segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Comics
Clean Room #01: Um belíssimo exemplo do melhor do terror numa única vinheta. Depois de criar suspense e dar vislumbres de monstruosidades, vira-se a página e deparamos com uma prancha negra. Que seja a imaginação do leitor a construir o terror. É uma técnica que ultimamente, mercê do gosto dos ilustradores e modeladores 3D em criar intricadas criaturas de horror, anda arredada do terror na banda desenhada e cinema. Visões fantásticas, que deixam para segundo plano impacto do suspense.
Karnak #01: Warren Ellis tem andado a queixar-se no Orbital Operations de como este personagem amoral e desumano lhe anda a entrar na cabeça. Nota-se. Ellis tirou o pó às filosofias solipsistas com uma náusea humanista que deixaria Sartre deprimido. Já na construção formal da narrativa, o argumentista usa a mesma técnica cinematográfica que aprimorou em Moon Knight. Cada vinheta vê-se como um enquadramento de câmara, funcionando como cenas em sequência fílmica de ritmo marcante.
The Steam Man #01: Os conhecedores dos primórdios da ficção científica não são alheios a The Steam-Man of the Prairies, uma edisonade de Edward Ellis, escritor popular do século XIX. O desafio de recriar o personagem foi entregue a Joe R. Lansdale, que o revê em linhas de terror grimdark. O argumentista caminha numa linha sinuosa entre terror visceral e fantástico juvenil enquanto coloca em jogo as peças da narrativa. Ainda não percebi se foi bem sucedido ou não.
domingo, 25 de outubro de 2015
Insta
Durante o espectáculo a criança vira-se, corre e diz com voz alegre mamã, já sei como é que se chama o elefante. É o Solimão, disse o senhor...
(A Viagem do Elefante em Óbidos e Lego Fan Event nas Caldas da Rainha.)
sábado, 24 de outubro de 2015
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Make: Design for 3D Printing
Samuel Bernier, Bertier Luyt, Tatiana Reinhard (2015). Design for 3D Printing: Scanning, Creating, Editing, Remixing, and Making in Three Dimensions. Sebastopol: Maker Media.
Já se sabe que este tipo de livros da Make: não se destacam pela profundidade, sendo guias abrangentes mas algo superficiais. Não deixam de ser bons pontos de iniciação a tecnologias e técnicas de trabalho. Este destaca-se mesmo pela sua abrangência, na forma como aborda técnicas de trabalho que permitem modelar para impressão 3D. Está cheio de boas dicas sobre modelação com apps Autodesk (com especial incidência para o 123D Design), digitalização 3D e preparação de mesh para impressão. Bom guia introdutório, que desperta a imaginação para a aprendizagem de técnicas de trabalho para impressão 3D. Inclui, habitual nos livros sobre o tema, a obrigatória introdução hiperbólica sobre o potencial desta tecnologia e uma análise às melhores impressoras FFF no mercado, onde a beethefirst ombreia com as makerbots, claramente a impressora de eleição no Fablab de origem dos autores deste guia.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Interzone #257
Mesmo com Alastair Reynolds a ancorar esta edição com um conto de hard SF pura, esta Interzone desaponta muito. Os restantes contos ou assentam em premissas interessantes mas de execução desastrosa, ou usam a FC como mero e distante adereço. Note-se que esta crítica não é uma revolta contra tendências mais literárias dentro da FC. As narrativas experimentalistas são sempre interessantes, e se nesta edição se notou um investimento em autores claramente com vontade de experimentar, não pareceu que estivessem suficientemente afinados para corresponder ao que prometiam.
A Murmuration, Alastair Reynolds: Um dos autores mais conhecidos da space opera britânica dá-nos um conto curioso, onde um cientista isolado no terreno descobre que o tipo de estudo que está a fazer, relacionado com os padrões de comportamento que regem os bandos de pássaros, tem estranhas consequências. Especialmente quando percebe que ao controlar a trajectória de alguns dos animais gera uma entidade de computação em swarm que mostra sinais de inteligência.
Songbird, Fadzlishah Johanabas: Uma belíssima capacidade narrativa, com um estilo muito imagético, não chegam para salvar um conto maculado por uma premissa patética. Numa Kuala Lumpur de futuro próximo distópico, uma rebelde envolve-se com um mercenário, extraindo-lhe informação graças à sua capacidade de... cantar. Porque, no mundo deste conto, algumas mulheres genéticamente predispostas foram manipuladas para segregar substâncias fortemente aditivas enquanto cantam. Eu avisei que a premissa era patética.
Brainwhales are Stores Too, Rick Larson: Um casal de adolescentes com mais psicotrópicos do que tino invade um laboratório de computação avançada para revelar ao mundo as condições degradantes em que vivem os computadores. Computadores biológicos, entenda-se, cachalotes que confinados em tanques conseguem fazer cálculos matemáticos complexos. Conto intrigante pelo conceito, apesar da narrativa girar mais à volta das emoções adolescentes do que aquilo que lhe dá interesse.
The Worshipful Company of Milliners, Tendai Huchu: outro conto com premissa interessante, muito poética, que falha na execução. A inspiração dos escritores vem de fantásticos chapéus invisíveis, tecidos por chapeleiras numa fábrica onde resiste a última musa literária. Premissa intrigante, de um fantástico poético, mas assente numa narrativa desconexa e difícil de seguir.
