terça-feira, 7 de maio de 2013

Wizzywig



Ed Piskor (2012). Wizzywig. Marietta: Top Shelf.

O desafio inteligente deste livro começa logo na capa. Contemplamos uma caricatura do Macintosh, um dos ícones clássicos do mundo digital. E o título é uma elegante brincadeira linguística com os conceitos de wysiwyg e whizzkid. What you see is what you get, o que vemos no ecrã é o que corresponde ao processo em que trabalhamos é um dos princípios elementares dos interfaces gráficos. Whizzkid corresponde à ideia de jovem génio focalizado no que lhe desperta o interesse, insensível a tudo o resto e tão indiferente à convivência ou moral social que roça a sociopatia.

Claramente inspirado nas desventuras de Kevin Mitnick, hacker dos anos 90 apanhado pelo longo braço da lei após forte fanfarra mediática, este livro glorifica um tipo muito específico de hacker através de um personagem prototípico que apresenta as características de anto-socialidade quase autista, gosto por puzzles complexos e capacidade de navegar através das organizações mais emaranhadas. O hacker aqui é alguém que incapaz de funcionar socialmente com normalidade se dedica a desmontar aquilo que percepciona com um enorme e intrigante puzzle.

Diz o ditado que a curiosidade matou o gato e é esse o castigo reservado ao hacker retratado neste livro. Sempre em busca de novos desafios, intrigado e curioso com o que vai descobrindo no nascente mundo da internet, acaba por despertar a atenção das autoridades e dos media, que lhe movem uma perseguição implacável apesar das suas acções serem crimes menores ou sequer indefiníveis como crime. Mais do que os actos, é a ameaça ao sistema que amedronta as autoridades, e esse ângulo é bem explorado por meios de comunicação sensacionalistas que não olham a limites para capturar audiências. Previsivelmente, o hacker é esmagado pelo sistema, publicamente vilipendiado por jornalistas que o retratam como umm perigoso criminoso e com os direitos civis negados por autoridades vingativas. Resta-lhe apenas um amigo, locutor de rádio e companheiro de adolescência, para o defender na praça pública mantendo-o vivo aos olhos da comunicação social.

Ed Piskor, com o traço típico do comic independente norte-americano, olha com alguma nostalgia para tempos de inocência tecnológica. Está longe da visão contemporânea do cibercrime como lucrativo fenómeno global, glorificando a ideia de hacker como alma solitária e curiosa, que utiliza a tecnologia como processo em jornadas de descoberta de conhecimento.

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