sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Expanse: Drive; The Butcher Of Anderson Station.


James S. A. Corey (2012). Drive.

É aqui o ponto de início da série Expanse. O elemento tecnológico que possibilita à humanidade escapar ao binómio Terra-Marte e espalhar-se pelo sistema solar é um motor eficiente que permite atingir velocidades sublumínicas. A epstein drive original ainda é visível aos telescópios,  para lá das fronteiras do sistema solar em aceleração de fracção da velocidade da luz, transportando o cadáver do seu inventor pelas vastidões inter-estelares. Drive detalha a invenção e monta o xadrez da história passada de tensões entre terrestres e marcianos que, combinada com a presença dos habitantes da cintura de asteróides,  forma a constante fonte de intrigas e problemas no universo ficcional da série.



James S. A. Corey (2011). The Buthcer of Anderson Station. Nova Iorque: Orbit.

Num conto que poderia ter saído do livro Leviathan Wakes, e provavelmente saiu após edição, a história das origens do coronel Fred Johnson, o herói terrestre que comanda a aliança independentista do sistema solar exterior. A história detalha os acontecimentos que lhe valeram a alcunha de carniceiro, bem como o detalhe conspiratório que leva o militar a mudar de campo. Aprofunda um pormenor importante da série Expanse, numa narrativa de FC militarista pura.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Saga #01

 

Brian Vaughan, Fiona Staples (2014). Saga Vol. 1. Maspalomas: G. Floy Studio.

Termino sempre desconcertado a leitura de Saga. Por um lado, intriga-me o brilhantismo de uma premissa que colide com extremo prejuízo as tropes clássicas da FC e Fantasia. A variante da história de amor entre filhos de casas desavindas, Romeu e Julieta para os shakesearianos, Píramo e Thysbe para os classicistas, aqui representados por um casal de espécies vizinhas mas eternamente em guerra que gera uma filha, alvo do interesse das mais poderosas forças galácticas.

A dualidade entre duas espécies em guerra eterna, uma claramente modelada nos ícones da FC clássica, em  uniformes de Buck Rogers e Flash Gordon e asas truncadas, lideradas por cyborgs robóticos hedonistas cujas cabeças replicam os televisores dos anos 50, a outra uma caricatura de Pan com cornos e poderes mágicos. A guerra por proximidade entre dois vizinhos, habitantes do mesmo sistema planetário, que para não danificarem os seus lares combatem no que eufemisticamente chamam de planetas-cliente, terrenos de luta arrasados com as populações nativas exterminadas ou vendidas para escravatura nos bordéis galácticos. Estranhas estratégias de sobrevivência dos povos subjugados, como a espécie planetária que após o seu extermínio persiste como fantasmas que assombram os combatentes. Perigosos caçadores de recompensas capazes de virar a galáxia do avesso para cumprir os seus contratos. São estes os elementos em colisão nesta intrigante série.

Feitiços, raios laser, foguetões biológicos, estações espaciais, encantamentos, assombrações, fraldas sujas. A junção é muito bem feita, temperando ironia pós-modernista com comentários acérrimos à actualidade. Guerras por proxy? Prisões de combatentes? O dualismo entre terrorista e combatente pela liberdade? Percebe-se bem. Então, porquê o sentimento de desconcerto?

Na verdade, não consigo colocar o dedo no que precisamente é a ironia desta série. Não percebo se é Monty Python, absurdista mas a fazer pensar, ou Benny Hill, hilariante mas acéfala. Por vezes, a colisão Fantasia/FC é demasiado óbvia, as personagens e situações demasiado caricaturais. Noutras, a ironia é fina e intrigante. Uma dualidade que começa logo pelo nome da série, que suspeito ser o que seria se Joseph Campbell tivesse escrito sobre a estrutura do progresso do herói em tom de comédia.

O que Saga tem provado ser é uma saga de sucesso junto do público, com continuidade assegurada na Image Comics e traduções editadas globalmente.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Cibola Burn



James S. A. Corey (2014). Cibola Burn. Nova Iorque: Orbit.

O pormenor verdadeiramente interessante deste quarto livro da série Expanse está forma como foge aos pressupostos ide às estrelas e multiplicai-vos que caracteriza a space opera. Cibola Burn passa-se num planeta habitável, o primeiro dos múltiplos mundos que a tecnologia alienígena molecular e a sua propensão para abrir portões no tecido do espaço-tempo coloca nas mãos de uma humanidade sempre dividida e desavinda.

Neste capítulo da saga Holden e a tripulação da nave Rocinante são enviados a um novo planeta para mediar um conflito crescente entre colonos refugiados e os funcionários de uma empresa à qual foi concedida a licença de exploração do planeta. Situação de alta tensão, em que tudo corre mal, especialmente porque as cabeças quentes e sentidos de dever enviesados prevalecem mesmo quando todos estão ameaçados de morte. É um capítulo que se lê como homenagem da tradição western no espaço na ficção científica, desenrolando-se em peripécias que remetem directamente para o género e sublinham a mística da tradição de fronteira. Acabará, já o sabemos, tudo bem e muito bem resolvido, mas os caminhos para lá chegar são deveras tortuosos.

Como Corey já nos habituaram (não, isto não é um erro gramatical, ide descobrir quem é James Corey e entendem porque tem de ser referido no plural), a mistura de peripécias com um acumular de situações progressivamente trágicas escritas num estilo narrativo que termina todos os capítulos em suspense, funciona de forma impecável mesmo que a história de base não pareça tão interessante como a dos anteriores livros da série.

O verdadeiro ponto de interesse está na forma como Corey usam a biologia alienígena. Não seguem a binomia tradicional do hostil/benigno, mostrando antes uma biologia tão incompatível com a humana cuja interacção se traduz em consequências inesperadas. Seguem um caminho similar ao de Kim Stanley Robinson em Aurora, apesar de aqui não haver vírus alienigenas que infectam o corpo humano. Aqui as bactérias extra-terrestres preferem usar o substrato humano não como meio de infecção mas de alimentação, causando o que aparentemente são doenças mas na prática são infestações parasíticas. Junte-se a isso um planeta transformado, infestado de mecanismos dormentes há milhares de milhões de anos que vão acordando com a presença humana na superfície, e cresce a nova grande ideia da série Expanse: a inevitável colisão com civilizações avançadas que devastaram outras civilizações cujos artefactos estão agora a começar a ser colonizados por uma humanidade incipiente nas aventuras intergalácticas. Ao contrário de Aurora, Expanse resolve-se sempre no sentido classicista e prossegue no optimismo de exploração das vastas fronteiras, apesar de neste episódio ter caminhado brevemente em direcções mais pessimistas.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Visões



