sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Warrior

Durante a obrigatória viagem estival pela estrada fora, boa para desempoeirar os pistões do motor do carro e as sinapses cerebrais, deixei passar algumas noites de silêncio no meio das serras a ler uma versão digitalizada das vinte e seis edições da revista de banda desenhada britânica Warrior. Editada por Dez Skinn entre 1982 e 1985, a revista tornou-se um marco de culto na história dos comics britânicos rivalizando em estatuto com a venerável 2000 AD. Constantemente citada pelo seu carácter inovador e de qualidade, despertou-me a curiosidade para descobrir o porquê desta aura de culto.

Revista mensal, a Warrior seguia o modelo de publicação do comic inglês de revistas com diversos personagens com histórias serializadas ao longo de várias edições. Com esta periodicidade não teria certamente o mesmo ritmo e pressão que caracteriza a congénere 2000 AD (congénere de género, não de editoras), considerada uma escola do estilo narrativo sintético na banda desenhada. O ambicioso editor planeava com a revista criar um universo de personagens coerente embora dando liberdade aos criadores para perseguirem as suas visões. Entre os autores e desenhadores que contribuíram para a revista temos nomes como Alan Moore, Steve Parkhouse, Grant Morrison, John Bolton, Brian Bolland ou David Lloyd, essencialmente uma lista dos melhores criadores britânicos do género. Boa parte destes foram elementos da chamada british invasion que gerou alguns dos melhores comics americanos, convidados a trabalhar para a DC porque o editor Len Wein era fã do trabalho na Warrior.

Resta saber se a revista passa no teste do tempo. Os comics são uma vertente muito comercial da banda desenhada, vivendo muito dos gostos populares dos seus tempos contemporâneos, e não são muitos os casos em que resistam à evolução dos gostos. Por muito que se admire as idiosincrasias da golden age, uma leitura hoje desses comics revela uma enorme puerilidade que já faz pouco sentido. Excepção feita aos títulos saídos da EC Comics, mas isso são outras histórias. Lendo a maior parte das aventuras das personagens da gama Warrior, nota-se que ficaram datadas, meras referências históricas que hoje se lêem como curiosidade. A revista misturava ficção científica com terror e aventura medievalista, e a sua personagem icónica era Axel Pressbutton, um cyborg psicótico patudo com aversão a vegetais que vivia aventuras como assassino espacial ao lado de uma sensual companheira a combater os sequazes de Zirk, um personagem que talvez possa ser melhor descrito como um porco oval lascivo e sem face. Brian Bolland conseguiu criar algumas histórias sugestivas para as hormonas adolescentes com este surreal personagem. O tom das séries de ficção científica segue de modo datado nas vertentes de aventuras em panoramas space opera ou futuros apocalípticos. Lê-se e pensa-se logo "tão anos 80".

As aventuras de carácter medieval primam pelo desinteresse. Talvez à época não o fossem, mas ler hoje coisas como The Legend of Prester John não agarra a mente. No domínio do horror, destaca-se o curioso Father Shandor, monge místico que combate pérfidos demónios que acabam por se revelar espelhos da alma humana numa luta sem quartel com a implacável e sensual Jaramsheela, sendo os seus arqui-inimigos os espelhos da alma do personagem. A narrativa é ambígua e termina com a aniquilação do herói, mas o que me levou a reter o personagem foi o impressionante traço de John Bolton, que dá vida ao submundo de terror com uma intricada estética barroca.

Alan Moore foi o responsável pelas séries mais marcantes e influentes da Warrior. A que passa mais despercebida é The Bojeffries Saga, que introduz uma família cosmicamente disfuncional que inclui um vampiro de linguagem incompreensível, um lobisomem com gostinho pelos cachorros da vizinhança e um avô-criatura tentacular lovecraftiana que sofre de demência. Outro título distinguiu-se pela linguagem metaficcional aplicada ao género de comic de super-heróis, com a recriação do personagem Marvelman às mãos de Moore. Marvelman era um clone britânico de super-heróis como Captain Marvel e vivia das aventuras infantis de uma família composta por um adulto, um adolescente e um pré-adolescente que ganhavam poderes ao pronunciar a palavra kimota. Há por aqui tonalidades sexualizantes que merecem análise mais aprofundada. Alan Moore desconstrói a infantilidade dos personagens com um arco de histórias que envolve segredos governamentais, super-homens criados em laboratório e elaboradas ilusões mentais criadas para controlar as criaturas. Marvelman sobreviveu à Warrior e após alguns litígios foi alterado para Miracleman num conjunto de comics onde Alan Moore e Neil Gaiman colocam os personagens a devastar e escravizar a humanidade e que, novamente por litígios, estão inacessíveis a novas edições impressas.

Se estas séries são à sua maneira marcantes a mais influente delas, também criada por Alan Moore, foi V for Vendetta. A influente e icónica história de vingança e libertação num futuro distópico totalitário nasceu nas páginas da Warrior, embora a cura vida da revista tenha obrigado à sua continuação noutras editoras.

Reunindo um conjunto de criadores influentes e com séries icónicas, apesar das marcas do tempo Warrior é um marco histórico de qualidade dos comics.

2 comentários:

João Campos disse...

V for Vendetta é de facto formidável, verdadeira literatura aos quadradinhos, passe a expressão.

artur coelho disse...

e serializada no constrangimento de uma revista mensal, a competir com outros títulos, é brilhante. cada edição funciona independentemente mas mantém a continuidade. mas marvelman/miracleman também é uma pérola, pós-modernismo desconstrutivsta aplicado à gramática banal dos comics. e muito bem escrito.