quarta-feira, 17 de julho de 2013

2001: A Space Odyssey


Jack Kirby (1976). 2001: A Space Odyssey. Nova Iorque: Marvel Comics.

2001 é assumidamente o mais psicadélico filme de ficção científica de sempre. Entregar a adaptação para banda desenhada a Jack Kirby não é sublinhar o psicadelismo. É martelar o cérebro até que a caixa craniana se estilhace e com o terceiro olho pineal exposto se mergulhe no espaço perceptivo n-dimensional apercebido como manchas de cor viva que representa para os nossos cérebros irremediavelmente primitivos o abrir das portas da percepção.

Confesso uma relação amor-ódio com o traço de Kirby. A sua linha robusta geralmente traduz-se em figuras humanas rudes. Um traço perfeito para desenhar neandertais mas que prima pela deselegância da figura humana. Por outro lado a sua estética inovadora, uso arrojado da cor e os atrevimentos estéticos com desenho e colagem contribuem para dar à sua obra um tom marcadamente cósmico.

É por isto que talvez esta seja a adaptação certa para o autor certo: nas mãos de Kirby solidifica-se na prancha a filosofia psicadélica cósmica, o energizar da abertura difusa dos anos 60 potenciado pelos electrões que transparece nas cenas mais seminais do filme de Kubrick (e tão ausentes do futurismo terra a terra de Arthur C. Clarke). O resultado é uma adaptação bastante directa do filme, com alguns necessários desvios graças à especificidade da gramática da banda desenhada, embora pouco pronunciados graças às fronteiras difusas entre a linguagem deste género e a fílmica.

Não sendo um livro extraordinário, mantém vivo o deslumbre psicadélico da obra de Kubrick. Talvez o seu real interesse advenha da curiosidade. Em vez de mais uma adaptação para comic criada por um tarefeiro da indústria, capaz de pouco mais do que representações fieis dos ecrãs do filme, a entrega a um dos maiores génios do género gerou uma obra singular. Resta saber quais os efeitos da exposição prolongada ao turbilhão cósmico de cores sobre o cérebro e os globos oculares.

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