Silvestre (João César Monteiro, 1981)

Sílvia é uma jovem donzela, filha querida de um nobre agricultor que decide casá-la com um vizinho, rico proprietário mais adepto da boa comida e do folguedo com as aias do que do cortejar uma donzela que sente repulsa pelos seus modos. Chamado à corte, o nobre agricultor parte, ordenando às filhas que por nenhum motivo abram as portas de casa. Na noite profunda, um viandante pede abrigo e elas, esquecendo as ordens do pai, dão-lhe guarida e comida. O viandante devolve a cortesia com suculentas laranjas, que Sílvia não prova mas fazem as delícias da sua meia-irmã. Sílvia fora previdente. As laranjas estão enfeitiçadas, e quem as prova mergulha num sono profundo. Atemorizada, Sílvia nada diz enquanto o viandante viola a sua meia-irmã. Na madrugada profunda irá descobrir o segredo deste, quando o ouve a tocar uma flauta endemoinhada sob chuva torrencial e encontra, sobre a mesa da casa, uma mão decepada que brilha com uma luz sobrenatural. Sílvia consegue enganar o viandante, e corta-lhe a mão, afugentando o pesadelo.

Semanas depois, o seu casamento é interrompido por um misterioso cavaleiro que insiste em exigir-lhe a mão a seu pai. Este coloca-lhe uma tarefa impossível, matando um perigoso dragão que a donzela encerrara numa caverna. O cavaleiro cumpre a tarefa, e Sílvia acompanha-o, junto com a sua meia-irmã, para um castelo sombrio onde este lhe revela ser o viandante, que em busca de vingança a irá matar. Sílvia foge, graças a um corajoso subterfúgio, e ao regressar à sua quinta em busca de homens para libertar a irmã descobre que o seu pai fora raptado por bandoleiros que pululam nas montanhas. Corta o cabelo, disfarça a condição feminina, empunha a espada e decide juntar-se aos soldados que dão caça aos bandidos. Ferida numa batalha, é desmascarada e trazida para a corte pelo comandante dos soldados, que se toma de amores por ela. Ganha o respeito do rei pela sua coragem, mas a libertação do pai só acontece quando um nobre renegado se mostra capaz de o fazer, exigindo a sua mão em troca. Sílvia sacrifica-se, mas é salva pela sua meia-irmã, que desmascara  o nobre como o viandante vingativo disfarçado. A sua morte à espada do comandante dos soldados põe fim à maldição e abre o caminho à felicidade.

Incursão de João César Monteiro pelo fantástico, Silvestre é um filme que se destaca pelo respeito ao medievalismo que professa. A história desenrola-se de forma singela, fugindo ao lado épico que caracteriza este tipo de filmes (algo que suponho não estar quer ao alcance financeiro do realizador nem dentro dos seus interesses). É um filme fortemente ritualizado e teatral, lento no seu ritmo, com falas adequadas à época. Os seus cenários fogem do naturalismo e assume-se como cenários pintados ou fotografias ampliadas, criando interessantes efeitos visuais. A estética do filme presta uma profunda vénia à pintura medieval e proto-renascentista, com os quadros do filme a invocarem directamente a estética hierática da perspectiva primitiva. Vénia que é sublinhada pelo hieratismo de uma câmara que mantém sempre os mesmos pontos de vista, reforçando a sensação no espectador que se está a olhar para um quadro animado. Filme notável pela sua estética, e pela rara incursão dentro dos campos da fantasia.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Expanse #01: Dulcinea



O SyFy prometeu, e cumpriu. O primeiro episódio da série Expanse, baseado nos livros de James S.A. Corey, está online e pronto a ser descoberto. E muito bem, refira-se após a primeira visualização. O estilo que mistura Hard SF militarista com space opera está muito bem capturado neste primeiro episódio, que se atira ao início de Leviathan Wakes, primeiro livro da série. O ritmo narrativo replica o literário, o que não surpreende dado o carácter da série Expanse. Os personagens principais têm um ar mais grunge do que se esperaria, mas o episódio respeita a tecnologia plausível e consegue manter as explosões no vácuo com um mínimo de ruído. Um nível de plausibilidade que se reflecte em pormenores como o cabelo flutuante quando as personagens estão sem acelaração gravitacional. O trabalho de efeitos especiais está fabuloso. A estação Ceres consegue misturar o melhor das design fiction limpas de futuros utópicos com o ar usado e rude de Blade Runner, as naves são labirintos claustrofóbicos que primam pelo utilitarismo e não pela beleza. Se fizeram isto a Ceres... suspeito que Eros e Tycho deixarão queixos caídos (quem leu os livros percebe onde quero chegar). Um mergulho na página oficial da série promete.

Se se mantiver o nível de qualidade deste primeiro episódio, vamos ter FC da boa e bem feita no canal SyFy. Já não era sem tempo. Um repertório feito à base de maus filmes de série B com piores efeitos especiais, sharknados e séries lamechas sobre ocultistas não era especialmente convincente. Seria interessante que Expanse se tornasse o equivalente FC do sucesso e continuidade de Game of Thrones. A série literária e o mundo ficcional certamente que suportariam isso, e ao contrário do épico neo-medievalista, o último volume de Expanse está quase a ser editado.

Gostaria imenso de partilhar o vídeo do primeiro episódio. Apanhei-o na página da série Expanse no facebook que, à hora a que escrevo estas linhas, está offline. Espero que por sobrecarga de fãs intrigados e interessados e não pelas habituais restrições de direitos de autor que limitam a visualização de conteúdos de acordo com regiões. Se sim, bem, pelo menos durante algumas horas esteve visível na rede social, para deleite dos fãs da boa ficção científica. Digamos que... está absolutamente awesome!

Edit: Como nada consegue ficar verdadeiramente inacessível na internet, eis aqui uma ligação para o primeiro episódio no YouTube. Aproveitem enquanto dura.

Edit 2: Ao longo da série de livros os autores vão mencionando a música de fusão que se ouve no futuro século XXIII, fruto da profunda mescla de culturas no cadinho espacial que se tornou a humanidade. O trabalho sonoro, de fusão entre electronica e sonoridades étnicas, que se vai ouvindo neste primeiro episódio acerta em cheio.

Comics


Batman Europa #01: Por pouco não ia dando por isto. Porque, enfim, mais uma história de Batman e do Joker, a combater um vírus mortífero e blá blá blá. Lamento, estou numa fase de imunidade perante a banalidade repetitiva dos argumentos dos comics de super-heróis. O que destaca é o traço explosivo de Jim Lee, um ilustrador clássico dos anos 90, de regresso e em excelente forma. Visualmente, este comic é extraordinário. Quanto ao resto, já sabemos o que esperar.


