terça-feira, 27 de agosto de 2013

Ficções

The Landline: A primeira contribuição de Bruce Sterling para a versão contemporânea da OMNI, que se estreou recentemente online, mostra bem até que ponto o Sterling-escritor de ficção científica está a ser esmagado pelo Sterling-guru da cultura tecnológica. O conto é uma leitura interessante naquela perspectiva de deslumbre futurista com uma cultura mediada por tecnologia que tornou o extraordinário banal em que Sterling se especializou. Como conto literário, é uma criatura estranha com algum toque experimental que mal se nota no meio de tanta reminiscência das tecnologias analógicas. Tem o seu quê de experiência de pensamento sobre uma realidade alternativa onde a internet se tivesse mantido um projecto puramente estatal, o ambientalismo tivesse triunfado sobre o capitalismo industrial e os protocolos de Kyoto. Mistura de hino à tecnologia analógica com experiência conceptual, lê-se por aquilo que é: uma ficcionalização dos discursos sobre impactos culturais da tecnologia com que Sterling nos tem tão bem brindado nos últimos tempos. De facto, termina precisamente da forma como o autor fala nas lendárias apresentações keynote do SXSW, com um comentário acutilante à efemeridade da cultura digital: "There is nothing physical or solid or lasting about this confession of mine. There’s not even a cardboard box! Go ahead, just wait a year, or two years, or maybe five years. Then try to find this, later. There will be no sign of this website, because it’s just made of pixels. No remains of the machine that you read it with, either.
Then try to find the other “readers” of this story, a story that you once saw on some screen. This isn’t a movie screen, where you’re all sitting in the dark together, breathing and laughing together. This is a digital screen, a private thing that’s the size of your desk, or the size of your lap, or the size of your hand."

Alone: Escrito por Marko Jankovic para a Nature Futures, este conto curto vai mais além da questão de como criar uma inteligência artificial consciente e pergunta-se como criar uma IA consciente que não se apercebe que é artificial? A resposta está na solidão.

Mantis Wives: O arrepiante hábito das Louva-A-Deus de devorar os machos da espécie visto como um constructo social. Neste conto sinistro Kij Jonhson imagina diversas formas elegantes e rituais do acto de devorar o insecto macho.

Only Connect: Em modo experimental, um conto de Greg Egan escrito como um rigoroso artigo científico. A quantidade de jargão técnico é tanta que só quando Egan deixa cair uma data no futuro é que percebemos que estamos a ler uma história e não um artigo real sobre como as interconexões quânticas possam ser o fundamento elementar do universo.

Cayos in the Stream: E se... nos anos 40, o intrépido e másculo Ernest Hemingway se tivesse dedicado a caçar submarinos alemães nas caraíbas? A bordo de uma escuna de pesca, com uma tripulação de corajosos civis e algumas armas escondidas, o escritor dá caça e danifica um submarino nazi. Uma curiosa história de histórias alternativas de Harry Turtledove, que só peca pelo insuflar de palavras que faz arrastar a narrativa.

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