Blossoms Falling Down, Aliya Whiteley: Suspeito que a autora deste conto tenha diversas versões, prontas enviar para revistas temáticas. Basta alterar duas ou três frases e o conto tanto fica pronto para revistas de ficção científica, romance ou de literatura de iniciais capitalizadas. Há uma ténue premissa de género, com referências muito veladas ao que me pareceu ser uma nave geracional, mas o conto mantém-se na perspectiva sentida de uma aprendiz de gueixa especializada em Haiku e a sua relação com o primeiro cliente. Lá está, alterando algumas frases, esta história muda completamente de tema e enquadramento.
aCalopsia: The Walking Dead #12
Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn (2015). The Walking Dead #15: Viver entre Eles. Palmela: Devir.
As histórias de infestações de mortos vivos tocam nos nossos tribalismos inatos. Especialmente na maneira como concebemos o outro e visualizamos aqueles que são diferentes de nós – quer por cultura ou etnia, como hordes infectas de invasores que vão aniquilar o nosso modo de vida. Os mortos-vivos são apenas outra expressão da visceralidade transmitida pelo Perigo Amarelo, o fardo do homem branco ou os bárbaros aos portões do império. Crítica (if I may be so bold as to call it so) completa no aCalopsia: The Walkind Dead #12.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
Stand on Zanzibar
John Brunner (1999). Stand on Zanzibar. Londres: Gollancz.
Devo confessar uma heresia: sempre imaginei este livro como uma sucessão de aventuras passadas numa Zanzibar dos mitos neo-coloniais africanistas. Terminada a leitura, descobrindo que o que dá título ao livro é uma frase isolada na narrativa, será que me sinto defraudado? Não, claro. Stand on Zanzibar é tido como um dos maiores expoentes da FC New Wave e é preciso lê-lo para compreender isso. O tema do livro é familiar, uma distopia futurista num mundo que enfrenta os impactos do crescimento populacional desenfreado, a par com tensões políticas e sociais fragmentárias onde não falta a fé cega nas capacidades computacionais dos super-computadores para resolverem os problemas à humanidade.
No tema não se distingue da maior parte das obras nesta vertente da FC. O que nos atinge é a forma como Brunner deixou entrar de enxurrada o cânone literário do alto modernismo pela FC dentro. É na sua estrutura narrativa deliberadamente fragmentada que o livro se revela. Leitores que conheçam a obra de John dos Passos, especialmente a trilogia U.S.A., reconhecem a técnica literária. Uma história que se constrói através recortes noticiosos, elementos narrativos puros, fragmentos de percepção cuja conjugação constrói na mente do leitor quer as peripécias da história quer o seu vasto mundo ficcional. Um experimentalismo ao mesmo tempo típico e radical para a época em que foi publicado originalmente.
Esta é uma obra que nos mostra o poder da junção do arsenal especulativo da FC com a vanguarda literária que marcou o século XX. Consequência lógica dos anseios estéticos da New Wave, levando-a quase tão longe quanto Ballard a levou (embora este tenha seguido outros caminhos), abriu a porta a uma FC que não renega outras influências, que se atreve a assumir-se como literatura, fugindo dos espartilhos impostos por visões redutoras de género. Um livro fundamental para a história da Ficção Científica. Se não conhecem, atrevam-se. Irá ser uma viagem atribulada mas recompensadora.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Almanaque Steampunk 2015
Diana Sousa et al (ed.) (2015). Almanaque Steampunk 2015. Porto: Corte do Norte.
Destacar os três contos que formam o cerne desta antologia é um acto muito injusto. Todo o Almanque é uma muito bem conseguida obra de ficção, e se o conto segue os pressupostos mais tradicionais das narrativas ficcionais tudo o resto não lhe fica atrás. Este é um dos aspectos que tem intrigado nestas antologias steampunk, a forma descontraída como se atrevem a explorar aspectos meta-ficcionais. Nesta antologia, tudo faz parte da narrativa global. É um discreto mundo partilhado, que se conta através dos contos mas que ganha vida nos detalhes entretecidos em notas, fait divers, relatos ficcionais, anúncios a replicar o estilo publicitário do século XIX, ilustrações e banda desenhada. Quase uma arte completa, no sentido wagneriano do termo.
Devo dizer que das edições deste almanaque, que tenho acompanhado, esta é a mais sólida e cativante. A evolução tem sido constante e nesta terceira edição conseguiram criar um eficaz ambiente imaginário. Cativante, intrigante, e para mal dos meus afazeres uma leitura imparável. Surpreendeu.
É uma máfia interessante, esta Corte do Norte. Pronto, máfia talvez não seja o melhor termo, mas não consigo pensar em nenhum que inclua conspiradores imaginativos, engrenagens e vapor. Mas tenho uma reclamação a fazer. As aranhas mecânicas que me prometeram incluídas neste livro escapuliram-se do pacote. Enfim. Vou ter de as imprimir em 3D, está-se mesmo a ver.
A Tomada do Palácio de Cristal, Ana Luz: Um grupo de conjurados reúne-se de madrugada numa taberna da ribeira, com o fim expresso de fazer uma espécie de tomada da bastilha aquando da inauguração do portuense Palácio de Cristal pelo rei D. Luís. No final de uma noite bem regada percebem que não são os suficientes para assegurar a revolta. Pela madrugada, a revolução é novamente adiada.
Da Arte e das Razões da Guerra, João Ventura: Neste conto corrosivo os interesses que controlam o carvão, essencial para a propulsão a vapor dos tanques e navios de guerra, mantém aceso o impasse numa guerra que opõe os impérios britânico e germânico. Quando um cientista propõe um método revolucionário de propulsão à base de urânio, que promete terminar o impasse dotando as tropas inglesas de armas mais potentes e rápidas, só há uma coisa a fazer. Assassinar os cientistas e destruir a pesquisa. Afinal, com tudo a correr tão bem nos lucros, para quê inovar?