Clean Room #02: Estava eu a pensar que a série seria uma história linear de vingança com contornos sobrenaturais quando o segundo número aponta para moralidades mais ambíguas. A líder cultista, que uma jornalista em luto pelo suicídio do noivo após este se juntar à seita quer desmascarar, revela-se uma justiceira que usa o aparente perdão redentivo para castigar prevaricadores usando os seus piores e mais inconfessáveis medos.


The Steam Man #02: Este segundo número clarificou algo que já desconfiava. Esta é a adaptação do conto The Steam Man of the Prairie and the Dark Rider Get Down: A DIME NOVEL de Joe R. Lansdale com o qual me cruzei, se não me engano, na antologia Steampunk editada pelos Vandermeer. Um conto divertido, que atira a juvenilia fantasista adolescente do século XIX das aventuras de Frank Reade contra uma versão muito negra de The Time Machine, com o viajante no tempo a tornar-se líder de um grupo de Morlocks que semeia a destruição no velho Oeste. Já sei como acaba a história, mas não conto...

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Visões



Tombs of the Blind Dead (Armando Ossorio, 1972)

Sinto-me incerto em perceber se ver este clássico do cinema fantástico de qualidade duvidosa foi uma experiência penosa ou divertida. Na verdade, este filme de Armando Ossorio tem alguns momentos verdadeiramente creepy, mas no geral é uma típica experiência de cinema exploitation. Promessas bombásticas, premissas assustadoras, e um tédio de desenvolvimento narrativo. A história é linear mas desconexa nas ramificações. No meio da confusão entre lendas, contrabandistas, uma jovem vítima que se chateia com a amiga lésbia e o seu marido e acaba como zombie vampírica, outros personagens que vão aparecendo em cena, o filme lega-nos algumas cenas memoráveis. Como uma sala de autópsia com cadáveres iluminados por uma luz pendular, ou uma zombie a ser queimada viva... ou morta... ou viva-morta num armazém de manequins de plástico. A premissa do filme assenta numa maldição imposta a templários que assombram um mosteiro em ruínas na raia portuguesa. Restam os monstros, templários sedentos de sangue, mortos-vivos aterrorizadores nos seus capuzes que ocultam rostos mumificados com barbicha e mãos esqueléticas com força suficiente para arrastar as pedras tumulares e empunhar espadas centenárias. Lentos e cegos, não seriam particularmente eficazes senão pela inépcia das suas vítimas que gritam e estrebucham enquanto se deixam sugar em momentos estranhamente orgásmicos. Esta inépcia é outra das características do filme, que desenrola os momentos de maior tensão com tanta lentidão que daria tempo às vítimas de serem assustadas, ir tomar um refresco e voltar a tempo de serem devoradas pelos monstros. Oscilando entre o maçador, o absurdo e o assustador, como tantos outros filmes deste género, destaca-se ainda por ter sido filmado em Portugal, numa co-produção luso-hispânica que trouxe os actores (terrivelmente canastrões, note-se) ao Estoril e Cascais. O melhor do filme são os inesquecíveis e arrepiantes templários amaldiçoados.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Mona Lisa in the Machine


Recebi ontem, por graciosidade do artista, esta impressão de uma interpretação da Mona Lisa de Da Vinci. À primeira vista parece um simples desenho a marcador colorido. Quem conhece o artista, e os seus projectos, sabe que é muito mais do que isso. Conheci Jacinto Costoso nos tempos em que mexia mais em VRML e me deparei com os seus estranhos e expressivos mundos virtuais, que fugiam ao realismo e entravam nas potencialidades da abstracção em 3D.

Ultimamente tenho acompanhado as suas aventuras na construção de raiz de uma impressora 3D delta, que mal conseguiu meter a imprimir utilizou logo para experiências inesperadas na área da impressão 3D. São diagonais aos caminhos habituais. Como esta: trocar a ponta quente do extrusor por canetas e colocar a delta a desenhar em 2D. Usar uma impressora 3D para imprimir em 2D. No seu essencial, uma impressora 3D é apenas um robot que descreve uma trajectória pré-programada em múltiplos planos e este projecto de Costoso reflecte isso.


Via página facebook do artista, um vislumbre do processo criativo desta Mona Lisa in the Machine. Podem descobrir mais sobre o intrigante trabalho deste artista francês em http://www.costoso.net/. Quanto ao simbolismo disto, suspeito que a escolha de Mona Lisa não seja inocente. Duchamp, o dadaísta, apropriou-se desta imagem icónica para a sua arte e foi, junto com László Moholi-Nagy, um dos pioneiros da utilização de meios mecânicos para produzir arte.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Abaddon's Gate

 
James S. A. Corey (2013). Abaddon's Gate. Nova Iorque: Orbit.

Confesso que não esperava que o grande mistério da série fosse resolvido tão cedo. Habitualmente são mantidos até à exaustão, como incentivo a que a curiosidade do leitor se mantenha viva, acompanhando as peripécias da série enquanto mantém no horizonte a sua possível resolução. Os autores optaram por um outro caminho, encerrando neste terceiro livro a questão do que, exactamente, é o organismo viral alienígena descoberto numa lua de Júpiter, bio-arma que ergueu estranhas estruturas em Vénus e se projectou aos limites do sistema solar, onde criou um gigantesco anel que parece violar a estrutura relativista do espaço-tempo.

Encerra esta linha narrativa abrindo outra, mais expansiva e prometedora. Afinal, há um limite no interesse em argumentos que, apesar de bem construídos, replicam sempre o mesmo tipo de conspiração e o deste terceiro livro da série volta a ir buscar os mesmos temas. Se bem que a intricada e nalguns momentos especialmente eficazes aparentemente impossível de desmontar envolve agora a filha do grande vilão do livro anterior, que leva a cabo uma complexa e bizantina conspiração para esmagar a imagem do comandante Holden e dos seus companheiros da nave Rocinante. Tudo isto com expedições das facções divididas da humanidade ao artefacto anelar nos confins do sistema, cujo mistério do seu interior é desbravado por um Holden em fuga desesperada. No seu interior, outros mistérios: uma base alienígena automatizada, aguardando o regresso de civilizações há muito extintas, uma inteligência artificial extra-terrestre que assume a personalidade do detective Miller, personagem-chave do primeiro livro da série, e as portas de outros sistemas solares abrem-se à humanidade graças à combinação entre o anel e a estação espacial alienígena.

