terça-feira, 5 de março de 2013

Nemo: Heart Of Ice



Alan Moore, Kevin O'Neill (2013). Nemo: Heart of Ice. Marietta: Top Shelf.

Nas edições mais recentes de League of Extraordinary Gentlemen Moore e O'Neill começaram a ser acusados de um certo obscurantismo, com argumentos difusos, envoltos em referências complexas e a decair para uma tristeza trágica enquanto o elemento aventura ficava totalmente de parte. E diga-se que de Black Dossier para a frente a série passou a estar mais virada sobre si própria, numa recursividade quase iniciática, do que da aventura divertida que caracterizou os dois primeiros volumes. Aventura divertida e erudita, com a aparição de inúmeros personagens ficcionais da tradição europeia e norte-americana do renascimento aos nossos dias. Esta erudição, sempre mistificada por Moore, é um deleite de por a nu sempre que as referências culturais se cruzam e a mente faz o seu clique.

Esse ciclo de pessimismo decadente não será quebrado na série principal da liga. Mas, talvez por divertimento ou por resposta aos resmungos dos fãs e leitores, Moore e O'Neill em grande forma brindaram-nos com este Nemo: Heart of Ice. É um regresso às raízes da série: aventura pura com a erudição da história da ficção. Cada vinheta explode em referências (lá para o meio até um D'Artacão é visualmente citado) e a história homenageia principalmente Citizen Kane e At The Mountains of Madness, com tangentes à ficção de aventura científica de estilo edisonade do final do século XIX de Tom Swift, Frank Reade jr. com o robot a vapor das pradarias a tornar-se outra peça da colecção de Charles Foster Kane ou Jack Wright The Boy Inventor.

A história mergulha-nos na necessidade da filha do Capitão Nemo de se aventurar no desconhecido. Decide atravessar a antártida, mas o que parecia um périplo sobre o gelo colide com os mistérios ocultos nas montanhas da loucura. O gigante branco de Poe na Narrativa de Arthur Gordon Pym of Nantucket e os shoggots lovecraftianos atravessam-se no caminho dos exploradores, que após atravessarem um planalto misterioso se deparam com o segredo oculto pelas montanhas: as ruínas de uma cidade ante-diluviana construída por seres de além espaço quando a humanidade ainda nem sequer existia. Sim, estamos a falar de At The Mountains of Madness de Lovecraft e Kevin O'Neill levou à letra as descrições do escritor da cidade de geometrias improváveis, altos-relevos revoltantes e ídolos com forma de estrela de cinco pontas. De todas as representações visuais desta obra é O'Neill neste Nemo: Heart of Ice que na minha opinião mais se consegue aproximar da visão de Lovecraft.

Esta aventura não se fica por aqui. O livro arranca nas docas de uma Nova Iorque de futurismo art-deco, onde a tripulação do Nautilus rouba os bens da fatídica Ayesha (personagem de H. Ridder Haggard), sob protecção de Charles Foster Kane (o cidadão de Citizen Kane de Orson Wells). Despeitado, Kane contrata Tom Swift (aliterado para Swyfte), Frank Reade e Jack Wright para com as suas invenções científicas perseguirem e capturarem a filha de Nemo. Perante os mistérios das montanhas antárticas, o seu destino é a morte e a loucura.

A história é linear, cheia de referências a personagens obscuras e livros esquecidos. Linear, mas não simples. Para além das constantes referências cruzadas há um momento em que o leitor mais atento pensa que houve um erro na impressão e o livro tem páginas trocadas, com vinhetas repetidas e uma confusa quebra na história. Não é erro, é o artifício que Moore utiliza para mostrar os efeitos na memória do vórtice espácio-temporal que aguarda os aventureiros no misterioso planalto que antecede as montanhas que despertam insanidade. A lista de personagens citados não se esgota nas que já apontei e aposto que o lendário Jess Nevins se vai divertir à grande com este livro. Aliás, já o começou a fazer. O olhar mais atento depara logo com um rabugento Popeye na primeira vinheta, D'Artacão tem aparição fugaz como habitante da Megapatogonia de Restif de la Bretonne, terra antártica francesa onde os habitantes falam em francês invertido (thanks, Mr. Nevins, and who knew that the dog musketeer from my childhood was named Dogtanian in english), e certamente que muitas outras referências visuais, literárias e estéticas aguardam o olho erudito dos leitores. Por mim, estou mortinho por ir à caça das referências visuais de O'Neill para a sua Nova Iorque futurista. Será Bel Geddes? Futurama na exposição mundial de 1939?

Aceno aos leitores, Nemo: Heart of Iron regressa à aventura pura e erudita com os autores em grande forma a darem-nos uma narrativa extraordinária cheia de referências a clássicos da ficção científica e fantástico. É um bem vindo contrapeso ao tom tenebroso de League of Extraordinary Gentlemen: Century, que revisita o tom de aventura sem limites que caracteriza a série.

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