Excertos do Diário de Miss Evelyn Lasseter, Diana Sousa: O conto de mais puro steampunk da antologia. Uma jovem descobre, entre os diários e laboratório do seu pai, uma fantástica criação. Um autómato dotado de inteligência e sentimentos, que acaba destruído às mãos de uma turba furiosa, pretensa defensora dos direitos da vida biológica.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Comics
Constantine The Hellblazer #05: Este novo Constantine acertou. Não renega a longa continuidade histórica do personagem, mas refresca-o e moderniza-o para o século XXI. E, hey, referências aos The Smiths ficam sempre bem.
Faster Than Light #02: Esta nova série de ficção científica da Image é intrigante. Mistura pura hard SF com toques de space opera e acenos à FC clássica com monstros alienígenas. A tripulação de uma nave da incipiente exploração espacial terrestre recebe uma missão especial: partir pela galáxia em busca de civilizações alienígenas que não sejam hostis a uma Terra que se descobre na iminência de uma invasão extra-terrestre. Apesar da narrativa ser algo desconexa, tem qualquer coisa que desperta o interesse.
The Wicked and the Divine #15: A curiosa mistura de fascínio pela cultura pop com super-heroísmos de origem divina de Kieron Gillen depressa se começou a arrastar na inanidade de uma espécie de novela focada nos dilemas pessoais dos semi-deuses deste panteão efémero que revê os mitos religiosos sob as luzes da ribalta. Mas ainda consegue surpreender. Se as ilustrações de McKelvie costumam ser o ponto alto da série, neste número o grafismo é cedido a Stephanie Hans e o resultado é esplendoroso.
War Stories #13: Garth Ennis leva-nos agora aos céus japoneses do final da II Guerra nesta nova história das suas narrativas de combate. Merecia um melhor ilustrador. A série iniciou com uma história semelhante nos céus do teatro de operações europeu, cujas ilustrações a cargo de Keith Burns atingiram níveis impressionantes de espectacularidade e precisão. Imagens tão influentes que foram repetidas em todos os números seguintes da série. Thomas Aira não se tem safado tão bem. Regressando aos céus, esforça-se nos enquadramentos mas é traído pela pouca precisão do tratamento de cor. São pormenores que interessam aos g33ks da aviação. Mesmo assim, há aqui algumas vinhetas dignas de George Evans em Aces High, o grande clássico que marca este género.
domingo, 18 de outubro de 2015
sábado, 17 de outubro de 2015
Arts & Crafts
A recuperar do Dia dos Clubes de Robótica e Programação, comemoração oficial portuguesa da Europe Codeweek 2015. Um dia que reuniu no Agrupamento de Escolas D. Dinis núcleos que vieram mostrar o que andam a fazer com robótica e programação, bem como professores interessados nestas temáticas. Estive presente representando o Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro, com o projecto As TIC em 3D convidado a desenvolver actividades de live 3D printing aproveitando a mascote da iniciativa de introdução à programação no 1.º ciclo (que carinhosamente se tornou um #robotarmy). Dia produtivo, de partilha e aprendizagem.O que esteve em evidência neste evento foi mais do que pedagogia e resultados de aprendizagem. Foi o arts and crafts de Morris, o tinkering de Paper, o fazer da cultura maker, a criatividade baseada e alimentada pelo conhecimento técnico, o experimentalismo alicerçado na tecnologia. E não vos maço mais. Se estiverem interessados nestes devaneios do Robot Intergaláctico com impressão 3D e educação, visitem o registo nas TIC em 3D.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Dylan Dog #296: La Seconda Occasione
Paola Barbato, Giampiero Casertano (2011). Dylan Dog #296: La Seconda Occasione. Milão: Sergio Bonnelli Editore Spa.
Esta aventura surpreende-nos por girar à volta de um paradoxo temporal. Dylan, farto das agruras de uma amante bipolar, decide deixá-la apesar das ameaças repetidas de suicídio. Regressa, temendo pela vida da amante, e encontra-a já cadáver, com uma faca espetada no coração, e um vulto que foge ao longe. Crendo-a assassinada, persegue o assassino e dispara contra ele. Acreditando tê-lo morto, desesperado porque agiu contra a sua natureza, Dylan pede ajuda à viúva de um antigo inimigo para que, com poderes ocultos, vá ao passado para compreender a morte da amante. Regressa à casa da amante, assiste, impotente, ao suicídio e é surpreendido por si próprio, compreendendo finalmente que está preso num laço temporal. Descrito desta forma a história parece mais interessante do que é, mas a premissa está bem explorada e consegue surpreender o leitor.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Dylan Dog #297: Il Sortilegio
Giancarlo Marzano, Corrado Roi (2011). Dylan Dog #297: Il Sortilegio. Milão: Sergio Bonnelli
Editore S.p.A..
Este sortilégio não é um dos piores momentos de Dylan Dog. Diria que medíocre não chega para descrever o quão tediosa é esta aventura do Old Boy. Percebemos logo que é um mal de amores que provoca a maldição vodu que aflige Dylan com dores inesperadas. É muito óbvio que virá do triângulo amoroso formado pela nova namorada de Dylan e a sua irmã, caidinha de amores pelo investigador. Resta saber se é a irmã ou a mãe-megera das raparigas, a responsável pelos alfinetes espetados numa efígie de Dylan. Mas nem quando a história dá a volta revelando uma outra culpada pela maldição nos consegue surpreender. Nem a ilustração, apesar de estar ao cuidado de Corrado Roi, um dos grandes nomes do fumetti. Interessante capa, no entanto. Alude a um delírio sugerido por três velhotas de conversa mórbida, misto de parcas e bruxas de macbeth, que entretém os doentes que aguardam nos consultórios com histórias edificantes sobre doenças fatais e cirurgias que deixam instrumentos dentro dos corpos dos pacientes.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
3D Printing: The Next Industrial Revolution
Christopher Barnatt (2013). 3D Printing: The Next Industrial Revolution. Explaining The Future.