Mas antes, há que travar os tremendos desafios a curto prazo das intrigas palacianas e rivalidades entre as várias facções humanas. Reside ai a aventura imparável do livro, cheia de volteios e contra-volteios que levam aos limites as capacidades dos personagens e eliminam alguns que julgávamos parte integrante da narrativa. Os autores são mestres na narrativa empolgante, fragmentada mas sempre interligada com muito suspense. Aliás, se há algo que tem caracterizado estes livros da série Expanse, é que são uma leitura imparável, daquela que nos agarra, queima pestanas, e nos mantém acordados pela noite dentro, incapazes de parar e sempre a querer avançar mais um capítulo para saciar a curiosidade. Tenho as olheiras e os dias pastelentos após noites demasiado curtas para o provar.

A série está em aberto, pronta a entrar num novo campo. Devo confessar que as séries literárias de FC me deixam sempre de pé atrás, como lado mais comercial do género. Mas estou rendido à mistura exímia de boa escrita pop, space opera e military SF da série Expanse. Venha o próximo. Vou só reforçar as doses de cafeína.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Comics


Airboy #04: Como é que se revitaliza com interesse uma personagem clássica de segunda linha, fugindo ao habitual grimdark ou à aventura banal? James Robinson mostrou como, utilizando um absurdismo decadente em completo contraste com o ar limpinho de pureza juvenil do material original.

Constantine: The Hellblazer #06:  Fãs do podcast Welcome to Nightvale reconhecem e sorriem com esta vinheta. Note-se que só Constantine se atreve a meter na ordem as ominosas figuras encapuzadas que assombram os parques e devoram os mais simpáticos cães de estimação.


Faster Than Light #03: Não é perfeito, tem incoerências, mas é a mais interessante série de hard SF em comics a ser agora publicada. Naves realistas mas hiper-lumínicas, artefactos alienígenas, planetas-arma dormentes à deriva pelo sistema solar. Um sopro refrescante de FC clássica.

domingo, 15 de novembro de 2015

Horror Cósmico


"You're telling me," Wei said, her voice even and calm, "that thing is a couple billion years old?"
"That would be my guess," Holden said. 
Fayez whistled low. "That is not dead which can eternal lie. Or, y'know, whatever." 
The monster from the desert shifted drunkenly, its legs awkward.

Quem diria. Afinal a série Expanse é em essência ficção científica lovecraftiana. Os traços são subtis, mas estão lá. Vastidões cósmicas. Uma arma biológica alienígena que se manifesta de forma tentacular e transforma radicalmente a fisiologia humana, aglomerando e dando vida a pedaços de corpos. Horrores no espaço. Alienígenas misteriosos e distantes, capazes de obliterar sistemas solares e reduzir civilizações a cinzas, desaparecidos há milhares de milhões de anos deixando dormentes artefactos robóticos ou biológicos e indícios letais da sua existência. Enfim, grandes anciãos que dormem nas profundezas da vastidão cósmica. Sem analisar muito, são toques de Herbert West: Reanimator e At The Mountains of Madness numa série que depois deste parágrafo ter feito clique já não conseguirei deixar de ver como The Colour out of Space em versão space opera.

Insta



This is not the droid you're looking for.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Caliban's War



James S. A. Corey (2012). Calbian's War. Nova Iorque: Orbit.

Neste segundo livro da série Expanse começa-se a traçar um curioso paralelismo com outra série clássica de FC. Continuar a manter a tónica em conspirações vindas de empresas sedentas de lucro e poder que tentam transformar em arma biologias alienígenas enigmáticas e muito perigosas tem o seu paralelismo com a série Alien. Impressão que se torna mais nítida quando o cerne deste segundo livro da série Expanse se centra no aparecimento de criaturas que cruzam seres humanos com elementos do vírus alienígena com enorme capacidade destrutiva.

De resto, este livro replica o primeiro da série. Holden e os seus fiéis companheiros terão de desvendar outra vasta conspiração levada a cabo por milionários sem escrúpulos enquanto se adensa o mistério do que se passa no planeta Vénus, contaminado com um vírus alienígena que se dedica a construir estruturas misteriosas.

O nível de ambição sobe. Se no primeiro da série seguíamos apenas dois pontos de vista, neste os autores arriscam uma maior multiplicidade. E conseguem-no, cruzando metodicamente as diversas linhas narrativas numa espectacular colisão final. Aviso de spoilers: envolve uma titânica batalha espacial. O tom conspiratório da série assume aqui proporções mais vastas do que as do primeiro livro, com a inclusão dos jogos de poder ao mais alto nível do governo das nações unidas que forma boa parte das aventuras deste romance.

É esta a fórmula da série: conspirações de alto nível com repercussões geoestratégicas desmontadas pelos heróis, com boas doses de space opera ciente dos limites da física e FC militarista directamente inspirada nas narrativas de acção em alto mar, com um artefacto alienígena como mcguffin transversal na série. Este segundo volume dá continuidade ao vasto e sólido mundo ficcional, e mantém elevado o nível de prosa. Mesmo não sendo histórias inesperadas, estão muito bem escritas. Os autores que se uniram no pseudónimo de James Corey sabem manter o ritmo e agarrar o leitor ao longo de centenas de páginas, inserindo os necessários infodumps nos momentos certos, temperado acção capaz de acelerar o ritmo cardíaco com conspirações tão complexas que empalideceriam os bizantinos. E são imbatíveis nas referências clássicas quer à FC quer à história da ciência. Pequenos detalhes, como os tripulantes da nave Rocinante chamarem "Jim" ao seu comandante (tal e qual como no Star Trek original), detalhes obscuros nos nomes das naves espaciais ou no dar à principal cidade lunar o nome de Lovell (sem esclarecer se está centrada na cratera com o mesmo nome). Aliás, quando uma série se centra nas corajosas aventuras de um punhado de aventureiros espaciais que tripula um Rocinante, as credenciais eruditas dos autores estão apresentadas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Ye cold advisers of yet colder kings


Ye cold advisers of yet colder kings,
To whose fell breast no passion virtue brings
Who scheme, regardless of the poor man’s pang,
Who coolly sharpen misery’s sharpest fang,
Yourselves secure.
Isto aplica-se tão bem aos dias de hoje, pensei, dias em que analistas de rosto intercambiável se afadigam a demonstrar por a mais b e dois menos dois o quão danoso, trágico, destrutivo, apocalíptico é pagar salários dignos, manter direitos sociais, dinamizar serviços de saúde com qualidade para todos, enfim, precarizando, revertendo as condições sociais aos níveis vitorianos (que, ao contrário do que lêem nos livros steampunk, não eram tempos românticos de liberdade próspera para todos), tudo em nome de mercados, contenções e uso responsável de dinheiros públicos que no final do dia, contas feitas, parece beneficiar apenas aqueles que mais teriam a beneficiar com a reversão, precarização e empobrecimento generalizado. Meras coincidências, certamente.

