quarta-feira, 30 de março de 2005

Longe da Humanidade




Há momentos assim (ou, como dizia o Arménio, cauteleiro das ruas de Lisboa, "há horas de sorte"). Esta manhã, ao chegar à praia de mil regos, e depois de deparar com a desolação que foi ver o princípio da praia quase vazio de areias (quase não, mesmo vazio), encontrei assim a parte norte da praia, a que vai dar ao forte da Ericeira. Um curto areal (aqui as praias são pequenas...) que se espraiava até ao quebra-mar natural perto do forte da Ericeira. Mas um areal sem mácula, liso, polido como se de uma lente se tratasse. Sem quaisquer marcas de pegadas humanas ou animais, sem aquelas pequenas dunas moldadas pelo vento que se formam quando a areia está seca.

Liso. Quieto. Silencioso. Deserto. Belo.

Sempre tive um gosto muito especial pela praia de mil regos. No fim de contas, a minha iniciação à Ericeira foi lá, nos verões da minha inocente infância, quando os meus pais acampavam no parque de campismo da ericeira (e a praia de mil regos era a mais acessível). Tempos inocentes, algo nostálgicos. As minhas melhores recordações daquela praia são de mim a saltitar por entre as rochas na maré baixa, fascinado pelos mundos microscópicos das bacias de àgua nas rochas, com a minha fiel companheira da minha infância, a minhoca a saltitar perto de mim. Perto, mas não muito, que ela era uma cadela que não gostava nada de se aproximar do mar.

Ainda hoje não perdi esse vício, de passear nas praias quando está a maré baixa. À nostalgia junta-se o fascínio pela descoberta de um mundo oculto, que apenas a maré coloca a descoberto.

E, por vezes, tenho mesmo sorte, e contemplo momentos da mais sublime solidão. Como este que está aqui registado.

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