segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Do Androids Dream Of Electric Sheep?


P. K. Dick, Tony Parker (2011). Do Androids Dream Of Electric Sheep?. Los Angeles: Boom Studios.

Esta obra seminal de P.K. Dick chegou ao estatuto de obra de culto graças ao filme Blade Runner. Mas comparar o filme e a obra no qual se baseia é uma tarefa desconcertante. Se os temas fundamentais estão lá - o significado de se sentir humano, o confronto com a mortalidade, a deriva por uma sociedade anónima, o sentimento de que a realidade concreta e palpável pode ser relativa, pouco mais sobrou do livro no filme que o nome dos principais protagonistas e o esqueleto da linha narrativa. Mais do que uma adaptação fiel de Do Androids Dream Of Electric Sheep?, o filme é essencialmente um policial noir passado num futuro distópico. Mas brilhante, cortesia das visões de Ridley Scott e Syd Mead.

Ler esta capaz adaptação para banda desenhada, que se assume como uma tradução fiel da obra, é mergulhar numa visualização do mundo pós-apocalíptico do livro. Não um futuro hiper-urbano distópico, mas um mundo semi-deserto que se vai desfazendo em pó. Deckard não é um Sam Spade disposto a descer ao submundo multilingue da metrópole high tech, mas um homem casado com uma mulher dependente de um aparelho de controle de emoções e o sonho de um dia ter um animal real. Os androides não são os übermensch capazes de enfrentar e aniquilar os seus criadores, antes são criaturas cuja implacabilidade se traduz no desejo de uma vida banal. Sendo uma adaptação fiel, este comic recupera a tecno-religião mercerista, a dualidade de departamentos de polícia e a andróide Rachel como uma femme fatale que procura proteger os seus irmãos mas que se resigna perante a morte iminente.

Desenrolando-se ao longo de vinte e quatro edições, o desenhador Tony Parker ilustra com um traço sóbrio e sóbrio e algum acenar à iconografia do filme as palavras de P.K. Dick. Este comic é o que pretende ser: uma adaptação, que não tenta competir com o poder das palavras nem ir mais além do texto.

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