domingo, 23 de setembro de 2012

Digital oblivion


O digital e a diluição da expressão.

A responder a perguntas sobre o Google Glass - aquele projecto de óculos como dispositivos de computação móvel/realidade aumentada. A esta The shape of the product (glasses) is an innovative form of communication, what are in your opinion the advantages that can be derived from that?, que respondi dizendo que isto de óculos como ecrãs até já é old news. Lembro-me bem do Xybernauts e similares. O que o glass faz é reduzir e tornar o computador mais compacto e elegante.

Esta mereceu visão mais poética: In continuation to the previous question what are the disadvantages/difficulties/risks that can be derived from that?

- a rise in bumps in the head from urban obstacles (cars, people, urban architecture). Pois é. Imaginem-se a caminhar na rua enquanto lêem emails, vêem um filme ou conversam remotamente com alguém. Os olhos podem ter a percepção do ambiente que nos rodeia, mas a atenção está concentrada. Tropeções, encontrões contra objectos imóveis, cruzamentos dolorosos entre utilizadores de óculos de RA e veículos em movimento...

- an eerie, zombie-like feeling where everyone is staring into oblivion. Imaginem que estão na rua, num café, num jardim público, em qualquer local onde se acumulem pessoas no dia a dia. No metro ou paragem de autocarro. Todos a olhar para um infinito, concentrados nos seus óculos, gesticulando e falando sozinhos. No fundo estou apenas a extrapolar o nosso corrente comportamento com telemóveis ou tablets para um dispositivo que aproxima ainda mais o fluxo do mundo digital do corpo humano. Confesso que fico sempre desconcertado sempre que vejo alguém a falar e a gesticular, comunicando com um telemóvel e auriculares. Noutras eras seria internado como maluquinho ou exorcizado como possesso por legiões de demónios. A série web H + vai mais longe e imagina o que seriam interfaces projectados na retina. E sim, cá temos a ideia de olhares vazios para o infinito e gestos que para quem não sabe o que está em jogo parecem encantamentos mágicos.

Um projecto artístico com alguma controvérsia - envolveu um hack aos computadores à venda numa loja da Apple e terminou com os serviços secretos norte-americanos a bater à porta do incauto artista, mostra bem como é vazia a expressão humana quando o nosso cérebro está intrigado e a interagir com o computador. São imagens que assombram, aguarelas criadas a partir de fotografias tiradas ao acaso por webcams a utilizadores de computadores. E lá está. Olha-se para o infinito, sem expressão. Mergulhado na janela para o universo digital, o cérebro consciente esquece-se que tem um corpo. A consciência habitua-se muito depressa ao fluxo digital. Se calhar é um reflexo daquela velha aspiração de transcender o corpo e a fisicalidade, de se tornar ser de pensamento puro. A alma das mitologias religiosas, a transcendência digitalizada dos pós-humanistas.

O questionário, para um trabalho de um aluno da universidade de Tel-Aviv, está aqui.

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