sexta-feira, 7 de junho de 2013

Ficções - Apex Magazine #49

A revista online Apex surpreendeu-nos na mais recente edição com contos que estimulam volteios mentais. Intrigantes e divertidos, trocam as voltas ao mais precavido dos leitores.

Reluctance: Cherie Priest começa este conto inocentemente com uma aventura steampunk em que um piloto  de dirigíveis de correio com uma perna mecânica atravessa placidamente os desertos americanos. Quando pousa para reabastecer no posto de Reluctance algo acontece. Aparentemente deserto, o local abriga uma horde de zombies, restos dos habitantes consumidos pela praga e que inexoravelmente tentam transformar o pobre aviador na próxima refeição. Confesso que é a primeira vez que me cruzo com zombie steampunk.

Titanic!: Outro conto de arranque inocente com uma viragem divertida e completamente inesperada, desta vez com a sólida voz narrativa de Lavie Tidhar. Um médico que guarda um segredo embarca num navio com destino ao novo mundo. A embarcação é o malfadado Titanic e o médico um discreto Dr. Jekyll. Tidhar demonstra a sua mestria literária ao deixar o leitor a perguntar-se sobre que voltas a história vai levar. O momento previsível do embate revela uma imprevisível colisão com um kaiju. O conto pode ser descrito como uma colisão entre a história do Titanic, a literatura clássica do médico e do monstro e monstros nipónicos. Não é profundo e existencial, mas é divertido e muito bem escrito.

Call Girl: A emergência da China como potência económica, política e militar mundial está a transformar este início do século XXI no século chinês. É sempre curioso notar a ciclicidade histórica nestas ondas de projecção global que se vão deslocando pelo planeta ao longo dos tempos. No que respeita à ficção científica e fantasia começa a notar-se que também por lá este é um campo bem desenvolvido e em explosão criativa, com um manancial de literatura e publicações regulares de fazer inveja aos que nas periferias dos impérios se sentem sempre aquém das dos nexos culturais mais vibrantes. A barreira linguística é um problema, e as traduções escassas mas que começam a gotejar para os meios de publicação ocidentais através do trabalho de Ken Liu, que já trouxe ficção científica chinesa à Interzone e agora à Apex. O que sobressai é um trabalho de sensibilidades muito diferentes da ocidental, com uma forte componente mitificadora, influência da tradição cultural milenar, um urbanismo quase opressivo e um sentimento de realidade difusa. Neste Call Girl acompanhamos uma rapariga que se vende a clientes ricos e poderosos, mas não é o seu corpo que está sujeito às leis da oferta e procura. O que é oferecido são histórias que concretiza com ajuda de espíritos, as tangíveis realidades imaginárias paralelas que conjura para os seus clientes, homens atordoados pelos luxos do enriquecimento rápido. Este é um conto difuso, como se se percepcionasse a realidade através de um véu de seda translúcida.

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