As palavras são de Shelley, num dos seus primeiros poemas recentemente redescoberto na Bodleian Library de Oxford. Esse Shelley, que por se ter atrevido a escrever este poema tão descaradamente pacifista nos dias em que o reino inglês se atirava à jugular napoleónica, terá acabado expulso de Oxford. E o resto, como bem sabemos, é história, uma história do romantismo classicista que pelo meio meteu a dark and stormy night. O poema fala do horror da guerra, mas aplica-se como uma luva nestes dias de terrorismo económico-ideológico que obriga os moderados a radicalizar-se para tentar proteger o bem comum. Descoberta na leitura matinal dos feeds rss, boa surpresa por entre a torrente informacional de blogs e sites noticiosos que acompanham a caneca de café para despertar os neurónios.

Interzone #258

 
Será assim tão difícil encontrar novos escritores de ficção cientifica com vontade de publicar? Lendo a Interzone, parece que sim. A maior parte do que edita está longe do registo de FC, sendo nalguns casos de fantasia pura e noutros contos classificáveis como de literatura mainstream. O estreitar de horizontes com demarcação excessivamente rigorosa dos géneros não é saudável, claro, e é desejável, mas este leitor começa a sentir falta de alguns foguetões a temperar as narrativas com outras ambições literárias.

A Shout Is A Prayer, T. R. Napper: Uma história sobre desigualdades extremas num mundo hiperliberal, com um ex-lutador obrigado a entrar num contrato de servidão para assegurar a liberdade de dívidas da sua família. No fundo,  uma projecção do mundo contemporâneo,  precarizado, dominado por interesses económicos que pulverizam a ordem social, num futuro proximo.

The Re'em Song, Julie Day: uma aventura de fantasia pura, num mundo fantástico onde a carne e os ossos de unicórnios selvagens são um bem precioso. As paisagens ficcionais deste conto serão fascinantes para fãs de fantasia, mas confesso este texto foi lido em diagonal.

Doors, Bonnie Stufflebeam: Um conto mais inserido no realismo mágico do que na FC, nesta história onde uma jovem leva o seu irmão com síndrome de down a um parque de diversões e encontra uma estranha atracção que lhe abre as portas de outras realidades possíveis. Narrativa sólida, vinda de um nome já habitual na Interzone.

Angel Fire, Christien Gholson: Conto que não se percebe muito bem o que anda a fazer nesta revista. As menções a anjos dão-lhe uma aura de fantástico, mas o ser uma longa ruminância mental sobre hipocrisia e enriquecimento tornam-o o tipo de texto cuja inclusão numa revista de ficção científica, por lata que seja na sua abordagem, é de difícil compreensão.

Her First Harvest, Malcolm Devlin: Para encerrar, um toque de FC com uma dose simpática de fantasia estética. O primeiro embate de uma jovem debutante com a alta sociedade planetária é a faísca que nos acompanha no desenrolar da colonização de um planeta rico em minerais mas agreste, que obrigou os colonos a adaptar os métodos agrícolas para sobreviver. Vivendo num solo estéril, plantam as sementeiras nos próprios corpos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica

 

Roberto Causo (ed.) (2007). Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica. São Paulo: Devir Livraria/Pulsar.

É estranho. Temos história comum, falamos a mesma língua, temos acordos ortográficos para normalizar a grafia, temos comunidades integradas. Mas a presença cultural do Brasil por cá faz-se sentir maioritariamente pelos produtos culturais de baixíssima qualidade televisivos e musicais. Talvez seja distracção ou ignorância minha, mas tirando alguns nomes de renome a literatura brasileira é por cá pouco conhecida. Então no que toca à literatura fantástica, o desconhecimento é quase total. Se estiver muito errado nesta minha opinião, sintam-se livres para a comentar em força. De preferência com links que provem o contrário.

Escrevo isto sabendo que há publicações online e editoras que fazem pontes e leva autores de cá para o público brasileiro ou nos dão um vislumbre do que lá se faz. Tenho acompanhado algumas. Mas é paradoxal. Com pelo menos duas editoras dedicadas à FC e Fantástico com presença nos dois lados do atlântico, seria de esperar um maior intercâmbio de edições e autores. Uma das coisas que me intrigou com a presença da Saída de Emergência no mercado brasileiro foi a possibilidade de ver nas livrarias portuguesas literatura fantástica de autores do lado de lá do atlântico (e, já agora, o contrário). Tal ainda está para acontecer, e aposto que há excelentes razões de lógica do mercado e financeira para isso. A Devir trouxe para cá algumas antologias, que se vão encontrando em feiras do livro. Apanhei esta no Amadora BD, exemplar algo raro de encontrar.

A antologia em si destaca-se por prometer o que não cumpre. Suspeito que tal como em Portugal, a FC brasileira tenha de se abrir ao realismo mágico, ao fantástico e ao terror para ganhar gravitas. Aquela FC mais pura, dura, de cerne na especulação de base científica, está quase ausente da antologia. Talvez, e agora estou a especular na corda bamba, tal como por cá, uma tradição cultural pouco virada para as ciências não as tenha tornado fonte de inspiração para os autores que arriscaram as ficções fantásticas. Se a qualidade dos contos é elevada, é discutível que sejam os melhores no campo da FC, a menos que estiquemos muito as fronteiras de género.


O Imortal, Machado de Assis: É impossível não ler este conto sem pensar em Mary Shelley ou Borges. Assis segue o caminho do imortal cansado da vida, farto de perder entes queridos e ver o mundo passar sem que nada mude, realmente. Dá-lhe uma variante tipicamente brasileira, com a imortalidade conferida por um elixir ciosamente guardado por uma tribo amazónica a um nobre filho de pai holandês e mãe espanhola cujo ardor pela vida o leva às maiores aventuras pela europa e américas. O conto torna-se interessante precisamente pelo que não nos conta, sugerindo ao invés de detalhar as peripécias que o nobre e progressivamente fatigado imortal vive. Incluir este conto numa colectânea de FC parece-me esticar demasiado o conceito. A narrativa é belíssima, mas não tem nada a ver com o género, e o antologista justifica-se com uma rebuscada interpretação do elixir primevo à luz da para-ciência homeopática. Pode não ter elementos de FC, mas é uma belíssima variante de temas explorados nos mais bem conhecidos contos The Mortal Immortal ou El Immortal (sublinhando-se, claro, que o conto de Borges é posterior ao de Assis).

Meu Sósia, Gastão Cruls: O antologista refere que Cruls ganhou o lugar no panteão da FC brasileira com um romance de história alternativa sobre Amazonas na amazónia. Para esta antologia seleccionou um conto bem construído sobre doppelgangers, sublinhando o paralelismo com William Wilson de Poe. O conto de Cruls segue um outro caminho, mais psicológico, com um escritor a deparar-se com seu duplo rival enquanto pesquisa material para um novo livro. A conclusão do conto aponta para o artifício fácil de resolver a narrativa como uma alucinação do protagonista.