Suspeito que entre 2013 e 2015 o panorama global da impressão 3D não se tenha alterado assim tanto, embora seja provável que o directório global de empresas ligadas a esta indústria emergente teria de reflectir a explosão na impressão 3D. Apesar do título bombástico, Barnatt assenta o livro numa longa e detalhada explanação das diferentes tecnologias de impressão 3D e suas potencialidades, ancorado nas condicionantes técnicas que lhe são inerentes. Não esperem daqui previsões bombásticas e ocas sobre o futuro brilhante da impressão 3D na casas de todos. Para além de um detalhar didáctico das várias vertentes da tecnologia, o ancorar das análises de potencial na condições técnicas, sociais e económicas é um dos grandes pontos de interesse deste livro. A visão de longo prazo de Barnatt é algo deprimente, postulado um futuro próximo onde a impressão 3D pode ser a resposta aos desafios do fim de uma globalização trazida pelo esgotamento de recursos energéticos.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Visões
The Martian, Ridley Scott (2015): "I'm gonna have to science the shit out of this" é uma frase demasiado boa para não ficar na memória colectiva. Resume muito bem o espírito quer do filme quer do livro em que se baseia: perante situações inimagináveis, decompor os problemas, e usar a razão e o conhecimento para os ir ultrapassando. As condicionantes da linguagem cinematográfica significam que vemos um The Martian redux, sem os longos mas interessantes infodumps do livro original, e percebe-se bem na forma como o realizador se esforça por contextualizar alguns dos momentos a falta que as explicações fazem. Ridley Scott pega muito bem na obra de Andy Weir, sublinhado a resiliência e bom humor do astronauta abandonado em Marte, valorizando na narrativa a sua vertente de Robinson Crusoe no espaço em modo hard SF. Os detalhes estão perfeitos (fantástica, a nave Hermes), com um elevado nível de plausibilidade que, novamente, respeita bem o livro. Respeito esse que se mantém até nas partes mais fracas do mesmo. Quem leu The Martian deve, tal como eu, ter chegado a momentos em que se perguntou porque é que o autor tanto insistiu em continuar a empilhar adversidades em cima de adversidades sobre o seu astronauta. Este sofre torturas que fazem as de Job parecerem suaves. É bom ver o realizador de clássicos marcantes da Ficção Científica como Alien e Blade Runner regressar à boa forma, depois de um desastre conceptual (mas com uma estética fantástica) como o patético Prometheus. Em The Martian não há geógrafos incapazes de ler mapas ou alienígenas avançados a semear a vida no planeta. Apenas um cientista, utilizando a tecnologia de que dispõe e o seu saber para tentar sobreviver.
As interwebs estão a adorar o pormenor do concílio de Elrond. Pessoalmente, prefiro destacar a omnipresença de Saturn As Seen From Titan, uma das ilustrações icónicas de Chesley Bonestell que marca de forma indelével as nossas visões da exploração espacial. Não por acaso, esta visão é a base do logotipo da Titan Books. O quadro é muito visível como detalhe em fundo sempre que há reuniões na administração da NASA. A sua influência faz-se sentir na visão que Ridley Scott nos dá dos wide open spaces marcianos, que filma com o mesmo sentimento de grandiosidade que David Lean conferiu aos desertos arábicos em Lawrence of Arabia. Sente-se o espanto, a necessidade de ir lá, o coração a palpitar com a ideia de exploração. Sabemos que estamos a ver as zonas do Arizona celebrizadas em inúmeros westerns trabalhadas com VFX cuidado e verosímil, mas sentimo-nos por entre os valle e platinitia marcianos. Que Ridley Scott se inspira nas visões clássicas de FC para as suas iconografias é algo que está patente em Prometheus, e no incontornável Blade Runner. Este filme sublinha essa vertente estética, notando-se que Scott se ancora muito em Bonestell para visualizar e enquadrar esta visão da presença do homem na superfície de Marte.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Comics
Miracleman by Gaiman & Buckingham #03: Esta tardia reedição do clássico e influente comic britânico, sintomática do fim das disputas legais sobre propriedade intelectual que durante décadas, traz de regresso a revisão por Alan Moore dos estereótipos dos comics de super-heróis, que viria a levar mais longe com Watchmen e Promethea. Moore, avesso a certos costumes típicos da indústria, é creditado nesta reedição com um críptico mas muito óbvio the original artist. Finalizando a série, entramos no campo de Neil Gaiman, que contrapôs o seu estilo mais metafísico ao experimentalismo seco de Moore. Gaiman sempre foi um deslumbrado com ideias e conceitos intrigantes, e levou por aí o personagem, mais nos campos da fantasia do que da FC. De caminho lega-nos este episódio, com Mark Buckhingham a acompanhar na perfeição o fascínio pela arte contemporânea.
Starve #05: A terminar a primeira temporada, este comic afasta-se um pouco do futurismo visceral, com Brian Wood a entrar no mais banal dramalhão familiar. O que não muda é o expressionismo puro da ilustração de Danijel Zezelj, o grande ponto forte desta série, a par da premissa original que levou ao absurdo os reality shows de culinária gourmet. Ou talvez não, parece que a ideia de degolar e esquartejar animais para cozinhar ao vivo já apareceu num ou outro Masterchef.
