Os quadros interactivos são a nova moda pedagógica. Começaram a alastrar há alguns anos atrás e agora, virtude das virtudes do PTE, chegaram em força a todas as escolas. Confesso que tenho alguma dúvidas em relação à utilidade real deste hardware, embora goste (e muito) de trabalhar com eles.
Antes de mais, um quadro interactivo é apenas uma superfície - normalmente construída para o efeito mas que nalguns casos pode ser qualquer superfície, na qual é projectada a imagem saída do computador. O interface de controlo varia com as tecnologias, indo do dedo a transdutores com variados graus de sofisticação. Permitem uma interacção física com o computador, em ecrã ampliado e visível a todos. Com os recentes avanços em tecnologias hapticas e ecrãs multitoque, já se percebe que os quadros interactivos de que agora dispomos são verdadeiros dinossauros - uma superfície multitoque, como as mesas com que a microsoft nos brindou, será o real futuro da aplicação desta tecnologia à educação. Mas como os professores não são normalmente muito versados nestes avanços, ficam com a ideia que estão a trabalhar com tecnologia de ponta.
Note-se que a líder deste mercado, a Smart Technologies, já investiga estas áreas. The writing is on the wall, como se costuma dizer.
O interessante deste tipo de equipamentos é o permitirem interagir com um computador. E permitem fazê-lo com todos os programas. Imaginem que utilizando um programa de desenho pudessem desenhar no quadro, ou pintar digitalmente... aqui, as possibilidades são fascinantes. Infelizmente, os quadros interactivos vêem com softwares de apresentação que limitam enormente o que se pode fazer com eles. A limitação não é tecnológica, é cognitiva. Cada quadro traz consigo um software proprietátio - o Activboard da Promethean (que estou agora a "aprender"), o Notebook da Smart e outros. Os professores são formados para utilizar essas aplicações como modo de dar aulas interactivas, mas na realidade a interacção é reduzida. Na prática, permitem diferentes formas de expor informação. E por aí se ficam.
Pior, para o ponto de vista de um professor: depois de elaborar recursos e materiais pedagógicos para as aplicações de uma marca, se tiver o azar de na escola onde trabalhar o quadro for de marca diferente descobre que todo o seu trabalho foi em vão, uma vez que os ficheiros são normalmente incompatíveis com as aplicações proprietárias. E se quiser copiar o programa onde desenvolveu o seu trabalho (porque, recordem-se, os quadros interactivos controlam todo o computador e não apenas uma ou duas aplicações) lá estão os avisos mostrando que é ilegal fazer isso. Imagine que para imprimir um texto numa impressora HP só podia utilizar um programa da HP para o escrever...e que depois não o conseguia imprimir em qualquer outra impressora de outras marcas, porque estas requeriam software próprio para elaborar o texto para impressão.
E não é preocupante pensar que com o emergir de tecnologias realmente interactivas, baseadas na web, se aponte o velho e tradicional ir ao quadro como exemplo de boa aplicação da tecnologia na sala de aula? Grande parte das aplicações que tenho visto resolviam-se com um simples powerpoint (o que demonstra o seu grau de interactividade). Outras, mais interactivas, baseiam-se no princípio do drill and practice, rotineiras e facilmente esgotadas. Mas essa é uma crítica que se pode aplicar a 99,9% do software educativo. É, realmente, muito limitado e pouco varia de uma versão moderna, cheia de efeitos e cores bonitas, do velho recitar da tabuada.
Uma educação interactiva pode ser criada através da partilha de documentos online (já experimentaram colocar um grupo de alunos a editar um texto no google docs?), da utilização de ferramentas colaborativas em tempo real, de fóruns, msns, skypes e video para interacção. Implica uma sala de aula que não se limita à sua geografia tradicional, com todos os problemas que isso traz. Num sistema pensado em função de horários fixos, as contradições são muitas: como gerir os tempos, como planear, como preparar, e até que ponto é legítimo esperar-se que um professor dê a sua aula a qualquer hora do dia ou da noite... mas é para aí que a interactividade aponta. Se criarem um fórum de discussão para trabalhar com alunos percebem estas contradições.
Mas não pensemos nisso. Atafulhados de computadores caídos do céu, com redes em construção, projectores e quadros interactivos, vamos mas é aprender a colocar botões e linhas em aplicações proprietárias que nos permitem dar aos alunos mais do mesmo.