quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

American Gothic


Deparei-me com estas antigas revistas da editora brasileira Abril ao arrumar a biblioteca. Têm um lugar especial. São preciosas porque representam o meu primeiro embate com o génio narrativo de Alan Moore. A história é bem conhecida. Nos anos 80 Moore foi contratado pela DC para escrever as histórias de um personagem de segunda linha que se caracterizava pela inanidade. Ao fazê-lo, reinventou a personagem e ajudou a lançar as bases para uma vertente de comics que pegava na iconografia simplista para narrativas complexas e cheias de referências literárias. Moore transformou o monstro em força da natureza, sublinhando o lado ecológico. Redefiniu origens, abordou paixões complexas, redescobriu dezenas de personagens clássicos esquecidos nos arquivos que ganharam nova vida. E algures a meio da série introduz um inglês atraente e desagradável, anti-herói cheio de segredos e com uma língua afiada, capaz de enrolar qualquer um enquanto puxava baforadas dos seus inseparáveis cigarros. Jonh Constantine, esse personagem, tornou-se um dos mais icónicos da DC.

American Gothic foi a resposta de Moore à inserção de Swamp Thing na continuidade da DC e os seus tie-ins. Obrigado a participar no arco Crise nas Infinitas Terra (versão resumida: os universos paralelos infinitos são aniquilados, excepto o nosso, porque como se sabe, o infinito é um número redondo com finitude) Moore dá a volta de forma elegante. Em vez das intermináveis batalhas entre super-heróis, coloca o Monstro do Pântano num périplo de auto-descoberta atravessando a américa a combater os horrores despertados pela Crise, encaminhado por um Constanine manipulador. Pelo meio surgem alguns pontos altos do comic de terror, com histórias que abordam as criaturas que assustam a noite contadas de forma interventiva e inovadora. Entre outras, temos zombies que regressam à vida para vingar a violência do esclavagismo nas plantações sulistas (a primeira prancha dessa história, com três vinhetas a mostrar um esqueleto dentro de um caixão a mexer-se subtilmente, é algo de inesquecivel); uma lobisomem fêmea cuja morte é uma reflexão libertária sobre a evolução do papel da mulher ao longo dos tempos; vampiros que se adaptam a uma vida submarina para sobreviver; a reinvenção da personagem através da mitificação da narrativa original (onde Moore republica a história original de Len Wein e Berni Wrightson); e uma lenta mas metódica progressão que vai desvendando a cada passo mais sobre a ameaça por detrás dos acontecimentos ocultos e aprofunda as histórias do Monstro, da sua amada Abby, do manipulador Constantine e de uma galeria de personagens esquecidos como Zatanna, Dr. Occult, Sargon, Phantom Stranger e Cain e Abel com as suas casas dos Segredos e Mistérios. O final do arco narrativo é memoráve, onde todas as posições absolutas falham, simbolizadas pelo fracasso da força, e o bem e o mal se juntam como faces da mesmo conceito devastando a simbologia elementar da dualidade absoluta entre estes conceitos, marca narrativa do género dos comics.

Tudo isto criado num ambiente sombrio, com uma linguagem narrativa que ia muito além do género e se inspirava livremente em fontes literárias. As ilustrações de Rick Veitch, Alan Totleben e Steve Bissette num registo fortemente trabalhado e difuso, tornaram-se icónicas no género num estilo facilmente reconhecível mas único, sempre a prometer calafrios de grafismo aterrorizante. Esta série foi sendo publicada em português numa época em que era fácil encontrar comics em qualquer banca de jornal. Foi um achado do acaso que me levou a admirar profundamente o trabalho de Alan Moore. É verdade que este criador escreveu comics bem mais pertinentes ou elaborados. Pensemos no inescapável Watchmen, no elaborado Promethea ou no seu trabalho mais independente. Mas em termos de impacto nos comics Swamp Thing destaca-se pela reviravolta que deu aos lugares comuns do género, abrindo caminho a outros argumentistas e desenhadores britânicos no género. Neil Gaiman e a série Sandman é talvez o caso mais icónico, mas Moore abriu caminho a Garth Ennis, Dave McKean, Grant Morrison e Brian Bolland, entre outros. A influência é tão forte que mesmo na versão DC'52 de Swamp Thing Scott Snyder não tem feito muito mais do que andar às voltas com a estrutura estabelecida por Moore. E quanto ao mundo dos comics, aí as marcas são profundas.

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