sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Dynabook


Parece uma representação singela de duas crianças a utilizar os seus tablets android, iPad, OLPC ou até mesmo magalhães. A ideia de uma educação potenciada pela tecnologia digital dá hoje passos decisivos mas ainda incipientes. Esta imagem não estaria descabida num qualquer artigo sobre crianças, aprendizagem e tecnologia e assemelha-se muito a boa parte das imagens de stock com crianças sorridentes a interagir nos seus dispositivos electrónicos. Modéstia à parte, não seria descabida em relação à minha sala de aula nos tempos de Educação Visual e Tecnológica e se conseguir levar avante a ideia cada vez menos difusa de trabalhar com realidade aumentada, esta seria uma bela imagem para ilustrar o projecto.

Mas... não. Esta imagem sublinha o quanto ideias que consideramos novidades recentes têm já um longo historial. Foi retirada do artigo seminal de Alan Kay onde este descreve o Dynabook, conceito de computador portátil cujas possibilidades e design o aproximam da nossa visão contemporânea do tablet. Artigo publicado em 1972. Porque nesses anos já uns deliciosos investigadores de sanidade duvidosa e genialidade comprovada andavam a conceber impactos da revolução digital que só nos tocaram nos primeiros anos do século XXI. Pessoas como Kay ou Seymour Papert, esse grande culpado por colocar crianças a programar com o Scratch e o Logo. Que influenciaram Resnick ou Negroponte, que decidiu lançar um projecto insano de construção de computadores portáteis a muito baixo custo numa parceria que incluiu um fabricante de Taiwan que ganhou fama ao inaugurar o mercado dos netbooks. Nos anos em que as mainframes ainda reinavam e a computação pessoal era o domínio de poucos.

O que intriga no artigo A Personal Computer for Children of All Ages de Alan Kay é a sua visão abrangente. Foca-se, necessariamente, na tecnologia possível e necessária para a construção de um equipamento portátil com teclado e caneta. Pensa profundamente nas implicações educativas, alicerçadas no construtivismo de Papert e no desenvolvimento cognitivo preconizado por Piaget, postulando um equipamento aberto que possibilitasse à criança construir a sua aprendizagem de formas livres ou estruturadas, o aprender fazendo, ideias que ainda hoje são controversas, talvez porque o peso da escola tradicional e dos métodos clássicos sufoque outras perspectivas. Mais intrigante é a visão integrada do dynabook na sociedade, em que todos têm um que os auxilia nas suas tarefas e lazer. Na visão de Kay enquanto as crianças lêem livros descarregados da biblioteca ou reprogramam jogos com base em conhecimentos de ciências os seus pais executam as tarefas do dia a dia contando com a máquina para armazenar documentos ou consultar informação. Até há um parágrafo fantástico em que Kay descreve a aquisição e leitura de um livro electrónico, a partir de uma máquina de vendas num aeroporto.

Sublinhe-se que isto foi concebido nos primórdios da era digital. Quando a internet era um conjunto de nós que se contavam pelos dedos de algumas mãos, quando o computador era um caixote monocromático dolorosamente lento pelos nossos padrões. Quando era inimaginável que todos tivéssemos no bolso um dispositivo capaz de comunicar, aceder à rede, organizar informação e armazenar os dados pessoais que são relevantes para os seus utilizadores.

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