segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Lisboa No Ano 2000: Uma Antologia Assombrosa Sobre uma Cidade que Nunca Existiu



João Barreiros (ed.) (2012). Lisboa No Ano 2000: Uma Antologia Assombrosa Sobre uma Cidade que Nunca Existiu. S. Pedro do Estoril: Saída de Emergência.

Alucinação consensual, universo ficcional partilhado: o mote para a colectânea de contos Lisboa no Ano 2000 é um retrofuturismo inspirado na ficção científica francófona da viragem do século XX, em particular na obra de Albert Robida. Estabelece uma visão distópica de um final de século XX imaginário onde a electricidade domina, o reino de Portugal mantém-se alicerçado num espaço mundial dominado pela Grande Alemanha com o reino inglês isolado e uma américa que nunca se chegou a desenvolver. Tudo isto num ambiente retro que vai beber influências à arte nova, ao estilo fim de século, à metropolis de Lang e ao steampunk, aqui reconvertido para a electricidade.

O livro é alicerçado por três contos de João Barreiros, que nos dão a mestria a que já estamos habituados neste autor e funcionam como o motor da obra. Além da obra de Barreiros destacaria o gosto pelo apocalipse nuclear metamorfoseado por João Ventura em electricidade das almas, a vénia à clássica visão da viagem à lua de Verne por Telmo Marçal, a nitidez intricada do mecanismo clockwork de Guilherme Trindade e a beleza literária de Jorge Palinhos como os pontos altos de uma colectânea de contos que sonha uma Lisboa imaginária retrofuturista.

Notas:

O Turno da Noite: João Barreiros dá o mote à colectânea com uma fábula negra que traça as linhas de um retro-futuro distópico. Um acidente numa linha subterrânea causa uma ucronia onde o tempo geológico se dissolve nas águas do Tejo. A visão de silenciosos operários e engenheiros licenciosos a arrastarem-se por entre turnos em comboios submersos é reminiscente de Metropolis, com as imagens de proletários robotizados enfileirados em logos corredores.

Venha a Mim o Vosso Reino: as premissas deste conto de Ricardo Correia são interessantes, com uma proto-religião charlatanista, conspirações de alto nível, freiras assassinas ninja e uma estátua animada por reencarnações de espíritos eléctricos a destruir Lisboa. Infelizmente, arrasta-se no arranque para um grande final que é relatado com a coerência literária de um aluno do ensino básico a fazer composições.

Os Filhos do Fogo: uma pérola literária, este conto de Jorge Palinhos que canaliza na perfeição os temores sobre simulacros digitais, aqui corporizados com a metáfora eléctrica, e as narrativas de aventura e mistério do século XX. Uma peça literária perfeita cujas palavras embalam o leitor.

Dedos: AMP Rodriguez cria um conto sólido sobre autómatos rebeldes e desumanização industrial.

As Duas Caras de António: Um conto de espionagem onde um agente da grande Alemanha se faz passar por aristocrata português é o mote de Carlos Silva para uma reflexão sobre os limites, ou antes, a falta de limites da ambição humana.

Electro-Dependência: Num retrofuturo eléctrico, há seres que controlam e libertam electricidade. Estes electrokinéticos são depressa escravizados como baterias humanas ou fornecedores de drogas chocantes. O herói do conto de Ana Nunes tem-se escapado ao destino dos restantes electrokinéticos, apenas para cair nas garras de aristocratas decadentes num processo de abuso que o leva a uma explosiva revolta final.

Nanoamour: Ricardo Ortigão mistura desejos de progressão social e invenções eléctricas capazes de condicionar o cérebro num conto divertido onde o inesperado acontece.

Energia das Almas: João Ventura mergulha nas catástrofes nucleares numa metáfora em que os resquícios de energia eléctrica das almas são aproveitadas como fonte de energia, com resultados catastróficos. Uma fábula sobre os receios nucleares disfarçada com elementos electropunk.

Fuga: Joel Puga cria uma reflexão sobre os desejos da imaginação e o comercialismo descarado onde um programador de engenhos analíticos que sonha ser escritor descobre que os editores apenas procuram literatura feita a metro.

Tratado das Paixões Mecânicas: a estupidez das acções pré-programadas é posta a nu num relato de uma tentativa de invasão de Lisboa por uma fábrica automatizada acompanhada pelos seus humanos domesticados. Fábricas automáticas virais que se propagam com o objectivo único de colonização económica, derrotados pelos tanques eléctricos das forças da real monarquia lusitana. João Barreiros no seu registo de fascínio cruel.

O Obus de Newton: Telmo Marçal homenageia o clássico Viagem à Lua de Verne num conto que coloca um português disparado de um obus na amazónia em órbita... eterna.

Ex-Machina: acção pura no conto de Michael Silva em que um herói relutante se vê forçado a combater legiões de proletários cuja consciência foi sequestrada por uma misteriosa entidade.

A Rainha: o universo ficcional da colectânea é a desculpa para uma suave história de horror com monstros de prole humana escrita por Pedro Pedroso.

Taxi-dermia: Guilerme Trindade gira o universo de Lisboa no Ano 2000 para um registo clockpunk num conto imaginativo sobre andróides mecânicos e robots de mecanismo de relógio que simulam a vida de tal forma que se sentem seres vivos.

Quem Semeia no Tejo: um cientista de ideias radicais é o único capaz de exorcizar o simulacro eléctrico que atormenta o rei português no conto de Pedro Martins.

Coincidências: o conto de Pedro Afonso mergulha-nos em amores do acaso e uma atribulada passagem de milénio.

Chamem-nos Legião: quase um livro dentro de um livro. João Barreiros mistura terrores lovecraftianos com conspirações alicerçadas em tecnologias perigosas num longo conto em que uma freira exorcista devoradora de ectoplasma combate os delírios de uma tágide e um agente secreto britânico quase vê o seu plano para infiltrar bonecos mecânicos inteligentes gorado por uma explosão de inteligência artifical maléfica. Um sublime final para a colectânea neste longo conto, talvez o mais ambicioso de todos os que compõem este Lisboa no Ano 2000.

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