sábado, 1 de agosto de 2009

After The Reich



Giles McDonogh (2007). After The Reich. Nova Yorque: Basic Books

After The Reich
Review: After the Reich by Giles MacDonogh
Telegraph | How three million Germans died after VE Day


É a outra história da II Guerra Mundial, uma história que encerra o capítulo final da guerra. A Alemanha nazi vitoriosa e as atrocidades cometidas nos territórios ocupados estão bem documentadas e estudadas. Auschwitz, represálias, torturas aos resistentes e a sede de sangue na frente oriental são factos bem conhecidos, monumentos ao pior da alma humana. Mas a sorte das armas virou, a maré nazi foi arrastada pelos esforços combinados dos russos soviéticos e dos aliados ocidentais. O final de tudo, um grande final wagneriano, um gotterdammerüng à escala de uma nação, arrasou e desmembrou um país. E há sua população, o que aconteceu?

Este livro analisa profundamente o que normalmente é nota de rodapé noutras obras: o destino da Alemanha, e dos alemães, nos momentos imediatos a seguir à derrota até à constituição da república federal. A primeira parte da obra arrepia. Vencida, a população alemã depressa se tornou vítima de represálias, abusos e violência generalizada. Foi expulsa dos territórios orientais para dar espaço às ambições de Estaline, riscar a Prússia do mapa (no que é hoje o enclave russo de Kaliningrado) e manter os territórios polacos que conquistara em 1939, subtraíndo-os à Polónia em troca de parte substancial da Alemanha, que passou a ser território polaco. As nações reconstituídas depressa iniciaram programas de limpeza étnica enquanto condenavam a loucura do holocausto. Uma vida alemã valia pouco em 1945.

A violência das tropas soviéticas merece um destaque especial pela orgia de pilhagens e violações que se seguiram aos primeiros momentos de ocupação. As pilhagens tornaram-se uma política oficial, com o roubo literal de tudo o que tivesse valor - das máquinas industriais e obras de arte aos objectos mais comuns do dia a dia. A libertação soviética foi o prenúncio de um jugo pesado. Por outro lado, apesar da mitologia que coloca os restantes aliados como ocupantes benignos, o autor demonstra que entre os americanos, ingleses e franceses também houve pilhagens e atrocidades, embora em menor escala e geralmente punidas pelas chefias.

O fim da guerra não trouxe consigo a paz. Perderam-se milhões de vidas em violentos ajustes de contas nos meses que se seguiram ao final das hostilidades. Vinganças nos territórios ocupados, o destino dos cossacos e russos brancos que se aliaram aos alemães, a expulsão das populações alemãs dos territórios russos, polacos e checoeslovacos, o destino dos prisioneiros de guerra, a fome e a destruição generalizada foram os resultados dos primeiros meses de paz.

A paisagem espectral das cidades em ruínas servia de abrigo à miséria e à fome que assolaram alemães e austríacos, condições impensáveis de vida suportadas pelas populações urbanas nos meses que se seguiram ao final da guerra.

O livro também analisa o processo de denazificação da Alemanha, o julgamento de criminosos de guerra em Nuremberga e a conjuntura geopolítica que se criou em Yalta e evoluiu para a ocupação quadripartida da Alemanha, génese das repúblicas Federal e Democrata e também génese da ideia de União Europeia. Vitoriosas ou derrotadas, as potências europeias perceberam que necessitavam de recursos comuns para se reerguerem.

O risco que uma obra deste teor tem de se expor a acusações de revisionismo é mitigado pelo desprezo dado pelo autor ao nazismo. Não há qualquer glorificação das principais personalidades, apresentadas como patéticas nos julgamentos de Nuremberga, nem minimizar dos crimes cometidos pelas tropas alemãs. O tratamento dado aos judeus e outras minorias nos campos de concentração no final da guerra é descrito pormenorizadamente, sem negar ou minimizar o número de mortos.

O maior valor deste livro é trazer à atenção dos leitores as histórias menos contadas, que retiram à II Guerra aquele brilho de triunfo do bem sobre o mal absoluto com que é retratada. Guerra é guerra, suja, violenta, e nenhum dos lados está isento de crimes ou representa o bem absoluto.