sábado, 6 de outubro de 2012

Voodoo


Coisas que acontecem quando Alan Moore pega num personagem: as suas características típicas ficam esquecidas enquanto a história avança num enredo de características místicas ou esotéricas. Foi o caso de Voodoo, originalmente uma personagem da Wildstorm com a capacidade mística de saber se alguém estava possuído por agentes de uma espécie alienígena invasora. Moore coloca tudo isso de lado e mergulha a personagem em Nova Orleães, numa história que é uma boa desculpa para o autor brincar com os ícones sagrados da religião vodun com um toque de sexualidade sagrada à moda de Ísis e o eterno conflito de equilíbrio entre forças ocultas. Da personagem original mantém-se a identidade de dançarina exótica em bares de strip-tease.

Não era o que esperava quando peguei nos comics. Sendo algo da mente de Alan Moore, esperava algo mais esotérico, próximo da ilegibilidade com referências obscuras e enredos metafísicos. Fiquei muito surpreendido quando percebi que se tratava de uma encarnação de Voodoo, uma personagem não muito interessante do alinhamento DC 52.


Na nova continuidade da DC, Voodoo é uma mutante, clone híbrido de adn humano e daemonita, espécie alienígena que pretende subjugar a humanidade. Apesar de se ter revelado uma agente do inimigo da humanidade, ainda não se conseguiu perceber se Voodoo é uma heroína ou má da fita, talvez porque na salganhada que é a sua continuidade narrativa se possam incluir irmãs gémeas, agências secretas, viagens a velocidades fisicamente impossíveis a planetas do sistema solar e um segundo fôlego à encarnação falhada dos Blackhawks na DC. A coisa já está tão avançada que aquele pequeno pormenor que transforma Voodoo numa personagem particularmente atraente para os leitores, com ênfase no género masculino, depressa foi esquecido. Os primeiros números do comic ainda mostravam as formas generosas da personagem na sua identidade original, geralmente para logo a seguir se transformar numa criatura semi-reptilíca. Para a história dos comics ficam os primeiros números de uma personagem da DC mais sexy do que a Wonder Woman e todo um resto que está destinado ao esquecimento ou à terceira linha.

Diga-se de passagem que a DC é lendária por passar a vida a reciclar propriedade intelectual. Os seus títulos emblemáticos vivem de personagens icónicas com cinquenta ou mais anos, constantemente reinventadas para apelarem aos públicos contemporâneos. Nos alinhamentos secundários vai ressuscitando personagens que deixou de lado ou que vieram de aquisições corporativas, caso desta Voodoo ou dos Stormwatch, ou do promissor mas esquecido Shield, que teve uma interessante série antes das redefinições da onda 52.

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