaciais e batalhas épicas, que é outra das formas com que a cultura mainstream entende a FC. A hipótese de Whorf-Sapir sobre a influência linguística nas ligações neuronais já passou de moda, mas o poder imaginativo da Space Opera clássica nas mãos de Delany continua válido. Num género associado ao épico espacial, sublinhado pela sua enorme popularidade cinematográfica, Babel 17 mostra como se pode ir muito mais longe do que as galáxias distantes num tempo longínquo da Guerra nas Estrelas. Para além disso estes épicos no espaço exterior contrabalançam o mergulho ballardiano no espaço interior. Depois de Delany, o caminho de descoberta do melhor da aventura pelas galáxias segue por Iain M. Banks e Alastair Reynolds.


O quinto livro é um enorme dilema. São tantas as obras excepcionais, os livros marcantes de autores incontornáveis. Mas só resta um. Não posso estender a lista, e sou obrigado a deixar de fora a obra influente de Philip K. Dick, que elevou a psicose ao sublime artístico. Mostrar que a tão criticada sensibilidade anglo-americana não restringe a prosa do francês Laurent Génefort, enquanto LeGuin sublinha o quanto há a fazer para tornar o género menos coisa de rapazes. Também gostaria de observar como Snowcrash de Neal Stephenson é ao mesmo tempo um romance divertido e informal que nos dá uma lição cada vez mais precisa sobre o mundo digital. E já agora refilar com o infeliz título deste livro em português. Nome de Código: Samurai. Não é dos mais felizes. Asimov fica intencionalmente de fora. Deixemos a descoberta da sua obra para uma altura de conhecimento mais profundo do género, para que não nos pareça tão irremediavelmente datada. O mesmo argumento se aplica a Arthur C. Clarke. De fora ficam Sterling, Pohl, Wyndham, Bear, Lem... tantos, tantos outros.

Termino com Bradbury. Por duas grandes razões. A primeira é sentimental. Foi com este autor que me apaixonei pela ficção científica. A sensação de encanto e as vistas alargadas que me cativaram na adolescência ainda hoje não me abandonaram. E sei que não as perderei. A partir das Crónicas Marcianas descobri o vasto universo da FC. Ray Bradbury foi essencialmente um contista, capaz de em poucas páginas mergulhar o leitor em pequenos mundos de maravilha. Poderia sugerir dezenas de colecções dos seus contos, mas deixo aqui uma colectânea que me cativou particularmente, por causa da capa. Todos os estereótipos, o futurismo utópico, o sense of wonder, as vastidões galácticas, o fascínio pelos foguetões e naves espaciais estão traçadas nesta imagem de um astronauta abandonado num asteróide. Mas os contos transcendem largamente a iconografia estereotipada. As questões de género, a fidelidade ao espírito científico ou o aventureirismo com pistolas de raios ficam à parte na obra de um autor cujo estilo narrativo se aproxima do realismo mágico, essa forma da literatura com l maiúsculo cortejar o fantástico. É esta a outra grande razão para a sugestão, mostrando que apesar de género específico a ficção científica facilmente transvasa limites e influencia outras vertentes.

De certa forma, encerro este post em círculo. Da prosa concisa e erudita de Calvino vou à escrita simples e mágica de Bradbury. Sinto-as similares na sua paixão pelo ir além do real, imaginando possibilidades. Pelo caminho ficam algumas selecções, certamente discutíveis como todas as escolhas são. Resta enfrentar dois riscos de evangelizar possíveis leitores: a rejeição liminar ou as equimoses provocadas pela devolução dos livros por via aérea acelerada. Termino com um conselho: não tenham medo, não se limitem a preconceitos de hipotéticas qualidades literárias ou pertinências culturais. O vasto e hibridizante campo da FC contém muitas pérolas do pensamento.

2 comentários:

João Campos disse...

Muito bem, muito bem. Uma lista bem mais eclética do que a minha :) Ballard e Delany estão a lista de leituras futuras. Burgess e Bradbury, enfim, já são muito cá de casa.

(e um reparo: no terceiro parágrafo a contar do fim tens uma frase sem sequência, logo a seguir à referência à Le Guin)

artur coelho disse...

ballard é algo que tens mesmo que descobrir. a fc dele é do melhor que se fez na new wave, e o pós-fc manteve o espírito hipermoderno que deu o mote à fc. com ballard aprendi a apreciar o jogo geométrico dos nós de auto-estrada, a solidão do betão cinzento do bloco de apartementos e o entrecortar do céu azul pelo jacto comercial. há similaridades entre ballard e gibson, não só na temática - aquela tentativa de compreender os efeitos da modernidade no individuo, mas também no percurso literário.

(e oops! tinha a certeza que o tinha terminado. escapou às revisões...)