segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Bem-vindo ao Deserto do Real



Slavoj Zizek (2006), Bem-vindo ao Deserto do Real, Lisboa: Relógio D'Àgua

Bem-vindo ao Deserto do Real

Após o 11 de setembro, quais são as hipóteses que nos restam para compreender a enormidade da catástrofe? Podemos cegamente insistir no choque de civilizações, na guerra entre o ocidente e o islão, na luta sem quartel entre os valores ocidentais e o obscurantismo islâmco. Mas fazê-lo sem questionar os valores ocidentais, sem questionar o próprio islão, sem questionar se realmente haverá uma guerra de civilizações?

Por outro lado, podemos sempre relativizar, apregoar falsas irmandades, ecumenismos vácuos, fingir que estendemos a mão quando realmente não o queremos fazer.

Ou então olhamos para o registo histórico das relações entre o oriente e o ocidente, para os imperialismos dominantes, para a exploração cega de recursos sem olhar às populações locais, para o alimentar de cliques de caciques impiedosos, para as armadilhas da globalização económica, para as interferências militares em nome da liberdade mas que na realidade são em nome do controlo de recursos naturais.

Enquanto discutimos, apertamos a nossa sociedade, esquecemos os nossos valores mais fundamentais. Aceitamos atropelos legais, torturas e vigilância panóptica de alta tecnologia em nome do medo, do medo daquela entidade suja, barbuda e ameaçadora que é o terrorista islâmico.

Em última análise, precisaremos até de esquecer o multiculturalismo e a tolerância intercompreensiva, barricarmo-nos nas nossas festungs de alta tecnologia e viver a simulação do real.

Tempo de abrir os olhos. Tempo de olhar e contemplar o deserto do real: a vasta paisagem de catástrofe que desafia explicações e que não se deixa domar pelo simplismo, recusando submeter-se às vontades fragmentadas.