segunda-feira, 19 de março de 2012

From Hell : Being a Melodrama In Sixteen Parts


Alan Moore, Eddie Campbell (2010). From Hell : Being a Melodrama In Sixteen Parts. Londres: Knockabout.

Alan Moore pega num dos mistérios mais perenes da história recente e dá-lhe um toque místico que coloca os assassínios de Whitechapel como uma metáfora do nascimento do século XX. A base narrativa de From Hell é o mistério de Jack o Estripador, protótipo de serial killer e criminoso nunca descoberto. O falhanço na descoberta da identidade do homem que estripou cirurgicamente prostitutas num bairro londrino levou ao desenvolvimento de inúmeras teorias. Moore pega em algumas: os assassínios como forma de encobrir desvios comportamentais de altos membros da família real britânica e a identidade do cirurgião da rainha Vitória como o perpretador dos hediondos crimes. Esta é uma das vertentes do livro, feita de pedidos secretos, encobrimentos por parte das autoridades e corrupção de membros da polícia, onde Moore brilhantemente coloca a influência da irmandade maçónica. Se esta aproximação dá uma boa história, é no lado místico que o livro abre os horizontes para algo mais largo do que a sordidez criminal.

Misturando mitologia com a história oculta de Londres, num piscar de olhos à obra de Iain Sinclair, Moore retrata os assassínios como um elaborado ritual de transcendência de espaço e de tempo. Na convergência de sangue e mitos, o cirurgião metamorfoseia-se no parteiro de um novo século, entrevisto em vislumbres que desfazem as barreiras cronológicas. Esta transcendência é retratada no final de forma brilhante, com a simultaneidade do tempo infinito e infinitesimal sentida no momento da morte do estripador, abandonado num asilo de loucos.

O traço expressionista e rascunhado de Eddie Campbell dá a From Hell um carácter áspero, que equilibra os voos ocultistas de Moore e dá mais crueza aos retratos nus da Londres vitoriana.

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