Survival's Club #01: Não sendo uma estranha ao mundo dos comics, Lauren Beukes está claramente a ser romancista neste novo comic da Vertigo. O lançar da premissa e colocar das peças em jogo é feito de forma muito fragmentada, claramente a tecer diversas linhas narrativas que vão muito para além do conceito-base de um jogo de computador malévolo que de alguma forma afectou a infância dos personagens. Estamos no terreno do fantástico dark, e acho que nos espera uma wild ride. Um aparte: depois de conhecer Beukes nos encontros Próximo Futuro da Gulbenkian, é-me impossível não achar que a personagem Alice não tenha sido visualmente decalcada da autora. É demasiado parecida com Lauren Beukes... e quem esteve por lá reconhece as similaridades.
domingo, 11 de outubro de 2015
Ode ao empreendedorismo
Not sure if... ironia pura ou estão mesmo a falar a sério. Indo perscrutar ao GOG dou logo na primeira página com um destaque a Lula: The Sexy Empire, um jogo antigo para Amiga, portado para Windows. Descrito como ode ao empreendedorismo e profundo e cativante simulador de negócios. Mas o texto de promoção ainda melhora:
In the age of struggling economies and high technology, the spirit of entrepreneurship is one of the greatest treasures one can ever own. (...) In Lula: The Sexy Empire you will make your path from rags to riches: you'll start up your own multimedia production empire, and you'll do it with spunk.
Esta ode ao empreendedorismo mostra como enriquecer com prostituição e filmes pornográficos. Jogos que passam para lá das linhas para despertar o interesse nos jogadores e cativá-los apelando aos impulsos sexuais não são nada de novo, nem este jogo o é (notem: desenvolvido para Amiga). A Wikipedia é mais lacónica e informativa:
The game revolves around building a multi-million dollar pornography and erotica industry.
Adorei foi a forma como foi descrito, decaldadinha dos manuais de práticas empresariais dos proponentes empreendedores, dos bater punho e similares. Tirem a imagem sugestiva e as palavras sexy empire e tudo o resto é o tipo de texto que se encontraria num jornal económico ou coluna de opinião. Não sei se foi intencional, mas a ironia com o discurso dos neo-liberais que querem impingir a toda a força a falácia salvífica do empreendedorismo é completa.
Fui parar ao GOG através deste artigo no Ars Technica sobre jogos de simulação urbana, cuja leitura se recomenda.
sábado, 10 de outubro de 2015
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
aCalopsia: H-alt #01
Diria que o saldo final desta primeira edição da H-alt é muito positivo. Traz aos leitores um conjunto heterogéneo de histórias e ilustrações, equilibrando alguns nomes mais maduros com muitos desconhecidos prometedores. Focaliza-se em géneros literários pouco explorados por cá, e pretende abrir-se ao espaço da lusofonia. Mais na crítica publicada no aCalopsia: Revista H-alt 01.
Our Robots, Ourselves: Robotics and the Myths of Autonomy
David Mindell (2015). Our Robots, Ourselves: Robotics and the Myths of Autonomy. Nova Iorque: Viking.
O ponto mais interessante dos argumentos sobre robótica autónoma deste livro é o equilíbrio que mantém entre visões de deslumbramento e apocalípticas do impacto social e histórico destas tecnologias. Coisa rara. O mas habitual é ler-se um deslumbramento total, com a robótica como mito salvífico que irá libertar a humanidade do jugo do trabalho sem sentido (pensem Hans Moravec, e todos os que postulam vidas de ócio possibilitadas por servos mecânicos). Ou, corrente mais contemporânea e influenciada pela crise global que atravessamos, visões tenebrosas onde software de automação e robots pulverizam empregos e carreiras, beneficiando elites dominantes enquanto condenam uma grande parte da humanidade à indigência. Já Mindell tem os pés mais assentes na terra, especialmente porque se torna notório ao longo do livro que não é teórico ou economista, mas sim engenheiro com uma larga experiência nalguns dos mais icónicos projectos de robótica autónoma. Quando se participa nas equipas de trabalho multidisciplinares que constroem e operam robots autónomos, a visão do omnipotente robot overlord desvanece-se face às fiabilidades, avarias, inconsistências, bugs de sistemas que obedecem primariamente às leis de Murphy.
Mindell conduz-nos através de algumas das vertentes de investigação neste campo, passando pela automação de sistemas aeronáuticos, robots submersíveis, drones militares, veículos autónomos e exploração espacial. São retratos que tece com detalhe por vezes excessivo (há parágrafos que são melhor legíveis na diagonal, o argumento está feito, os exemplos dados, o resto é acessório, interessante mas não fundamental). A imagem que transparece é uma de simbiose entre máquinas e humanos, em vários níveis. Sublinha o quanto a dependência de sistemas automatizados pode prejudicar o sentido crítico de quem os utiliza, com consequências potencialmente fatais. Mostra que as possibilidades da telepresença criam um sentimento de imersividade nos utilizadores. E, fundamentalmente, aponta para a omnipresença do factor humano mesmo na robótica mais avançada. Somos nós que a concebemos e programamos, e as nossos pressupostos influenciam directamente a sua concepção. Este é o argumento mais pertinente de um livro intrigante, que segue um caminho sóbrio e intermédio, ancorado na experiência prática, na reflexão sobre práticas e consequências da robótica e automação.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Época Morta e (À Suivre)
José Carlos Fernandes (1997). Época Morta e (À Suivre). Lisboa: Polvo.
É daquelas coisas inesperadas. Passo pela cinemateca para ir ao cinema mas, na livraria que lá se encontra, dou com uma inesperada secção dedicada à BD cheia de fanzines e edições já antigas. Saiu de lá este livro vindo do longínquo ano de 1997, quando José Carlos Fernandes era uma promessa da BD portuguesa e não o desencantado veterano hoje afastado.
