Esta ia como resposta aos comentários do meu último resmungo sobre quadros interactivos, mas como as questões são pertinentes e os comentários alguns (mais do que o habitual neste recanto de bits empoeirados) opto por mais um post. Até porque, pelos vistos, ando a ficar conotado com ant-quadros interactivos, quando é bem ao contrário. Recordo-me bem da primeira vez que tomei contacto com um QI. A pergunta que logo me veio à cabeça - e que coloquei a quem fazia a demonstração, era se o quadro permitia controlar o computador. Pareceu-me um sonho tornado realidade - um interface alargado que permitia uma fisicalidade inaudita na utilização do computador. Utilizando um exemplo, utilizar um QI pode ser comparado à diferença entre desenhar num bloco de notas ou numa tela de tamanho razoável: amplia enormemente o que se pode fazer.
Começo pelo primeiro comentário, de JCerca: quanto às possibilidades pedagógicas dos QIs, estas resumem-se num conceito simples: permite uma interacção física com objectos digitais. Por interacção física entenda-se uma experiência mais rica do que a fornecida pelo rato e teclado, meios tradicionais de interacção. Manipular um quadro interactivo, quer com o dedo quer com caneta específica, aproxima-se mais da nossa experiência real e é um passo intermédio para interfaces mais avançados - os de ecrãs multitoque, já aí ao virar da esquina, e interfaces 3D, ainda muito incipientes. O potencial pedagógico desta nova ferramenta é enorme. Tudo que podemos fazer encerrados no espaço fechado do ecrã do computador abre-se à sala, socializando a interacção. Limitar esta utilização a uma ou duas ferramentas (que funcionam muito bem para um estilo de ensino mais expositivo, com interacção drill and practice para facilitar a aquisição e memorização de conhecimentos) é fechar o horizonte de possibilidades.
Note-se que escrevi utilização das ferramentas ditas pedagógicas que vêm embrulhadas nos quadros. Não estou a colocar em causa o QI como ferramenta pedagógica, antes um sistema de formação que se centra na utilização de uma aplicação específica e proprietária, não explorando outras vertentes de utilização dos QI. E uma das razões porque estou a bater nesta tecla é precisamente o risco de mais "inovação" pedagógica baseada em powerpoint, agora com outro nome e criado noutra aplicação.
Um leitor anónimo observa que dezasseis horas de formação não chegam para um conhecimento aprofundado do software específico. Bem, se dezasseis horas intensivas não são suficientes, isso poder-se-ia dever ao facto do software ser complexo ao nível de um Maya ou Corel Draw (não é o caso) ou a falha do formador (o que também não é o caso, esta foi a formação mais profunda e rigorosa sobre uma aplicação a que assisti). Certamente que não fiquei um guru no ActivInspire, mas estou bem preparado como utilizador que terá que o mostrar aos professores da escola onde lecciono. Só que optarei por mostrar o software como uma alternativa entre outras. Penso que os professores devem ter liberdade para trabalhar com as aplicações que melhor se adequam aos seus processos de pensamento e formas de leccionar.
Que alternativas? As próprias aplicações habituais. O flash, excelente forma de criar recursos realmente interactivos, que tem como grandes problemas ser aplicação proprietária e uma longa curva de aprendizagem. Estes podem ser torneados recorrendo ao PowerPoint e ao iSpring, que converte os ubíquos ficheiros em objectos flash (lidos em qualquer computador que tenha browser). O eXe e o CourseLab, potentes aplicações que conjugam html e flash para construir recursos e que têm conformidade com as normas SCORM e IMS (coisa que o ActiveInspire não me parece ter, o que reduz enormemente o espectro de disseminação de conteúdos). Ferramentas de video e audio, que colocam nas mãos dos alunos meios para construir trabalhos vastamente mais interessantes do que as aplicações office normalmente utilizadas - e aí sim, obtemos verdadeira interactividade de aprendizagens numa perspectiva construtivista. Os mundos virtuais. As aplicações web, um campo de possibilidades cada vez mais vasto. E certamente que muitas outras possibilidades haverá. Incluindo os próprios softwares que vêm acoplados ao hardware dos QIs. Também podem ser úteis. Não nos centremos apenas numa aplicação e num modo de leccionar. Os programas de computador são um pouco como as roupas: cada qual usa aqueles em que se sente melhor.
Não posso deixar de partilhar este blog de referência sobre o uso de tecnologia na sala de aula e um vídeo que mostra as potencialidades de tecnologias que vão mais além do quadro interactivo (e desenvolvidas numa aplicação proprietária desenvolvida por uma das empresas especializadas nestes quadros.
Finalmente, a mais pertinente das questões, colocada por Margarida Graça: tempo útil para preparar os materiais da excelência. O sistema de ensino em que trabalhamos está pensado para ritmos da era industrial. A sala de aula é concebida como um espaço fechado de tempos rígidos. As novas tecnologias, em particular as baseadas na web, estilhaçam essa noção de tempo. Mas as metodologias e os horários não se adaptaram. Irão, necessariamente e gradualmente fazê-lo. O que levanta a questão: como se contabiliza o tempo utilizado em preparação de recursos digitais? E, questão mais complexa, como se contabiliza o tempo passado a gerir interacções digitais? As tecnologias permitem poupar tempo, mas parte desse tempo é transferido para tempos e espaços que estão fora de horários rígidos de trabalho. Esta também não é uma questão de resposta simples.