domingo, 4 de novembro de 2012

Amadora BD 2012


Banda desenhada autobiográfica tem o seu quê de voyeurista.

O festival de banda desenhada da Amadora começa a ficar demasiado previsível. É sempre bom lá ir ver os destaques, contemplar pranchas originais de BD, rever autores consagrados e ser surpreendido por coisas novas e interessantes. Mas saio de lá com uma sensação de que o festival é sempre igual. Destaque central a um tema estabelecido, que não choque sensibilidades ou levante sobrancelhas ancorado por algumas exposições auto-congratulatórias. O mais interessante reside geralmente nas exposições que destacam autores ou albúns recentes. Confesso que as exposições principais me entediam e só nas laterais é que encontro aquilo que me leva a estes festivais, a divulgação de obras pouco conhecidas ou de grande envergadura.

Vinhetas do fabuloso O Amor Infinito Que Te Tenho de Paulo Monteiro

Destaques muito positivos: o intimismo de Paulo Monteiro, autor em destaque nesta edição do FIBDA; o espantoso traço de Ricardo Cabral, com a mostra de panoramas originais num moleskine cujos limites não impedem o registo do campo de visão do autor; o lirismo de José Carlos Fernandes, que é sempre bom de revisitar; o reconhecimento da mestria de Victor Mesquita com uma exposição que nos mostra o seu traço único em pranchas originais de Eternus 9; o relevo dado na exposição da ilustradora Ana Afonso aos vários passos de um projecto gráfico, com capturas de ecrã de várias fases de tratamento digital.

A primeira página do primeiro Homem Aranha.

Quanto ao resto em exposição, o destaque a Cyril Pedrosa pareceu-me modismo ("é em frança! é meio português! vamos dar-lhe três salas"). Se o apelido não fosse português e não tivesse feito um album sobre portugal talvez nunca chegasse às paredes do FIBDA. O tema da autobiografia foi uma aposta que não corre riscos. Reflecte o carácter institucionalizado do festival, destino típico de visitas de estudo e programas culturais. Em Portugal a banda desenhada sofre o estigma de ser considerada arte menor e as temáticas do festival incidem no conferir de uma certa gravitas para convencer o público cultural do valor do género enquanto forma válida de expressão artística. Percebe-se que o Amadora BD começa a acusar uma certa meia idade, com um certo provincianismo nas exposições temáticas ("há gajos tugas a fazer o homem aranha? na marvel? na marvel? no estrangeiro? vamos lá fazer uma sala dedicada a isso!") que ficou bem expresso nas exposições sobre Cyril Pedrosa ou na totalmente espúria dedicada ao Homem Aranha, que só serviu para mostrar pranchas de autores portugueses. Ok, estão de parabéns. Ok, se calhar até merecem mais destaque. Mas ali desenquadrados no meio da exposição central sobre a tradição da autobiografia nos comics... pareceu um mero abanar de bandeira.

A encantadora entrada da exposição de Ana Afonso.

Pranchas originais de Eternus 9 por Victor Mesquita. De cair o queixo com espanto...


O péssimo: aquela disposição em labirinto da exposição principal. Percebe-se a intenção de permitir explorações livres. Na prática é quase preciso um GPS para navegar os espaços interiores. Torna-se difícil perceber sequências temporais em exposições que visam mostrar percursos históricos. Algo horrível: a música pop comercial que azucrina os ouvidos na exposição principal. Quem foi o génio da organização que achou que para melhor se ver uma exposição densa era precisa música da moda? Tenho mesmo que levar com lady gaga enquanto contemplo pranchas originais de robert crumb (curiosa ironia...)? Havia um certo ambiente de supermercado, com magotes de espectadores a atropelarem-se nas salas labirínticas ao som de música comercial. Qual é o problema de observar exposições... em silêncio? Parece que funciona noutros espaços. Museus em geral parece que têm muito sucesso com o conceito. Felizmente não houve nenhum cretinismo como o do ano passado com aquela ideia idiota das cuecas na cabeça.

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