Água de Nagasáqui, Domingos Silva - Sobreviver ao impossível deixa marcas. Um sobrevivente dos bombardeamentos nucleares de Nagasaki descobre que é portador de uma estranha maldição. Aparentemente não afectado pela radiação, provoca a morte de todos os que o rodeiam.

A Espingarda, André Carneiro - Um típico relato pós-apocalíptico, com um personagem a vaguear pelas ruas das cidades destruídas, sobrevivendo por entre as ruínas e cadáveres. A solidão é-lhe dolorosa, e quando finalmente encontra um outro sobrevivente, o encontro decorre de forma muito inesperada e acaba resolvido a tiro.

O Copo de Cristal, Jerônimo Monteiro - Um conto de fortes conotações políticas, compreensíveis mesmo para aqueles que têm um conhecimento difuso da história brasileira. Um homem idoso, a recuperar do trauma de uma prisão por motivos políticos, encanta-se com um copo de cristal que o acompanha desde a sua infância. Quando a noite cai, estranhas cores são visíveis no cristal transparente. Mas a sua mulher e sogro vêem mais, vêem imagens de guerra e morte no futuro ou passado trazidas pelo crista cristalino.

O Último Artilheiro, Levy Menezes - Mais uma aventura pós-apocalíptica, com o último sobrevivente de uma pandemia coligada com ataques nucleares automáticos a disparar um canhão do alto do abrigo bem abastecido que encontrou. Aparentemente dedica-se a exterminar répteis que talvez estejam a tornar-se bípedes.

Especialmente, Quando Sopra Outubro, Rubens Scavone - Essencialmente uma reescrita de contos de Ray Bradbury nesta história sobre uma rapariga que tem o poder de criar manifestações físicas do que sonha.

Exercícios de Silêncio, Finísia Fideli - Um dos contos mais sólidos na abordagem clássica à FC. Um astronauta com a sua nave avariada aterra numa colónia perdida cujos habitantes regrediram em consciência para formas de vida e organização social pré-tecnológica. Obra sólida, com um intrigante mundo ficcional.

A Morte do Cometa, Jorge Calife - Outro conto a aproximar-se da Hard SF (têm sido raros, nesta antologia). Num futuro próximo, uma missão para salvar o cometa Halley da erosão causada pelos seus múltiplos volteios pelo sistema falha redondamente. Intrigante como homenagem a um cometa que é símbolo do progresso científico.

A Mulher Mais Bela do Mundo, Roberto Causo - Um conto incómodo, que parece ser uma banal história de romantismo entre um fotógrafo brasileiro a viver em Nova Iorque e uma bela mulher, mas que ganha toda uma nova dimensão quando um alienígena entra em cena. Alienígena esse que decide abandonar a Terra após ver o trabalho do fotógrafo, que registou uma miséria e desigualdade tão comum quer às civilizações humana quer à extraterrestre.

A Nuvem, Ricardo Teixeira - A encerrar a antologia, um conto delicioso na forma como urde narrativas tradicionais com ficção científica pura. A história é sobre uma cidade do interior brasileiro desaparecida e esquecida pela memória, após longos anos de seca e o surgir de uma estranha nuvem que parece recupera o viço aos terrenos mas se revela como uma experiência falhada de colonização alienígena. A antologia encerra como inicia, com um conto de extraordinária qualidade literária.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

An Introduction to 3D Printing

 

Victora Zukas, Jonas Zukas (2015). An Introduction to 3D Printing. First Edition Design Publishing.

O que torna interessante esta introdução à impressão 3D é a forma como foge à hipérbole especulativa habitual nestas obras. Seco e itemizado, o livro tem o conteúdo referenciado, estando mais próximo do trabalho académico do que da obra de divulgação que é. Estruturalmente aborda de forma introdutória as várias vertentes da impressão 3D, passando pelas tecnologias, materiais, tipos de modelação 3D, metodologias de trabalho e aplicações. Fá-lo com muitas referências que permitem ao leitor mais interessado aprofundar estas questões. Termina de maneira algo espúria, com um descenessário tutorial de modelação 3D para impressão com o Meshmixer, que só se enquadraria bem no livro se este também se debruçasse sobre outras aplicações de modelação 3D.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Comics


Johnny Red #01: A Titan Comics decidiu ressuscitar um personagem clássico dos comics britânicos, daqueles tipicamente militaristas criados para instilar nos rapazes dos anos 60 os valores heróicos dos combates na II Guerra Mundial. O que distinguia este de muitos outros foi um certo carácter de anti-herói e as suas aventuras decorrerem não nos céus da batalha de Inglaterra ou na França ocupada, mas na Frente Leste. De resto, é o que se espera, o inglês terra a terra que com o seu invencível Hurricane lidera um esquadrão soviético no aniquilar dos invasores alemães. Garth Ennis está aos comandos deste revivalismo, como autor que tem mostrado que sabe caminhar na fronteira entre a estrutura original do personagem e o rigor histórico. Já as ilustrações de Keith Page acertam no ponto.


 Survivors Club #02: Esta aventura de Lauren Beukes na Vertigo está a mostrar-se decididamente bizarra. A segunda parte adensa a estranheza e entra no campo do weird mais puro enquanto mantém a premissa que mescla cyberpunk e terror. É um comic estranho, que ao ler se sente que está escrito com uma sensibilidade mais literária do que o habitual. Algo óbvio de dizer, bem sei, dado que Beukes se afirmou como romancista, mas sublinha uma pouco habitual falta daquela linearidade que se espera num argumento de BD.

James Bond #01: É James Bond, esse anacronismo irrelevante dos sonhos húmidos do machismo e da guerra fria. Mas é Warren Ellis a escrever, o que o coloca no meu radar. Ellis tem afirmado que fugiu da iconografia fílmica do personagem, preferindo centrar-se na sua versão literária original. A ver vamos no que dá, mas certamente que a Berlim que o argumentista tanto invoca vai ser palco de aventuras violentas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Leviathan Wakes


James S. A. Corey (2011). Leviathan Wakes. Nova Iorque: Orbit.