Nas aventuras do personagem Lou Velvet, Fernandes começou a revelar o surrealismo borgesiano que veio depois a desabrochar naquela que é inquestionavelmente a sua obra maior, A Pior Banda do Mundo. Os encantadores elementos de estranheza, as vénias literárias e influências de outras artes estão já aparentes nestas histórias, embora ainda sem a força e elegância que veio a desenvolver mais tarde.
Época Morta: uma história que desvirtua o policial com toque surreal, onde o prototípico detective alcoólico se vê a braços com uma epidemia de mortes misteriosas de turistas alemães no hotel que o contratou. Os turistas, disfarçados de antigos operários, eram na verdade veteranos das SS que caíram na mira de um sobrevivente de campo de concentração durante as nostálgicas celebrações anuais que organizavam todos os anos num banal hotel de estância turística massificada à beira-mar.
(À Suivre): E se... numa exposição de banda desenhada os principais autores, demasiado similares aos personagens clássicos da BD, fossem sendo assassinados por um Ignatz aliado à Krazy Kat, guerrilheiros em nome da pureza artística do género? Humor mordaz aliado a uma simpática vénia à história da BD.
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Burma Banshees
Yann, Romain Hugault (2015). Burma Banshees. Genebra: Paquet.
Estamos em 1944 na frente birmanesa, onde uma jovem e apropriadamente escultural mulher-piloto aterra, desestabilizando o consenso machista sobre as capacidades femininas nos cockpits. Encarregue de voar aeronaves DC3 sobre os Himalaias, na perigosa rota de auxílio à China, depressa se revela uma piloto competente, capaz de se safar das situações mais complicadas graças à resiliência que adquiriu com a dependência de material de segunda linha.
Este tipo de histórias saídas do argumentista Yann para a Paquet são formulaicas e previsíveis. Divertem o leitor com fantasias passadas nos teatros míticos da guerra aérea, e é por isso mesmo que foram criadas, para alimentar o fascínio pela aviação clássica. Nestes livros, a narrativa tem um lugar terciarizado face àquilo que os leitores vão dar mais importância: a estética e iconografia da aeronáutica. Nisso, Yann tem o parceiro certo em Romain Hugault. Este ilustrador, com o seu traço elegante e preciso, invoca de forma espantosa a beleza das aeronaves em vinhetas deslumbrantes. Com tão boas ilustrações aeronáuticas, reforçadas com iconografia de pinup retro, estes livros são viciantes para aqueles que, como eu, têm um fraquinho sobre os pássaros de metal que cruzam os céus.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Sincronicidade
Com saudades da Cinemateca e sabendo que ia estar por Lisboa nestes dias, fui surpreendido com a projecção do filme Os Emissários de Khalôm de António de Macedo. Perfeito para alternar com o congresso dos professores de informática, pensei. Ver filmes de Macedo é evento tão raro que não se pode deixar escapar qualquer oportunidade de ver ou rever. Pensei que a sessão fosse um freak event na programação da Cinemateca, mas estava inserida no âmbito do festival Arquitecturas Film Festival numa vertente dedicada ao futuro. Sendo um dos raros filmes de ficção científica portugueses, diria que o seu visionamento é obrigatório num evento destes. Quanto ao festival, deveria ter estado mais atento. No mesmo dia, noutro cinema, organizaram uma sessão sobre 3D printing com projecção de documentários e discussão com notórios impressores 3D nacionais, que só descobri horas depois de ter sido realizada. Bolas. Daria perfeitamente para sair do congresso, continuar na onda 3D, e chegar a tempo da ficção cientifica. Azares.
O que foi de todo inesperado foi contar com a presença de António de Macedo na sessão, acompanhado de António de Sousa Dias, compositor da banda sonora do filme. Macedo, com o bom humor e humildade que o distingue, falou-nos um pouco do filme, da assumida impossibilidade da FC em antever futuros, e da tecnologia computacional. Nunca cessa de encantar ouvir Macedo terminar dizendo-nos que espera que o filme nos divirta tanto como se divertiu a fazê-lo.
A sincronicidade esteve em parte do que partilhou connosco. Ao falar do filme falou de tecnologia computacional, recordando-nos da gloriosa era da computação em linha de comandos. Depois da partilhar ideias junto de professores de informática, e falar sobre 3D printing, quem diria que o dia ainda me reservaria ouvir o sempre brilhante António de Macedo a falar sobre linhas de comando, workstations IBM que em 1987 eram a vanguarda da computação, e a vida antes dos interfaces WYSIWYG. Só para sublinhar o quanto as coisas mudaram, recordo que a IBM já não fabrica computadores. Ah, a sincronicidade, esse conceito de Jung que quando menos esperamos nos apanha a jeito e surpreende.
Rever Os Emissários de Khâlom permitiu-me reparar em elementos que me tinham escapado no primeiro visionamento do filme, no saudoso ciclo dedicado ao realizador. A forma intrigante como o esoterismo e a FC pura se unem no filme. O futurismo proto-cyberpunk das entidades algorítmicas que se encarnam em seres ao longo do tempo, assumindo faces da dualidade do bem e do mal. A hilariante expressão ameaçadora dos montanheses que tentam caçar incautas condutoras no meio da Serra da Estrela. O humor corrosivo e ainda hoje tão certeiro com o utilitarismo cego na investigação cientifica. A influência do espectro da guerra nuclear, um medo hoje esquecido nas entrelinhas da história do século XX. A atomização dos tempos que condenam as personagens a repetir paixões e temores. O utilizar um fractal de Mandelbrot como elemento gráfico da narrativa.
