segunda-feira, 1 de abril de 2013

Creepy




Ler os dez volumes correspondentes aos primeiros cinquenta números da clássica e lendária revista Creepy é uma completa sobredose de terror sobrenatural. Esta revista clássica do comic de terror editado pela Warren assumiu-se como herdeira do horror violento da EC Comics e safou-se aos limites do comics code, o dispositivo de auto-censura adoptado pela indústria, adoptando o formato revista e assim deixando de estar abrangida pelo código aplicado à banda desenhada em formato comic. Com este subterfúgio conseguiu manter a tradição dos terrores que revoltam entranhas e imagens chocantes no formado de banda desenhada antológica de contos curtos de terror apresentados por uma personagem fantasmagórica.

O terror da Creepy é fortemente icónico, assente em histórias de assombrações, vampiros, múmias, monstros, crimes sangrentos ou aventuras no espaço. São argumentos clássicos, baseados na eterna repetição com pequenas modificações de temas-base que se desenvolvem sempre na direcção de um final irónico e que raramente é inesperado pelo uso intensivo de estereótipos. Lidas em grande arco, as histórias acabam por formar uma amálgama narrativa onde a pequena variação mal distingue a constante repetição. Em cinquenta edições desfilam perante o leitor inúmeras variações de perfídia vampírica, reconstrução corporal ao estilo do Dr. Frankenstein, médicos e monstros, ladrões de campas, assombrações místicas que destroem os sedentos de poder, milenares maldições de múmias, monstros inauditos e outras repetições dos cânones clássicos do horror. Sabemos o que esperamos ao pegar nesta revista, e os argumentistas dão-nos o esperado.

É ao nível gráfico que a Creepy alcançou um justo lugar como título clássico e de culto. Os monstros e assombrações foram retratados pelos traços de lendas da ilustração da golden age dos comics como John Severin, Wally Wood, Steve Ditko, Gene Colan e Joe Orlando com imagens icónicas, ilustrativas do melhor do género e perfeitamente evocativas de um estilo muito próprio que marcou uma época, respeitador dos estilos individuais de cada ilustrador. A precisão de Wood facilmente ombreava com o psicadelismo de Ditko ou o expressionismo de Grandenetti. Outros grandes nomes, como Richard Corben, Neal Adams, Jerry Grandenetti ou Bruce Jones agraciaram as páginas da revista. O desfilar de vedetas da ilustração faz pensar a revista como um eterno deslumbramento visual, mas ao longo de cinquenta edições percebe-se que a grandiosidade iconográfica, apesar de marcante, não representa o habitual. Boa parte das ilustrações são de baixa qualidade, estofo a encher páginas de uma revista se que lê com avidez em busca dos rasgos de génio gráfico.

Novamente, ler as primeiras cinquenta edições mostram um panorama interessante na evolução qualitativa do grafismo da Creepy, de uma forma que pode ser descrita como uma curva de sino invertida. Os primeiros números têm vinhetas brilhantes de alguns dos nomes mais icónicos do género, mas com o tempo a qualidade decai apreciavelmente. O regresso à boa forma visual é feito com a introdução do trabalho de desenhadores espanhóis que depressa deslumbram com uma sensibilidade barroca que espelha a tradição europeia de desenho. Vinhetas absolutamente espantosas de ilustradores como Esteban Maroto, José Bea ou Jaime Brocal fazem disparar a qualidade gráfica da revista.

Merecedora da fama de clássica pelos argumentos e ilustrações, a Creepy é um marco incontornável na história dos comics.

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