domingo, 11 de agosto de 2013

American Century


Howard Chaykin, et al (2001). American Century: Scars and Stripes. Nova Iorque: Vertigo/DC Comics.

Howard Chaykin tem uma predilecção especial por histórias hard boiled que misturam sexo, violência e moralidades cinzentas em aventuras onde anti-heróis másculos prevalecem contra a corrupção e sensualidade que os rodeia. American Flagg é talvez o mais bem sucedido exemplo desta veia do autor, que em Black Kiss é levada ao exagero com requintes de sadismo. American Century fica-se pelo meio, sem o futurismo de Flagg nem a sexualidade absurda de Black Kiss mas com uma visão crítica sobre a mitografia americana que por vezes toca no cinismo.

Diga-se que a série começa muito bem, com um retrato amargo de um sonho americano de doçura suburbana que na realidade é um pesadelo de sorrisos velados e vícios não assumidos. É deste cenário de casas nos subúrbios e esposas domésticas que disfarçam o tédio dos maridos com os vizinhos que foge Harry Krafft, anti-herói tipicamente chaykiano que representa uma estranha inversão de Babbitt de Sinclair Lewis. Krafft é o que Babbitt seria se este se fartasse das pressões uniformizantes da subúrbia latente e fingisse a sua morte aos comandos de um avião.

Krafft refugia-se na Guatemala, onde depressa encontra um trabalho como piloto para um contrabandista de bom coração. Mas a Guatemala dos anos 50 não é um refúgio calmo. Entre as conspirações da CIA aliada à United Fruit, empresa em busca de melhores condições de mercado que vê com maus olhos as tentativas do governo guatemalteco de melhorar a vida dos seus cidadãos. Inevitavelmente, porque enfim, senão não haveria história, Krafft envolve-se com as diferentes forças envolvidas no sangrento golpe de estado e com a emblemática figura da esposa do presidente deposto, clone de Eva Perón com simpatias muscovitas.

As premissas e a visão crítica em que American Century assentam são intrigantes, mas as histórias desenrolam-se em modo pulp hard boiled, com a sexualidade gratuita e a violência a sobreporem-se às subtilezas de enredos saídos de uma reflexão atenta à dualidade entre mito e realismo no que toca à visão americana sobre si própria.


Howard Chaykin, et al (2002). American Century: Hollywood Babylon. Nova Iorque: Vertigo/DC Comics.

Na continuidade da série, o anti-herói justo Harry Krafft mergulha na Hollywood dos anos 50. A premissa é ambiciosa: misturar a caça às bruxas mccarthista com mafiosos ambiciosos e a decadência alimentada a drogas e dinheiro do mundo de actores e produtores. A história que cria o fio condutor é a de uma actriz, típica loira platinada decalcada de Marylin Monroe cujos segredos do seu passado ameaçam ser revelados pelo rapto de uma criança. Os raptores pertencem a um bando de mafiosos que decide investir na indústria cinematográfica dos quais alguns em busca de dinheiro extra se aliam a um actor que tenta a todo o custo livrar-se do seu contrato com o estúdio. Entretanto, um senador ambicioso e o seu ajudante sem escrúpulos começam a vasculhar a cidade em busca de suspeitos de simpatias comunistas, e decidem alargar o espectro aos homossexuais para facilitar a ascensão ao poder.

A mistura é prometedora mas a história acaba por se centrar mais nas proezas sexuais de Harry Krafft e num olhar voyeurista sobre os vícios e decadências sociais do que no que tornaria o enredo verdadeiramente interessante. É por isto que Chaykin, inegavelmente um dos grandes nomes dos comics do século XX, fica sempre aquém do que poderia. A sua mestria visual e implacável capacidade narrativa ficam para segundo plano perante o gosto pelo escabroso e o desviante.

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