sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Mind Amplifier



Howard Rheingold (2012). Mind Amplifier: Can Our Digital Tools Make Us Smarter?. Nova Iorque: TED Conferences LLC.

O conceito de tecnologia digital como amplificador cognitivo não é novo. Tem sido explorado pelos tecnoutopistas singularitários e transhumanistas. No domínio educacional tem raízes no seminal Computadores Ferramentas Cognitivas de Jonassen, onde este traça um mapa das principais vertentes da tecnologia digital e o seu potencial metacognitivo, isto ainda nos tempos de uma incipiente internet massificada. O que Rheingold traz à discussão é o poder da conexão e das redes.

O livro assume à partida uma posição mcluhanista, onde a tecnologia que criamos modifica o mundo que nos rodeia mas também modifica as nossas percepções, formas de agir e pensar. Rheingold mergulha fundo para demonstrar este ponto de vista, com uma série de capítulos fascinantes sobre o poder transformativo do uso de símbolos linguísticos na comunicação humana - essencialmente, as transformações evolutivas advindas da linguagem, multiplicadas pela abstracção simbólica da escrita que modificaram profundamente as sociedades humanas. Na visão do autor, o desenvolvimento da capacidade cognitiva linguística provocou uma evolução social com implicações na estrutura cerebral onde recursos reflexivos de sobrevivência passaram a ser utilizados para formas de abstracção que nos concederam o dom de representar mentalmente o mundo que nos rodeia. A escrita é outro passo em frente, com todas as revoluções trazidas pela alfabetização e imprensa num ritmo progressivamente acelerado.

Nesta óptica, a tecnologia digital torna-se outra tecnologia inserida na linha de amplificação das capacidades cognitivas humanas. Rheingold olha com atenção para o trabalho dos pais conceptuais da era da informação, mostrando que Vannevar Bush, J. R. Licklider e Douglas Englebart anteveram e trabalharam no desenvolvimento dos computadores sobre perspectivas holistas, apercebendo-se do seu potencial transformativo da consciência humana na era dos cartões perfurados e tubos de vácuo. Englebart é particularmente destacado pelo seu trabalho no desenvolvimento de interfaces que possibilitaram uma maior abrangência na utilização do computador, concebidos com o fim expresso de utilizar o poder computacional com forma de organizar informação e auxiliar da criação.

Quanto à resposta à pergunta colocada no título, esta é estranhamente elusiva. Rheingold explora profundamente o impacto transformativo da linguagem, alfabeto e primórdios da computação digital numa série fascinante de capítulos, mas quando finalmente chega aos factores que considera fundamentais para que o mundo digital cumpra a sua promessa em simbiose com as necessidades humanas as propostas são apenas afloradas, talvez pelo limite de páginas de um livro curto. Centra-se na metacognição, abstracção, cognição socialmente amplificada, inteligência colectiva e colaboração estigmérgica como vertentes de desenvolvimento de ferramentas digitais que realmente funcionem como amplificadores cognitivos e não como objectos de consumo de tangíveis ou intangíveis. Aqui, Rheingold coloca-se claramente no campo dos defensores do conceito de rede como o elemento verdadeiramente transformador trazido pela ligação entre o computador e as redes de comunicação, que mostraram o verdadeiro poder da tecnologia digital: possibilitar novas formas de colaboração e construção colectiva de ideias, conceitos e conhecimento alicerçada na dimensão social da comunicação.

Todos já sentimos isto. Todos, isto é, todos aqueles que estão ligados pela tecnologia digital e começaram a perceber que mais do que canal de consumo esta é uma poderosa ferramenta de criação em que a partilha e a colaboração são elementos fundamentais para uma verdadeira explosão criativa que se alimenta continuamente. Hoje a infoexclusão não se trata apenas de uma questão de acesso à tecnologia, é uma questão metacognitiva de reacção crítica perante o que nos é oferecido pelo admirável mundo novo digital. O poder das redes é cada vez mais aparente, e muitos dos serviços e recursos que hoje dispomos constroem-se colaborativamente, em esquema novos de organização onde cada elemento contribui livremente mas a estratégia de organização não é definida à partida, evoluindo de acordo com a colaboração entre centenas ou milhares de indivíduos. São estas formas orgânicas de colaboração social, em constante mutação, que foram possibilitadas pelas redes digitais e por sua vez reorganizam a nossa forma de pensar e agir no mundo que nos rodeia.

A proposta de Rheingold é intrigante e vai mais além da dicotomia deslumbramento/catastrofismo com que normalmente se analisam as mudanças conceptuais que as redes digitais trouxeram às formas como agimos e pensamos. Não é a visão is google making us stupid nem as utopias tecnocráticas alimentadas a bits que Evgeni Morozov critica tão bem. Rheingold olha para o potencial modificador da tecnologia digital, alicerçando-se em McLuhan (as tecnologias que criamos alteram a nossa percepção), numa visão cognitivista da evolução humana que interliga linguagem, memória e capacidade de acção, e na história de tecnologias de informação e comunicação como o alfabeto que literalmente mudaram o mundo e a forma como pensamos. Está consciente dos perigos, usos nocivos e armadilhas deste admirável mundo novo digital e traça aqui um potencial caminho que nos permitirá tirar partido da simbiose homem-máquina para controlar o próximo salto numa sequência evolucionária que se iniciou quando os ancestrais humanos começaram a usar a capacidade cerebral para representar mentalmente o mundo que os rodeava.

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