A vontade comparar este livro com Ancillary Justice, de Anne Leckie, é enorme.  Ambos são space operas que recuperam a grandiosidade barroca desta vertente da ficção científica. Assentam em sólidos e vastos mundos ficcionais, em parte explorados com detalhe ao longo da progressão narrativa, mas a deixar intuir outros elementos intrigantes para lá do que nos é contado. Ambos são romance-périplo, com personagens que percorrem vastidões espaciais a resolver os seus conflitos. Mas terminam aqui as similaridades. A obra de Leckie não teme as questões de multiplicade cultural e género (que são, aliás, os seus pontos mais centrais). Já Leviathan Wakes foge por completo a estas questões. É uma space opera à moda antiga, descontraída, que não se preocupa com temáticas profundas e segue alegremente o caminho de um militarismo aventureiro quase heinleiniano.

Há aqui um certo risco de entrar em caminhos de sad puppies, com este elogio à space opera de aventura militarista, longe das questões mais complexas que a ficção científica contemporânea se atreve a abordar. Mas não. Há espaço no género para as várias abordagens, e se sabe muito bem mergulhar em obras complexas e questionadoras de limites sociológicos, também sabe bem desligar a complexidade e aproveitar um assumido mimo para a imaginação, especialmente um mimo tão bem escrito e desenvolvido como este. Um dos crimes dos sad puppies e sua igualha foi o de instrumentalizarem vertentes mais clássicas da FC para defender as suas visões retrógradas de intolerância tacanha e nostalgia por um tempo onde minorias ditavam o curso das sociedades (algo que em muitos níveis ainda não nos libertámos).

A  série Expanse dá-nos um futuro não muito distante em que a humanidade se espalhou pelo sistema solar. A Terra e Marte são os grandes centros de poder politico e militar, com a míriade de entrepostos que coloniza a cintura de asteróides, as luas de Júpiter e estações espaciais intra-solares como territórios disputados entre a semi-independência e a ingerência das potencias do sistema. São civilizações interdependentes mas de culturas radicalmente diferentes. As fronteiras do sistema foram abertas graças a uma tecnologia de propulsão nuclear que permite às naves atingir velocidades sub-lumínicas e encurtar os tempos de travessia entre planetas e entrepostos, e nada mais para além disso. A humanidade está trancada nos limites do sistema solar. Nada de viagens instantâneas e warp speeds. A série procura ser verosímil mesmo quando se vê obrigada a esticar os limites da ciência.

O delicado equilíbrio de forças é posto em causa através de uma série de acontecimentos que provocam uma guerra intra-estelar entre terrestres, marcianos e independentistas da cintura de asteróides. Somos guiados de forma exímia ao longo de uma narrativa que nos mostra que a guerra é uma diversão que oculta uma conspiração. A descoberta de um artefacto alienígena, uma bio-arma de consequências imprevisíveis, é utilizada por uma corporação para alterar radicalmente o equilíbrio de poderes no sistema, com a guerra como distração para ocultar horrendas experiências de bio-engenharia. A história desenrola-se através das peripécias da tripulação sobrevivente de um cargueiro que se depara com uma nave à deriva por entre os asteróides mais isolados, e um polícia que investiga o desaparecimento da herdeira de uma das maiores fortunas terrestres que vive uma vida de rebeldia como agente ao serviço dos independentistas da cintura de asteróides.

E mais do novelo narrativo não revelo. Uma boa parte do prazer de ler este livro é a forma como as peças da linha narrativa se encadeiam com uma lógica que que não conseguimos antever. O resto são as empolgantes batalhas espacias entre naves. O livro é essencialmente uma belíssima desculpa para imaginar e descrever ao pormenor as tecnologias futuristas das aguerridas marinhas espaciais. Não é por acaso que esta série foi escolhida pelo canal SyFy para desenvolvimento televisivo. Mistura de forma exímia acção, aventura e intriga num sólido mundo ficcional de iconografia clássica. Representa na perfeição a vertente mais lúdica e descomplexada da ficção científica.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Amadora BD 2015


Devo dizer que ao alterar a disposição de sempre do festival o Amadora BD assumiu o seu principal interesse para os fãs e conhecedores de banda desenhada. Centrar na entrada a área de autógrafos e livrarias foi uma ideia excelente, se bem que perigosa para a carteira. Por outro lado, secundarizou por completo a exposição-âncora desta edição do festival. Seria interessante que o evento se assumisse mais como feira de livro de banda desenhada, uma vez que nas exposições já nos habituou a uma continuidade monótona de grande exposição-âncora com tema pensado para agradar às escolas, que são o verdadeiro público do festival, seguida de instalações sobre alguns autores e álbuns editados.

A sensação que tive este ano, para além de ardor na carteira, foi que estaria a ver uma continuação do festival do ano passado. Claramente reciclaram muitos dos adereços do ano anterior, algo especialmente notável na exposição dedicada ao ano editorial, se é que podemos apelidar de "exposição" a livros agrafados a paletes de madeira. Aquilo não teve piada da primeira vez, e relegado para a cave - parque de estacionamento ainda fica com um aspecto mais deprimente.



Encolhi os ombros face à exposição central, A Criança na BD. Boa desculpa para desempoeirar personagens antigos, alguns conhecidos e outros completamente esquecidos, é uma exposição eminentemente pedagógica. Faz parte da tradição deste festival centrar-se em exposições viradas quer para o público que é leitor casual de BD ou para as escolas, cujas visitas de estudo certamente fornecem a maior parte do número de visitas ao festival (escrevo com conhecimento de causa, já participei na organização de algumas). O relembrar de personagens icónicas tem sempre algum interesse, mas não resisto à refilice: a única forma que podem colocar Stuart Carvalhais a ombrear com Winsor McKay é mesmo porque ambos criaram personagens infantis. É algo patético tentar enquadrar um autor português cuja qualidade advém apenas da sua importância histórica com os talentos mais vincados dos grandes desenhadores. Não que a ideia de recuperar Carvalhais seja má. Pelo contrário, um dos bons aspectos do festival é a forma como pode preservar a história da banda desenhada portuguesa.



Das restantes exposições, destacaria as dedicadas à Zona de Desconforto, As Serpentes de Água e 30 Anos de Tertúlia de Banda Desenhada. Estou curioso com a dedicada a Tardi, mas que sendo fora do espaço do Amadora BD, ainda não visitei.

Como é habitual, o Amadora BD é vítima do seu sucesso. Não deixa de ser um espaço que reúne criadores e leitores, coloca a BD no mapa cultural, é uma oportunidade para enriquecer as estantes e vai caminhando na linha ténue entre evento para a comunidade de banda desenhada e festival camarário obrigado a cumprir os requisitos da política local. Esperamos sempre dele algo de novo e fascinante, mas dá-nos sempre mais do mesmo. Mofento, li por aí algures, e não discordo. Mas repete-se todos os anos, ritualista, e se não se repetisse o panorama cultural ficaria muito mais pobre.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Living Will (#04 e #05)

 

André Oliveira, Pedro Serpa (2015). Living Will #04. Lisboa: Ave Rara.

