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terça-feira, 17 de março de 2026

A Vénus de Kazabaïka


Leopold Sacher-Masoch (1966). A Vénus de Kazabaïka. Lisboa: Afrodite.

Um belíssimo achado de alfarrabista, pensei quando deparei com a edição da lendária Afrodite. Livro em bom estado, preço convidativo, e se se associa ao autor ao masoquismo, não fiquei à espera que este fosse o livro que lhe deu a fama e o nome à parafilia. Mas sim, quando cheguei a casa e o folheei mais atentamente percebi que tinha nas mãos a tradução portuguesa do clássico Venus in Furs. A tradução do título não foi direta, talvez para não despertar à partida a ira dos censores - a edição é de 1966, em pleno estado novo, e percebe-se logo no início da leitura que as peles com que a sedutora Wanda cobre o corpo, despertando frémitos de desejo no indefeso Severin, têm um nome tradicional que foi adaptado para título.

Numa confissão que não advoga muito a favor da minha masculinidade, devo dizer que não sou particularmente fã de literatura marota. Obriguei-me a ler Sade, como parte da minha educação literária, e ao ler Henry Miller depressa percebi que me fascinavam mais os voos modernistas da sua narrativa do que as exaustivas descrições do que fazia com as suas conquistas. Quase pensei em não ler este livro, juntá-lo à minha coleção da Afrodite intocado, mas,  e porque não? Já agora, vamos descobrir porque é que o livro gerou masoquismo como adjetivo.

A surpresa foi monumental, e o livro não é de todo o que se poderia esperar. Mais do que literatura erótica, é literatura no seu melhor. A leitura é um deleite linguístico sensualista, naquela tradição de quasi-poesia e introspeção de sentimentos ao rubro em prosa das letras do século XIX. Ajuda aqui a tradução ter sido da poetisa Ana Hatherly, capaz de tratar o texto original com uma leveza linguística que torna a tradução poética. 

Quanto à história, bem, novamente, não é o que esperamos. Não é o elencar de sessões de chibatadas no lombo do sorridente Severin dadas pelo pulso firme de uma Wanda cujas vestes de pele mal cobrem as formas voluptuosas. O livro vai muito mais a fundo num retrato de um homem obcecado, que não hesita em degradar-se para manter os favores de uma mulher volúvel e implacável, que brinca com este, sujeitando-o a progressivas sevícias e destrates enquanto o atrai com fugazes demonstrações de carinho. A coisa termina mal, como não poderia deixar de ser, não há final feliz em que o casal amoroso se fustige num delírio de felicidade eterna. Bem pelo contrário.


História de obsessões com os nervos à flor da pele, decadente e de linguagem luxuriante, é de facto uma pérola literária. A edição da Afrodite que tive a sorte de desencantar vem acompanhada de um conjunto de fotos alusivas ao livro. Suspeito que escandalosas no pequenino e moralista Portugal dos anos 60, mas que hoje, francamente, já vi mais explícito em obras para públicos infanto-juvenis.