Quanto aos célebres computadores, que Macedo confidenciou que à época a IBM lhe pediu discrição por ser uma novidade no mercado, equipam uma sala de investigação que décadas passadas sobre a sua concepção ainda parece moderna. Apesar dos computadores com duas entradas de disquete de 5" (uma para correr o sistema operativo e outra para aplicações, diz o professor de TIC que há em mim), dos monolíticos monitores CRT, das impressoras de agulhas ou dos televisores para mostrar vídeo linha a linha. Até o lado mais fantasista, com o computador inteligente que se assemelha a um ovóide (impossível não pensar na iconografia de FC de Jodorowsky e Moebius) ladeado de painéis que vão piscando em diferentes cores não envelheceu tão mal como Macedo nos confessou que temia quando fez o filme.
Não passam filmes suficientes deste extraordinário realizador. Quando passam são raros e circunscritos a eventos que mal se dá por eles. Não há cópias disponíveis em DVD dos seus filmes para que possam ser vistos e revistos noutros contextos. Enquanto professor envolvido nas actividades do Plano Nacional de Cinema na escola onde lecciono, reflicto muitas vezes sobre a impossibilidade de mostrar a obra de Macedo aos nossos alunos. Por isso, mesmo sabendo que dificilmente será lido (no PNC sei que sou ouvido, uma das coordenadoras é também fã incondicional deste autor único), deixo aqui um recado à Cinemateca: queremos mais António de Macedo. Quer em projecção, quer transposto em DVD. Como eu gostaria de organizar uma sessão com Chá Forte com Limão, a Maldição de Marialva ou este Emissários de Khâlom para os meus alunos. Com a vantagem adicional de neste poderem rever algo que lhes falo nas aulas de TIC numa outra luz. Enfim, vamos refilando, porque se não o fizermos ajudamos a que a fantástica obra de Macedo caia no esquecimento.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Comics
2000AD #1950: Está de regresso Brass Sun, o épico clockpunk de Edginton e Culbard. Promete novos mergulhos nos mundos contidos no gigantesco planetário mecânico cujos habitantes se esqueceram que estão interligados por um intricado mecanismo de relojoaria. Agora, é impressão minha ou o simulacro de um criador desaparecido é mesmo muito parecido com Kurt Vonnegut?
Providence #05: Já percebemos o quanto o conhecimento de Moore dos contos de Lovecraft é enciclopédico. Ao revisitar a obra do autor, consegue urdir uma teia que tem tocado em praticamente todos os principais contos, integrando-os numa narrativa coerente que vai muito para além dos mythhos enquanto mundo partilhado. O desafio ao leitor é elevado, especialmente porque Moore não alude de forma óbvia aos personagens e às histórias. Quem leu Lovecraft apanha as pistas, percebe o que se esconde debaixo do véu. Os locais e os nomes são alterados, mas o cerne está lá. Neste quinto volume somos levados à universidade do Miskatonic e à velha Arkham sem que estes nomes sejam alguma vez citados. Moore transpõe a geografia real da Nova Inglaterra para a ficcional da obra de Lovecraft. Mas as pistas estão lá. Quando o incauto jornalista, aspirante a escritor (ele próprio um retrato físico fiel de Lovecraft enquanto jovem) pisa os corredores de uma universidade, sabemos que é a do Miskatonic, que as ruas da cidade são as da gótica Arkham, que a quinta que visita assolada por um estranho meteoro é The Color Out Of Space, que o médico com que cruza é Herbert West Re-Animator mal disfarçado sob o apelido de North, que a casa decrépita habitada por uma simpática velhota que raramente lá está e onde sofre estranhas alucinações é água furtada onde forças ocultas de outras dimensões repassam para a nossa realidade de The Dreams of the Witch-House. Sendo uma revisitação de Alan Moore, não esperem facilitismos ou concessões indulgentes ao pouco conhecimento que os leitores poderão ter dos Mythos e da obra de Lovecraft. Terminado de ler este número, cada vez mais me pergunto o que é que me escapa, que referências a contos que já esqueci perdi, se o trabalho de escritores como Derleth ou Bloch também é referenciado por Moore, algo de concebível se recordarmos que o primeiro número de Providence vai beber muito aos contos de The King in Yellow de Chambers.
The Sandman: Ouverture #06: Termina como começa, o que é apropriado. Este regresso de Sandman sempre foi assumido como uma prequela do fantástico e marcante arco narrativo legado por Neil Gaiman. A aventura esotérica entre universos que colapsam conta-nos o que deixou Morpheus tão susceptível de ser capturado por ocultistas de segunda linha no início da série. E tudo o resto é história. É apropriado que encerre exactamente como iniciou, repetindo a primeira vinheta de Sam Kieth no longínquo Sandman #01. Este regresso fugaz foi uma delícia, recordando a influente série, trazendo novamente o estilo literário de Gaiman aos leitores de comics, e com um fortíssimo sentido estético de J.H. Williams III, completamente à solta e a dar o seu melhor em pranchas visualmente espantosas. Também é de sublinhar o ser um regresso comedido, curto coda adicionado ao historial do personagem, sem ambições de reboot que iria esgotar a série.
domingo, 4 de outubro de 2015
Impressão 3D no 1.º CNPI
Registo da partilha de práticas, no dia 2 de outubro, no auditório da Microsoft. Optei por um estilo de apresentação mais informal e coloquial. Fui o último a falar num dia recheado de keynotes e apresentações que iniciaram às nove da manhã. Achei que pelas seis da tarde já ninguém teria paciência para um discurso cinzentão. Creio que é uma forma de apresentar que faz cada vez mais sentido. Sacrifica-se algum rigor científico mas ganha-se no transmitir da paixão que se sente pelo objecto de estudo. Note-se que falar e apresentar algo de forma informal não significa falta de seriedade. O lado mais técnico, descrito de forma sóbria, anotado com bibliografia referenciada de acordo com os normativos APA irá em breve ser aqui disponibilizado. Espero ter cativado a audiência, e pelo que me foram dizendo no dia seguinte gostaram do que viram. E da abordagem. Um colega perguntou-me se era assim que dava aulas. De facto, é. Descomplicar, desmistificar, sorrir. Ser sério não obriga a ser sisudo, ou obriga?