Uma edição amarga, com Will a descobrir que o que para ele foi uma rejeição marcante não afectou a mulher que foi uma das paixões da sua adolescência. É também uma edição que aprofunda mais algumas histórias paralelas, criando linhas cuja intersecção se prevê que ocorra no final da série. Desta vez é Pedro Serpa que ilustra a história de André Oliveira, e apesar das diferenças de estilo gráfico com Joana Afonso o grafismo da série não é muito alterado. Living Will é um comic muito monocromático, com um tom dominante em cada edição.



André Oliveira, Joana Afonso (2015). Living Will #05. Lisboa: Ave Rara.

A tonalidade de verde cinza sublinha o drama deste episódio, onde Will confronta um amigo cuja vida, sonhos e aspirações foram destruídas por uma bem intencionada acção de Will. O andensar das linhas narrativas parece apontar para uma redenção final onde Will talvez encontre uma segunda vida com outra personagem em busca de rumo num destino amargo. Nesta edição regressa à série o traço expressivo de Joana Afonso.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A Night in the Lonesome October



Roger Zelazny (1993). A Night in the Lonesome October. Nova Iorque: Avon Nova.

Devo confessar que da primeira vez que me cruzei com este livro não fiquei impressionado. Experimentei-o quando descobri que havia uma algo obscura tradição de o ler no mês de outubro. Peguei, li-o como de habitual, e fiquei desencantado. A história não agarrava, apesar da mística de homenagem ao terror clássico no cinema e literatura. Afinal, estava a lê-lo da maneira errada. A Night in the Lonesome October está pensado para um outro ritmo de leitura do que o habitual pegar e ir lendo até terminar. Não é por acaso que a tradição é ler um capítulo por dia até ao dia 31 de outubro. A cadência rítmica da narrativa está pensada para este ritmo de leitura. Quando refreamos o impulso de seguir os capítulos e lemos apenas um por dia, de preferência em ordem cronológica, a história entra na mente. Nestes dias de rapidez e eficiência, é interessante experimentar um outro ritmo, uma outra temporalidade literária.

Na noite de Halloween diz-se que a fronteira entre o real e o além está mais frágil do que o habitual. Noite propícia para que criaturas das trevas se escapem aos seus territórios habituais e nos assombrem. Talvez algo mais tenebroso aguarde pacientemente as brechas para invadir e alterar a realidade tal como a conhecemos. Talvez nessa noite se trave uma luta titânica entre aqueles que usam os seus poderes para abrir as brechas e os que as fecham. Talvez essa luta seja um jogo que se repete todos os anos, em que durante o mês de outubro os jogadores se posicionem pacientemente para chegar à configuração correcta no momento crucial em que a realidade poderá ser salva ou destruída. É esta a premissa do romance de halloween de Zelazny, que recupera figuras icónicas da ficção clássica de terror como peças de um xadrez cósmico que se repete desde tempos que a memória já esqueceu.

A galeria de personagens recupera com alguma discrição figuras clássicas. O herói inesperado é Jack, com a sua casa cheia de criaturas inomináveis aprisionadas e uma tendência para uso preciso de facas afiadas nos becos da Londres vitoriana. Opõe-se directamente a Jill, personagem que encarna as visões literárias sobre bruxas, num conflito visto como jogo. Estando em lugares opostos das barricadas, entendem-se muito bem e é intuído que se complementem a todos os níveis. As outras forças em jogo incluem uma criatura saída do laboratório de um cientista dedicado a experiências tenebrosas, um reverendo padre dedicado à obra pia dos grandes anciãos cósmicos, um druida, um par de ressureccionistas, um homem abençoado com a maldição da licantropia, um monge russo, um detective sagaz que não sendo participante se apercebe que algo de grave se encontra em andamento e se dedica a perceber como intervir, e um conde vampírico, força malévola que no momento mais crucial se alia ao lado do bem porque, como observa, gosta muito do mundo tal como ele está e não o quer estragado pela acção incógnita de forças tentaculares do além-espaço. Não é difícil encontrar listagens sobre os personagens ficcionais ou reais homenageados neste livro.

A história é contada sob o ponto de vista dos animais familiares dos interventores no jogo. Acompanhamos Snuff, o cão de Jack, nas suas tarefas diárias de perceber as linhas da geometria mística da cerimónia enquanto se esquiva às tentativas de sedução de uma criatura demoníaca aprisionada que assume as formas de sensuais cadelas, sem perceber que o cão o distingue pelo faro. Snuff tem uma profunda amizade com Graymalk, a gata de Jill. Sabem que estão em oposição, mas ajudam-se mutuamente.  O homem e o seu cão, a mulher e a sua gata, alternando entre amizade e oposição. A metáfora sobre o dualismo é óbvia e sublinhada num final em que os dois inimigos regressam juntos a casa depois do triunfo do bem sobre o mal. Afinal, é tudo um grande jogo, que se repete numa circularidade sem fim.

Último romance de Zelazny, talvez inspirado pela frase Jack and Jill went down the hill que encerra o livro, sublima em sátira de horror a influência literária de Shelley, Stoker, Doyle, Stephenson, Lovecraft cruzada com a iconografia dos filmes clássicos de terror da Universal. Lê-se ao ritmo de um capítulo por dia, de um a trinta e um de outubro. De preferência à noite, porque o livro é exímio em conjurar as criaturas noctívagas do horror.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Comics


Arcadia #06: Um detalhe fantástico neste comic distópico pós-apocalíptico em que a humanidade sobreviveu a uma pandemia global transferindo as consciências dos indivíduos para um mundo virtual que replica as injustiças e disfunções do mundo físico. Com variantes, como esta mina de bitcoin com trabalho escravo, matéria valiosa no espaço virtual.


Art Ops #01: Uma nova série com uma premissa estranha para os padrões da Vertigo: as obras de arte são reais, vivas, e precisam de ser defendidas por uma organização secreta que se dedica a proteger os ícones artísticos, substituindo-os por agentes e protegendo-os em vidas anónimas. É o que explica a Mona Lisa a frequentar super-mercados e a apaixonar-se pelo rapaz simpático do atendimento. Com Michael Allred a ilustrar, o deslumbre é garantido.


Where Monsters Dwell #05: E assim se concluem as aventuras de Phantom Eagle, desastrado às dos ares que sem saber muito bem como conseguiu sobreviver a dinossauros carnívoros, pigmeus vingativos, uma tribo de sensuais amazonas sáficas e especialmente às maquinações de uma viúva feminista militante em fuga. Bully for you, chum, que a má da fita terá de se render ao terrível destino de viver nos trópicos rodeada de louras esculturais. Garth Ennis não se poupou a estereótipos nesta divertida série.