sábado, 21 de julho de 2012

Fraternidade

Diz-me, mãe, qual era a música que o pai mais gostava? Ai, filho, não sei, são tantas... mas uma que ele gostasse, que o ouvisses cantarolar. Olha, isto se calhar não é o momento, mas lembro-me de uma que ele cantou quando se casou. Quando nos casámos ele desceu as escadas da igreja a cantar...

E assim sob a fria brancura da capela mortuária ouviu-se a voz de Zeca Afonso a cantar Grândola Vila Morena, esse hino à liberdade que tu cantaste num dos dias mais felizes da tua vida. Terra da fraternidade, solucei enquanto as lágrimas corriam pela face.

Lamento, pai, que tenhas partido nestes dias. Tu que sempre lutaste por ter uma vida digna e honrada deixaste este mundo num tempo em que a promessa de em cada rosto igualdade parece cada vez mais distante. Um tempo em como tu aqui há dias me disseste eles venceram.

Prometo-te que continuarei como me ensinaste, a tentar deixar este mundo um pouco melhor, a procurar ir sempre mais além, para que te orgulhes de mim. E... adeus, pai. Dorme bem. Descansa o descanso de uma vida. Dorme. Em paz, até um dia.

Edit, 22/07/2012: Filho, será que podias pôr aquela música enquanto... Claro, mãe, claro. Se calhar as pessoas não vão perceber, vais ter que pedir desculpas, filho, mas acho que o pai gostaria... ele gostava desta música, mas nunca me explicou porquê...

Sob o céu azul por entre as verdes colinas no silêncio fúnebre, enquanto as pazadas de terra iam cobrindo a urna soou novamente a voz de Zeca e o Grândola. Um dos coveiros olhou de soslaio, surpreendido. Ao longe, aquelas amigas do coração que vieram dar o mais sentido dos abraços confessaram um arrepio. O diácono aproxima-se e confessa com um sorriso "sabe, isto significa a liberdade, de tudo, até a libertação do sofrimento". Ao soar À sombra duma azinheira/Que já não sabia a idade caiu o silêncio, entrecortado pelo ruído da terra que se ia acumulando na campa. Escavar, atirar terra. Um longo silêncio. Enquanto eu cantarolava em silêncio em cada esquina, um amigo/em cada rosto, igualdade. Como tu o fizeste de viva voz à trinta e oito anos atrás.

Depois destes dias, esta canção tornou-se ainda mais especial para mim. Sempre que ouvir estes acordes recordar-me-ei do meu pai. É a vida, disse e ouvi tantas vezes nestes últimos dias, com aquele encolher fatalista de ombros.

2 comentários:

Jorge Candeias disse...

Ih, Artur.

Como sabes, passei pelo mesmo há pouco tempo. Ou pelo menos parece pouco tempo. Um grande abraço, pá.

Olha, o meu ainda anda comigo todos os dias. Eles não se vão mesmo embora. Só deixam de se ver.

artur coelho disse...

eu sei, recordo-me. e só agora compreendo plenamente o que sentiste. é... devastador. e também alívio, porque terminou o sofrimento da doença prolongada. e... vontade de se saber se se foi um filho que deu orgulho. e... tanto mais...

retribuo o abraço. e sim, estão sempre ao nosso lado. dentro de nós.