Confesso que tenho uma certa ambivalência nesta estratégia de divulgação. Como bom introvertido que sou, nada me deixa mais confortável do que ficar no meu cantinho/espaço/sala de aula/atelier a fazer "cenas" giras. Por outro lado, faz-se tantas coisas giras nas escolas que geralmente se mostram apenas naquelas exposições dentro da escola que ninguém vê. Se não divulgarmos, é como se não existisse. É um pouco como aqueles escritores que escreveram fantásticos livros que se encontram devidamente arrumados nas pastinhas correctas dos seus discos rígidos, e daí não saíram. Não arriscar a partilha especialmente fora dos contextos habituais, é um pouco como escrever para a gaveta. Se estiverem interessados em divagações sobre impressão 3D e educação, vão às TIC em 3D: 1.º Congresso Nacional de Professores de Informática - Impressão 3D: Experiência Introdutória. Se não estiverem, também não é por isso que nos chateamos.
sábado, 3 de outubro de 2015
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
H-alt #01
Um projecto intrigante, que já andava a fazer blip no radar há uns tempos, está finalmente disponível para leitura online. A H-alt assume-se como revista digital focalizada na banda desenhada, ficção científica, historia alternativa e fantasia.
Fantasia? Meh, disso há por aí a pontapé (Fantasy & Co. e outros), resmungo com a minha paciência nula para elfos e passados feéricos recheados de magia, apesar de reconhecer o esforço e a qualidade de quem escreve nesta vertente do fantástico. Agora haver um foco assumido em ficção científica e história alternativa... wow, kudos, despertam o interesse e apostam em campos que rareiam no fandom português.
A iniciativa promete, e resta lê-la, algo dificultado por terem apostado no Issuu como plataforma de publicação. Slide e zoom são os ingredientes certos para leitura distractiva. Surpreende como em 2015, com a web completamente integrada no dia a dia, quem faça publicação digital raramente leve em conta elementos como resolução, orientação ou adaptação aos ecrãs. Estes rapazes até não são dos piores. O Issuu é chato mas dá para ter uma ideia razoável do conteúdo da e-zine. Na leitura aprofundada é que o caso talvez mude de figura. Mas há pior. Os editores académicos que publicam artigos em pdf (epub é algo que nem lhes passa pela cabeça) formatado como página A4 em duas ou três colunas como se de papel impresso se tratasse, são verdadeiras pragas, que tornam a leitura dos artigos num martírio seja qual for o dispositivo que não uma folha impressa.
Estamos em 2015. Pela sua inflexibilidade, PDF é óptimo para impressão, mas se o conceito é o de leitura digital é dos piores formatos possíveis, senão o pior, precisamente pela forma como não se ajusta ao formato de diferentes ecrãs. A nostalgia da página impressa com os seus formatos é bonita, mas dificulta e muito a leitura digital. Fica-se com a sensação que quem edita desta forma pretende mais ser editado do que lido.
Apesar dos meus resmungos sobre usabilidade, não deixem de visitar a revista. São os meus traumas da leitura de papers académicos em três colunas que obrigam a ziguezaguear no ecrã e são impossíveis de ler no meu fiel e-reader. Ou então talvez seja uma cena geracional e eu esteja a ficar demasiado decrépito para os interfaces preferidos pelos jovens.
Projectos destes nunca são demais. Rumem a H-alt no Issuu para ler as novas vozes do fantástico por cá. Se cuscarem no site deles encontram ainda outras promissoras leituras de banda desenhada na secção álbuns H-alt. Este é claramente um projecto a seguir. Prometo que a tentarei ler.
Dylan Dog #290: Anime Prigionieri
Paola Barbato, Angelo Stano (2011), Dylan Dog #290: Anime Prigionieri. Milão: Sergio Bonelli Editore S.p.A..
Uma aventura curiosamente ternurenta do Old Boy. Dylan é arrastado por um grupo de jovens para ajudar uma rapariga, fantasma presa à terra pelo mistério da sua morte violenta. Dylan investiga, impressionado com o drama da jovem fantasma. As pistas óbvias apontam para o condutor que a atropelou, homem dilacerado pelo arrependimento que não quer sair da prisão. Mas as sensações transmitidas por um outro fantasma inquieto, de um pequeno terrier, acabam por desvendar a história. Afinal a assassina foi uma traumatizada velhota, que abateu o cão que amava ao saber que este sofria de cancro, e ao deparar-se com o corpo da jovem atropelada decide também dar-lhe o que acredita ser o golpe de misericórdia. História em que Dylan entra em terrenos mais conhecidos de séries como Ghost Whisperer, sobre os dramas de fantasmas inquietos que precisam de resolver assuntos do mundo real antes de avançarem em direcção à luz. Como pormenor de humor, a argumentista esforça-se por convencer os leitores que Dylan é um ídolo que deixa os corações das jovens adolescentes a palpitar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















































